Valquíria: A Heroína da Marvel e Sua Relação com as Lendas Nórdicas

Há pouco tempo a Marvel Comics anunciou que trará uma nova série em quadrinhos que será estrelada pela personagem Valquíria. A atriz Tessa Thompson encarnou a versão da personagem para o MCU no filme Thor: Ragnarok poucos anos atrás. Essa versão da personagem chegou a ir para os quadrinhos fazendo parte da equipe dos Exilados, um grupo de personagens de realidades alternativas. Contudo, quando a Valquíria apareceu pela primeira vez, ela era uma personagem radical, muito diferente da atual. Neste post vamos falar um pouco mais dela e de sua relação com as Valquírias, as guerreiras de Odin na mitologia dos povos nórdicos.

As Valquírias, como as escolhidas de Odin para conduzir os mortos ao Valhala (o descanso final dos bravos heróis) só começaram a ganhar mais destaque quando o compositor Richard Wagner estreou a sua famosa ópera A Cavalgada das Valquírias, dentro da sua obra composta de quatro delas para O Anel do Nibelungo, baseado nas lendas vikings. A sinfonia composta no século XIX, foi imortalizada em filmes e em desenhos animados do começo do século e até mesmo em filmes mais recentes como Apocalypse Now e Operação: Valkiria. Antes disso, as valquírias eram tidas como entidades monstruosas, que poderiam se comparar com as erínias ou as górgonas da mitologia grega. Elas também eram confundidas com as nornes (as moiras da mitologia grega), principalmente com Skuld, que era, das três irmãs responsáveis por conduzir o fio da vida, responsável por cortá-lo. A etimologia do nome valquíria significa “a que escolhe os mortos”.

VALmythos

Antes de Wagner, portanto as valquírias estavam associadas ao mito da mulher-monstro, da parte sombria do ser humano regida pelo feminino. Dessa forma, não era de se estranhar que quando uma personagem chamada Valquíria estreou nos quadrinhos, ela trazia à tona o lado belicoso das mulheres. Era a década de 1970 e o movimento feminista estava à toda e, como sempre, os quadrinhos refletiam a sociedade. E claro, que nem sempre os quadrinhos refletiam os movimentos sociais da maneira certa. A Valquíria era uma mulher guerreira que se infiltrou na equipe dos Vingadores e, junto com a Vespa, Viúva Negra, Feiticeira Escarlate e Medusa fundou as Ladys Liberadoras, cujo grito de guerra (na época pensado como feminista pelo roteirista Roy Thomas) era: “Vamos acabar com esses machos porcos chauvinistas!”.

VALlady

Tudo se revelou sendo um plano da maléfica Encantor que havia tomado a forma da Valquíria e encantado as mulheres da equipe para que se voltassem contra e derrotassem os homens dos Vingadores. Contudo, uma nova Valquíria surgiu, era uma bibliotecária Bárbara Norris que entrava em contato com runas nórdicas e se tornava a Valquíria. Ela fez parte, então, da equipe dos Defensores, que contava também com Hulk, Namor, Doutor Estranho e Surfista Prateado. Esta Valquíria se apresentava com o seu cavalo alado, Aragorn, e portanto tinha muito mais a ver com as valquírias de Wagner do que com as da mitologia viking propriamente dita. Isso porque na sociedade viking, portar armas e andar a cavalo era algo relegado ao masculino:

VALdefenders

“Em uma sociedade dominada por uma visão inteiramente masculina, a representação da jornada de um guerreiro do mundo dos vivos para o mundo dos mortos não poderia ser questionada ou abalada. Caso uma valquíria fosse representada portando armas ou montada a cavalos, ela seria um elemento contra a ordem e a legitimação dos triunfos e da realeza dos heróis. Assim, sua imagem como serviçal [de Odin] reforça as representações de uma grande recompensa para uma vida marcial masculina, além de manter a ordem odinista” (LANGER, 2009, p. 66)

VALdani

Também a nova mutante Danielle Moonstar, a Miragem, quando tornada por Hela numa Valquíria, montava um alazão preto de nome Ventania. Claro, existe uma razão mitológica para existirem mais que uma Valquíria. Brunhilda, a nossa Bárbara Morris, não é a única do sua espécie, a exemplo de Danielle. São nove as valquíria de Odin. Todas elas, como Brunhilda possuem nomes relacionados com a guerra. Nove é um número sagrado dos nórdicos e está relacionado a Odin. Nove também são os dias em que o rei dos aesires ficou enforcado na árvore dos mundos, Yggdrasil, para obter sabedoria.

LALvalkirie

Assim como Bárbara Norris, a Brunhilda e Danielle Moonstar, as valquírias não são valquírias por toda sua vida. Elas se tornam assim quando são solicitadas, geralmente em tempos de guerra, quando precisam recolher os caídos em batalhas e conduzi-los até a morada definitiva dos heróis, o Valhalla. Por isso, nem sempre Brunhilda e Dani são serviçais de Odin ou de Hela. Elas possuem o seu aspecto solar, que é o seu lado humano, de acordo com muitas lendas nórdicas que falam que valquírias já serviram como princesas e rainhas por alguns períodos de tempo.

VALtessa

Brunhilda ou Brynhildr é a mais famosa de todas as valquíria, muito por causa da obra do compositor Richard Wagner, mas também por causa de obras anteriores como a Edda poética e a Völsunga Saga. Suas odisséias e lendas foram contadas e recontadas séculos a fio, principalmente por seu envolvimento nas epopéias dos heróis vikings Gunnar e Sigurd. Contudo, para as valquírias, descritas como mulheres-cisnes na sua mitologia, casar-se era uma punição de Odin para suas protegidas, porque ao se tornarem reprodutoras e, portanto, maculadas por um homem, elas passam a não serem mais ameaças para um guerreiro ideal.

VALannabelle

Na série de 2013, Destemidas Defensoras, escrita por Cullen Bunn e desenhada por Will Sliney, a Valquíria é unida à arqueóloga Annabelle Riggs, que passa a ser seu laço mortal com este mundo. Contudo, existe aí um laço complicado. Passamos a série toda sabendo que Annabelle possui uma paixão avassaladora por Brunhilda e, quando a arqueóloga acaba revelando seu amor para a Valquíria, e que é correspondido, as duas precisam fundir seus corpos para que uma delas não deixe de existir. Assim, como num Feitiço de Áquila, as duas nunca poderão se encontrar para concretizar seu amor uma pela outra. Esse aspecto da sexualidade de Valquíria também foi confirmado por Tessa Thompson, a atriz que é bissexual e faz a personagem nos filmes do MCU.

VALexiles

Dessa forma, podemos encarar a evolução da personagem Valquíria no Universo Marvel da mesma forma como Johnni Langer aborda a evolução do mito das valquírias dentro da sociedade nórdica e dos escritos dos vikings:

VALevoluçãodomito

E ficamos com um vídeo com a música da ópera A Cavalgada das Valquírias, de Richard Wagner. Repare como a obra inspirou as músicas-tema de Superman: O Filme, de Indiana Jones e de Star Wars.

REFERÊNCIA:
LANGER, Johnni. Deuses, monstros e heróis: ensaios de mitologia e religião viking. Brasília: Editora da UnB, 2005.

Anúncios

Deixe um comentário, caro mergulhador!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.