À Espera de Um Milagre. Senhor Milagre, de Tom King e Mitch Gerads

Senhor Milagre é um quadrinho intrincado em significado e no uso da linguagem dos quadrinhos, mostrando o quanto Tom King está de posse da mídia que ele trabalha. Não que a arte magnífica de Mitch Gerads fique atrás. Como diria o Faustão: “Um gibizão desses, bicho!”. Não é à toa que a espera por ele nas patacoadas da Panini gerou tanto frisson e revolta nos nerds. Senhor dos Milagres, como em Senhor dos Anéis, a Panini tinha um gibi para a todos governar, mas reivindicou do trono. À Espera de um Milagre ficaram os leitores, aguardando ansiosos com muita demanda para pouca entrega da Panini. Esta é só a resenha do primeiro volume, mas ela rende muita análise. Porque se tem um quadrinho que você tem que ler neste começo de ano é esse gibi!

MILfellPara começar uma análise mais aprofundada do quadrinho do Senhor Milagre, precisamos começar pelo design do layout. Todas as páginas do quadrinho são divididas em nove quadros por página. Isso significa que a revista se serve daquilo que Ivan Brunetti chamou de “grade democrática”, ou seja, um esquema de layout que permite o mesmo espaço para todos os quadros. Isso já foi usado por quadrinistas como Alan Moore e Dave Gibbons em Watchmen, por Warren Ellis e Ben Templesmith em Fell: Cidade Brutal e por David Lapham em Balas Perdidas. Contudo, somente King e Gerads usaram da “grade democrática” em exclusivamente todo o quadrinho. Todas as páginas possuem nove quadros. Eles não se aglutinam e eles não se dividem.

Segundo Brunetti, a grade democrática é usada quando os artífices dos quadrinhos querem dar um ritmo mais pontuado à narrativa. Perceba bem como King e Gerads distribuem o “Darkseid é”, nas páginas do primeiro volume do quadrinho de uma forma rítmica e bem temporalizada para entendermos que o “lado sombrio” ou o “dark side = Darkseid” vem se apossando da vida de Scott Free a ponto de ele tentar “fugir da morte”.

MILcapinha

Alan Moore costuma chamar esse tipo de variação de ritmo, que funciona no aspecto de um relógio, com um elemento externo invadindo um elemento interno, de ritmo metronômico. Um metrônomo é um instrumento que serve para medir as batidas de um ritmo. Seja ele musical, seja ele do coração, ou das partidas de xadrez. Ele é muito importante para essas atividades. Um tique e um taque. Um relógio. Não por acaso o Dr. Manhattan é um consertador de relógios. E não por acaso em Senhor Milagre, quando Metron (o deus do tempo e do espaço) aparece, quando o tempo metrológico do tique e do taque estão sendo invadido por “Darkseid é” para e as interferências, os ruídos na arte começam.

MILnoise

As interferências revelam o ruído que está interferindo na vida de Scott Free. A doença mental da depressão que ele está sentido e que faz com que ele queira ao mesmo tempo se livrar das fugas e continuar fugindo eternamente. Afinal, quando estamos em depressão tudo que queremos é fugir daquela situação, mas em grande parte das vezes não temos força nem para sair da cama, quem dirá fugir de qualquer coisa. Darkseid, então, poderia ser a depressão da alma humana, a inação que nos faz parar de agir contra as coisas que nos incomodam. “Darkseid is”, portanto, assume dois significados, já que no inglês o verbo “to be” significa ser e estar ao mesmo tempo. “Darkseid é” você e “Darkseid está” em você. Segundo o filósofo coreano Byung-Chul Han, no livro A Agonia do Eros:

“O que leva à depressão é uma relação consigo mesmo exageradamente sobrecarregada e pautada num controle exagerado e doentio. O sujeito depressivo-narcisista está esgotado e fatigado de si mesmo. Não tem mundo e é abandonado pelo outro. Eros e depressão se contrapõem mutuamente. O eros arranca o sujeito de si mesmo e o direciona para o outro. A depressão, ao contrário, mergulha em si mesma” (HAN, 2017, p. 10)

MILbed

Assim o que o Senhor Milagre enfrenta em sua depressão é uma dificuldade de estabelecer as coisas a partir da alteridade, da visão do outro. O que é um problema da rotina de muitos casais. Nós vemos no quadrinhos que a rotina de casal do Senhor Milagre e da Grande Barda anda lado a lado com seu cotidiano de guerras. A ponto de que no último volume os dois ficam discutindo sobre reformar a casa e fazendo pouco caso dos inimigos e das armadilhas que se sobrepõem à sua frente. A impressão que dá é que, para o casal, tomar decisões sobre o futuro é muito mais complicado do que exterminar um exército de parademônios. E realmente é. Pensar e refletir sobre as coisas demanda mais energia do que agir sobre elas.

Portanto, a grande fuga que o Senhor Milagre precisa executar, não é fugir da morte, como de uma entidade fantasmagórica. Ele quer fugir da sua vida, marcada pela troca terrível que seu “Pai Celestial” fez com ele e Órion para evitar uma guerra, fugir da infância nos poços de Apokolips onde era maltratado pela Vovó Bondade, fugir de uma vida de exploração publicitária por seu empresário Funky Fleishman (alter-ego de Stan Lee, segundo Jack Kirby, seu criador) e encontrar sua redenção nos braços da Grande Barda, numa relação que beira o sadomasoquismo em face ao modo como os dois foram criados. Ao mesmo tempo Scott Free encontra ao outro e a si mesmo em seus momentos na cama com a Grande Barda. É ali que ele opera milagres. É ali que ele encontra o sagrado. Vejam como esse momento em que Scott está atado na cama lembra a imagem de Jesus Cristo, pregado na cruz, como o redentor de si e da humanidade. 

MILdarkseidis

Ao mesmo tempo, Scott está preso em sua vida que é metaforizada pelo layout das páginas. Afinal, esse layout é uma grade, uma grade democrática como as barras de uma prisão, de uma cadeia. O layout da página, então, serve para o leitor perceber, meta textualmente, que o Senhor Milagre está preso nas mãos do leitor, que dita o ritmo da sua vida entre as grades da página. A vida é uma grande armadilha. A imposição da identidade,  o ato de nos colocarmos no mundo, sermos quem somos e exercer esse “ser/estar” é uma grande armadilha. Afinal, como nos aponta Judith Butler, ao analisar os papéis de gênero relegados a um sexo: “Isso não é liberdade, mas uma questão de como administrar a armadilha na qual o sujeito inevitavelmente se encontra” (BUTLER, 2017, p. 20). A nossa relação imaginária e dos outros com nosso senso de identidade, de continuidade, de como devemos ser e como precisamos nos comportar, segundo Butler, uma “relação com uma ameaça imaginária e vigorosa, e que é vigorosa exatamente porque é imaginária”. Darkseid é.

MILframes2

Se o Senhor Milagre é definido como alguém que escapa de todas as armadilhas, como ele será definido quando desistir de escapar de qualquer coisa? Quando desejar morrer e se livrar do que ele é definido? Quando a grande armadilha da qual ele tem de se livrar é tudo aquilo que o definiu por toda sua vida? Percebemos esses ruídos na história e nos quadros da jaula quando Scott tenta redefinir a si mesmo. Toda vez que ele pensa estar contando uma mentira, uma inverdade, fugindo daquilo que ele e os outros estabeleceram para ele, existe um “ruído na comunicação”. Na Teoria da Comunicação, toda vez que acontece um ruído numa comunicação quer dizer que a mensagem vai chegar diferente ao receptor de como ela saiu do emissor. A intenção vai se fragmentar. A partir disso, pode haver um erro de interpretação nessa mensagem. Mesmo assim, lá pelas tantas na história, a Grande Barda exprime o seguinte diálogo: “Ruídos não querem dizer nada!”.

MILjesus

Ainda assim, são os ruídos que nos fazem fechar os olhos, parar e refletir para pensar: será que não tem alguma coisa errada com a minha televisão? Com o meu computador? Com o meu celular? Com a mensagem que estão querendo me passar? Ou isso acontece somente comigo? Não foi somente Scott Free que foi criado numa caixa, usando outras caixas, as caixas maternas, para escapar de mundos em outros mundos. Também toda a geração de pessoas vivas nesse momento foram criadas através de frames. De quadrinhos, de televisão, de computadores, de smartfones. Enquadrando a si mesmos e outros em expectativas de sucesso e que irão potencialmente agradar uma vasta gama da cultura e da sociedade. Também nesses frames seus sonhos e potencialidades são contidos e tolhidos por limitações culturais e sociais. E como escapamos desses frames? Recorrendo a outros frames que nos levam a outros mundos regidos por outros enquadramentos, para escaparmos das nossas jaulas às quais nos submetemos livremente. Para então buscarmos outras maneiras de nos submetermos a diferentes e fantasiosas formas de enquadramento e encaixotamento. Um sonho e um pesadelo da Bauhaus ao mesmo tempo.

MILcapa

Também deixamos essa vida, essa existência, dentro de frames. Dentro de caixões, em gavetas e  em jazigos de cemitérios. Somos compartimentados e classificados do começo ao final. E isso nos leva ao desfecho deste Volume Um de Senhor Milagre. A gravidez da Grande Barda. Seria a gravidez outra jaula, outra grande fuga, que nós, seres humanos, Senhores Milagres, precisamos performar? Seria a primeira das grandes fugas ou o primeiro dos grandes aprisionamentos, a primeira das grandes armadilhas? Seria a morte uma fuga, ou só mais uma forma de nos encaixarmos em mais um pedaço de mundo que destinaram para nós?

milagre

O filósofo coreano Byung-Chul Han tem uma espécie de resposta. A resposta está no outro. No amor do outro e pelo outro, na possibilidade de doar sua vida pelo outro, de gerar um outro e por ele ser capaz de milagres: “O amor, enquanto conclusão absoluta, atravessa a morte. É bem verdade que morremos no outro, mas dessa morte surge um retorno a si mesmo” (HAN, 2017, p. 47). Por isso o amor e a cumplicidade entre o Senhor Milagre e a Grande Barda é tão bonita: “A fidelidade também é ela própria uma marca conclusiva, que introduz uma eternidade no tempo” (HAN, 2017, p. 54).

Afinal, a contraparte Marvel de Darkseid, Thanos representa nossa pulsão de morte, Tanatos, em contraste a Eros, nossa pulsão de vida.  E, pra além disso, o senhor de Apokolips está em um jornada em busca da “equação anti-vida”. Darkseid é… a nossa pulsão de morte. Darkseid está… presente em todos nós e em algum momento vai se manifestar, destruindo todo o mundo. O nosso mundo individual, pelo menos. Seja na forma de uma perda, na forma de uma depressão, de crimes, de vícios, e precisaremos criar nova vida através da força do nosso Eros.

“O eros, ao contrário, possibilita uma experiência do outro em sua alteridade. que o resgata de seu inferno narcisista. Ele dá curso a uma denegação espontânea do si mesmo, em esvaziamento voluntário do si mesmo. Um sujeito do amor é tomado por um tornar-se fraco todo próprio, que vem acompanhado de um sentimento de fortaleza. Mas esse sentimento não é o desempenho próprio de si mesmo, mas o dom do outro” (HAN, 2017, p. 11).

KIRorionmiracle

Portanto, o ato de produzir a si mesmo, ou seja, gerar um filho, abre para Scott Free todo um mundo de possibilidades. Abre a jaula em que se via aprisionado, rompe com sua imobilidade para dar acesso ao amor, o amor pelo outro, e não pela própria vida. Claro, existem outras formas de produzir a si mesmo que não seja um filho. Uma delas, é a arte. A outra é o amor ao próximo. O amor rompe as grades tão bem desenhadas para extrapolá-las com coisas inesperadas, malucas, impensadas para nos deixar prontos para enfrentar qualquer coisa fora do comum que possa nos ameaçar e ameaçar àqueles que amamos. Assim, o lado luminoso vence o lado sombrio da nossa alma. Darkseid continuará participando de uma confluência com o celestial que continuará moldando o ser humano e provocando nele Senhores Milagres que nos fazem nos libertar das armadilhas impossíveis que a vida nos coloca todos os dias na nossa frente.


Agradeço ao amigo Vinícius do 2quadrinhos que me falou da óptica da depressão no Senhor Milagre e me abriu um leque imenso de análises. Pois é, acho que não acabou por aqui.  

 

Anúncios

5 comentários sobre “À Espera de Um Milagre. Senhor Milagre, de Tom King e Mitch Gerads

Deixe um comentário, caro mergulhador!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.