A Piada Sem Sal: Quando o Zé Carioca Parodiou o Batman

A Piada Mortal é uma das histórias mais clássicas do Batman. Em 1995, a Editora Abril criou, a partir de sua produção nacional de quadrinhos originais Disney, uma paródia desta história estrelada pelo Zé Carioca. Na verdade não exatamente o Zé Carioca, mas seu alter-ego super-heróico, o “Morcego Verde”, uma espécie de Batman mas que é um papagaio carioca caloteiro. Essa história farsesca foi publicada mais uma última vez pela Editora Abril em 2016 e é sobre ela que vamos falar neste post. Sigam nos os positivados e os negativados no SPC!

MOVEcoringaEm 1988, a DC Comics publica Batman: A Piada Mortal, dos ingleses Alan Moore e Brian Bolland, a história mais adulta do homem-morcego até então. Neste quadrinho, o Coringa assalta, estupra e deixa paralítica Barbara Gordon, a Batgirl e em seguida, sequestra o pai dela, o comissário Gordon. O Coringa, ao lado de sua gangue de freaks, leva o Comissário James Gordon para um parque de diversões, onde o policial, vestindo roupas de sadomasoquismo, é forçado a assistir cenas de sua filha sendo violentada pelo Coringa.

Então, cabe ao Batman libertar o Comissário e enfrentar o Coringa, o que ele faz numa batalha pelo parque de diversões. No final, o Batman acaba capturando o Coringa e os dois riem de uma mesma piada. Muitas pessoa acreditam que, na cena final da HQ, que acaba dirigindo seu foco pata gotas de chuva fazendo reverberações em poças d’água, que o Batman teria quebrado o pescoço do Coringa.

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Já o Zé Carioca foi criado em 1950 por Walt Disney depois de uma longa viagem que o criador do Mickey e do Pato Donald fez pela América do Sul, inclusive o Brasil. Essa viagem de Disney pelo Brasil fazia parte da política americana de “boa vizinhança”, que era a de estreitar as ligações dos Estados Unidos com os demais países da América. Isso principalmente porque uma Guerra Fria entre os EUA e a Rússia vinha se armando, e quanto mais aliados esse país conseguisse para ele, melhor. Assim, Disney criou o Zé Carioca, um papagaio baseado no malandro carioca, que está sempre endividado e foge dos cobradores.

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Contudo,os quadrinhos do personagem Zé Carioca foram sempre produzidos diretamente aqui no Brasil, onde ele estreou já na primeira edição de O Pato Donald, da Editora Abril, sua casa de 1950 até o ano passado, quando os direitos de publicação da Disney passou da Editora Abril para a Culturama. A Editora Abril, portanto possuía uma gama de criadores que faziam histórias Disney inéditas no Brasil e no mundo aqui no nosso país. Foram eles que criaram todo o universo de personagens das histórias do Zé Carioca, que incluem os amigos Nestor, Pedrão e a namorada Rosinha.

MOVEmorcegoOutra criação dentro do universo brasileiro do Zé Carioca, foi sua versão super-heróica, ou quase isso, o Morcego Verde. Na verdade, nas história do Zé Carioca, todos sabem que ele e o Morcego Verde são a mesma pessoa, mas o Zé que continuar mantendo essa fachada. O Morcego Verde enfrenta os cobradores do Zé Carioca, endoidecidos para que ele pague as contas e que estão foragidos do Asilo Aiquedoido, onde eles são encerrados. O Morcego Verde foi criado em 1975 pelo brasileiro Ivan Saidenberg, inspirado, claro, no Batman, mas também no herói Morcego-Vermelho, alter-ego do Peninha. Sempre utiliza sua lábia para ludibriar os malfeitores, sempre acaba fugindo da briga. Inferniza a vida do Delegado Porcôni, chefe da delegacia de Vila Xurupita, a quem, para irritá-lo mais ainda, chama sempre de Comissário.

MOVEgatinhaEmbora Nestor seja seu ajudante, ele não é uma espécie de Robin. Nestor sempre carrega junto um ventilador e uma lanterna. O ventilador para dar o efeito esvoaçante na capa e a lanterna para projetar o morcego-sinal em pontos turísticos do Rio de Janeiro. Os meios de transporte do Morcego Verde são o morcego-ônibus (que o Zé acredita que não precisa pagar por ser herói) e a morcego-bicicleta, a bicicleta do vizinho que o Zé pega emprestada.  Existem outros heróis na Vila Xurupita, lar do Zé Carioca, como por exemplo Super-Galo, alter ego de Zé Galo e o Capitão Porreta, alter-ego do amigo do Zé, o Pedrão.

Já a história “A Piada Sem Sal”, foi organizada por Marcelo Cassaro, o criador do Holy Avengers, que ficou responsável pelos roteiros, Paulo Borges, que fez os desenhos e João Anselmo que ficou com a arte-final. As cores de 1995 foram mantidas na edição de 2016. A história do Zé Carioca prestou diversas homenagens à de Alan Moore e de Brian Bolland. Um exemplo foi começar com as gotas d’água na poça iniciando e terminando a história. Só que em “A Piada Sem Sal”, o efeito não é dramático, mas cômico. Como na abertura, que as gotas são relacionadas à piscina que Rosinha vai mergulhar. Porém, logo em seguida, Rosinha é sequestrada.

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Quando o Morcego Verde vai investigar, ele chega ao Asilo Aiquedoido e vai conversar com seu arquirrival, o Moringa. Contudo, como na história em quadrinhos, ele também está conversando com um boneco do moringa fazendo um castelo de cartas. O Moringa é tão louco que ele é capaz de rasgar dinheiro apenas para se sentir melhor. Para contar ao Morcego Verde que ele pegou sua namorada, envia uma caixa-surpresa com molas que dispara uma conta atrasada na cara do Zé Carioca, deixando seu coração palpitando.

A origem do Moringa é que ele era o mais audaz cobrador do Zé Carioca, mas que acabou pirando na batatinha de vez quando o Zé pagou a sua conta. Como nos quadrinhos do Batman, o Morcego Verde enfrenta o Moringa no Carrossel e na Sala dos Espelhos. Ele o derrota, enganando que tem mais cinquenta centavos faltantes da conta, ao receber o dinheiro, o Moringa fica surpreendido, baixa sua guarda e é nocauteado pelo Morcego Verde. Então, Nestor pergunta para o Zé Carioca como foi que ele tinha dinheiro para enganar o Moringa desta vez e como foi que ele pagou o vilão da outra vez? Simples. Tudo não se passava de dinheiro de brinquedo!

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Paródias são muito comuns nos quadrinhos brasileiros, como as paródias da Turma da Mônica para diversos filmes, na coleção Clássicos do Cinema. Contudo, paródias de um quadrinho dentro da mesma mídia, as histórias em quadrinhos, são mais raras de serem produzidas. Isso gera o recurso chamado de metalinguagem, que é quando uma história se refere a ela mesma e os recursos de hipertexto e intertextualidade, que é quando determinados textos se referem ao outros textos, sejam eles da mesma ou de outros tipos de mídia. A criação de quadrinhos nos Brasil sempre foi muito rica e variada, muito bem-humorada. Sabe se aproveitar dos acertos e falhas de outras produções estrangeiras, subvertendo esse conteúdo e trabalhando ele a partir de nossa realidade nacional para conferir à história parodiada sentimentos e sentidos como o drama ou a comédia, intensificando tanto a história original como a história criada a partir dela.

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