Batman: O Cavaleiro Branco é Um Contraponto a Batman: O Cavaleiro das Trevas

O nove grande e vanguardista quadrinho do universo do Batman é, sem dúvidas, Batman: O Cavaleiro Branco, realizado por Sean Gordon Murphy e com cores de Matt Hollingsworth. Nele, o Coringa se torna uma ferramenta para acabar com o reinado de violência desmedida do Batman. Um Coringa regenerado, humano, que toma remédios para controlar sua loucura. Nisso, ele acaba se tornando vereador da cidade de Gotham City, mas essa ascensão do Coringa vai despertar forças sombrias que estavam encerradas há muito tempo. Se pensarmos por um lado, Cavaleiro Branco acaba se tornando um contraponto à famosa obra de Frank Miller. Se nem tanto no layout e na forma narrativa, em muito no conteúdo. É sobre isso que vamos falar aqui.

915J3JLCdfLSean Gordon Murphy dá um salto de fé ao dizer que o Coringa, na verdade é Jack Napier, e assim ele obtém nuances sobre o personagem que nunca foram expostas. Jack napier, como alguns podem se lembrar, é a identidade do Coringa do primeiro filme do Batman, feito em 1989 por Tim Burton. Neste filme, Coringa/Jack Napier era interpretado por Jack Nicholson. Murphy se aproveita de diversos elementos de inúmeras encarnações contemporâneas do Batman em diversas mídias, como veremos a seguir. Essa utilização de referência e hipertextos, características de trabalhos mais atuais, por exemplo, estava ausente do trabalho de Frank Miller em o Cavaleiro das Trevas.

CAVALEIRO_DAS_TREVAS_III_7_capa_VAR1Na época de Cavaleiro das Trevas, muitos elementos da história de Sean Murphy, sequer haviam sido criados. Um deles é a peça-chave para O Cavaleiro Branco, a doutora Harleen Quinzel, a Arlequina. É ela quem convence ao Coringa de tomar os remédios que o tornam são para enfrentar o Batman de uma maneira inusitada: pensando claramente. Arlequina, então funciona em O Cavaleiro Branco como um catalisador da história, o incidente incitante da narrativa, da mesma forma que Carrie Kelley, funciona com o Batman velho em Cavaleiro das Trevas como seu motivador para sua nova cruzada.

Cavleiro das Trevas MIX
Cavleiro das Trevas MIX

Contudo, como se percebe desde o começo, temos uma inversão de papéis. Se em Cavaleiro das Trevas as tomadas de decisões, a violência desmedida e também pelo fato de ele estar sendo perseguido pela polícia,  do Batman o aproxima de uma versão de vilão, já as decisões políticas e de contenção de criminosos do Coringa/Napier o aproximam de um herói, um “cavaleiro branco”, como diz o título. Da mesma forma funcionam Carrie e Harleen, como braços direitos e apoiadores. No caso de Harleen, ela também serve como amante, em uma cena em que Murphy até revelou os personagens nus. Carrie, no segundo volume de Cavaleiro das Trevas se aproxima disso, uma vez que ela toma para si a alcunha de Mulher-Gato, um interesse romântico nada oculto do Batman.

CarrieHarleen Quinzel e Carrie Kelly são suas sidekicks que acabam apresentando uma nova perspectiva de ação para os protagonistas da narrativa, de forma que os personagens que estavam enclausurados em suas bolhas (Batman na Mansão Wayne e o Coringa dentro da sua própria psicose) têm seu mundo aberto para novas possibilidades por essas mulheres.Arlequina revela o lado feminino do Coringa, sua ânima, mostrando um ser mais sensível às dores do mundo com o vereador Napier. Já Carrie Kelley deixa o lado feminino e, portanto sexual do Batman, mais uma vez incubado, ao se vestir de Robin e ir combater o crime ao seu lado. Ao passo que o lado masculino do Batman retorna com intensidade maior, numa violência descabida que o coloca frente a frente ao Superman, e o vence.

CAVALEIRO_DAS_TREVAS_III_7_capa_VAR2O grande trunfo de Batman: O Cavaleiro Branco, é empregar a focalização narrativa da história para um Coringa aparentemente recuperado. Nunca, na história das histórias em quadrinhos, se foi tão fundo na psique e na motivação do palhaço do crime. Apesar dele ser muito famoso e popular, pouco foi falado sobre o próprio, a despeito de seus atos criminosos e psicótico. Isso porque não se sabe quem ele é na realidade. A inversão dos supervilões pode ser também encontrada em O Cavaleiro dos Trevas com os personagens reabilitados do Duas Caras e de um manipulador Coringa que veste um terno branquíssimo. Essa pode ter sido também uma outra inspiração e referência de Murphy para construir se Cavaleiro Branco.

Como muitas resenhas indicaram, a HQ acaba caindo no ritmo nos últimos três números, onde uma corrida de batmóveis tira a atenção da construção dos personagens. Esses batmóveis são todos inspirados em diversas versões do veículo para os quadrinhos, animações e cinema. De certa forma, uma equipe ajustada de aliados do Batman (e em certo aspecto do Coringa) pilotando uma frota de azeitados e bem organizados batmóveis encontra um eco distorcido na equipe que o Homem-Morcego organiza no segundo O Cavaleiro das Trevas: uma Liga da Justiça tão disfuncional e cheia de defeitos que mais lembram heróis da Marvel do que os super-heróis da Editora das Lendas.

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Tanto em Batman: O Cavaleiro Branco, como em Batman: O Cavaleiro das Trevas, o Homem- Morcego possui um aliado importante, mas que ele não confia por inteiro. No trabalho de Frank Miller, é Oliver Queen, o Arqueiro Verde. Em Batman: O Cavaleiro Branco é Victor Fries, o Senhor Frio. Sean Murphy faz outra homenagem aos filme do Batman, pegando a ideia do filme Batman & Robin, de 1997, dirigido por Joel Schumacher. Naquele filme, o Senhor Frio ameaça o Batman com um raio congelante que pretende lançar sobre toda Gotham City. Em O Cavaleiro Branco esse raio também é motivo de disputa, com a diferença que ele acaba sendo usado.

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Por fim, podemos traçar uma comparação da Neocoringa, Marian Drews, de O Cavaleiro Branco com o Coringa Dick Grayson de O Cavaleiro das Trevas 2. Os dois personagens se tornam um novo Coringa porque os dois sofreram abusos. Só que enquanto a Neocoringa era uma Arlequina que sofria abusos do Coringa, Dick Grayson acabou enlouquecendo por causa da violência que sofria nas mãos do Batman. Assim, a Neocoringa quer acabar com o Coringa para que ele deixe de ser O Cavaleiro Branco. E o Coringa Dick Grayson quer destruir o Batman para ele deixar de ser O Cavaleiro das Trevas. O Branco e as Trevas, o lado luminoso e sombrio, nas duas obras, se fundem numa pegajosa penumbra em que não se têm mais tão definidas as motivações e os lados de uma disputa, existe desconfiança no agir de todos os envolvidos, de uma forma mais próxima ao que acontece no mundo real.

Como pudemos ver, existem muitas semelhanças e contrapontos entre Batman: O Cavaleiro Branco e o corpus das obras que compõem a trilogia Batman: O Cavaleiro das Trevas. Esse fato, contudo, não desperdiça o mérito dessas inovadoras histórias em quadrinhos. O Cavaleiro Branco ainda nos brinda com o especialíssimo traço de Sean Gordon Murphy e as cores sombrias e com ares de decadência de Matt Hollingsworth. A criação da série também acarretou na criação de um novo selo pela DC Comics, chamado Black Label, no qual renomados artistas dão sua versão para personagens consagrados da editora das lendas. Vamos ver que outras obras incríveis o futuro aguarda para abordar os super-heróis da DC Comics!

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