O Quadrinho Erótico do Hulk Produzido no Brasil: O Incrível (e Bem Dotado) Hukão

Era o início dos anos 1970, os anos de chumbo da ditadura estavam em seu auge junto ao chamado “milagre econômico” que deflagrou uma das maiores crises mercadológicas que o país já viu. Ansiando por abertura econômica e política do país, e também o afrouxamento da censura, muitas editoras começaram a investir pesado em publicações sobre sexo. Era a chance das bancas brasileiras verem e se abrirem para um mercado até então impossível aqui no país: as revistas pornográficas. Vendo um filão nestas revistas, além de fotografias, a editora paranaense Grafipar também resolveu investir nos quadrinhos eróticos, sob pesada censura do governo. Uma dessas publicações era Herói Erótico, que em seu número 5 trazia O Incrível (e Bem-Dotado) Hukão, com a chamada “Ele tem o maior… do mundo!”. É sobre essa revista que vamos falar neste post.

1 (320x480)Para que fique bem claro, este quadrinho tem pouco a ver com O Incrível Hulk ou até mesmo com o Luciano Huck, a não ser suas proporções avantajadas (a proporção avantajada que Luciano tem, é o nariz, claro!). Contudo, é peculiar a associação que os autores da revista fazem com o mito de que corpo grande é sinônimo de pênis grande. Quando sabemos que não é bem assim. Um dos fatores que auxiliou nessa mitificação do Hulk foi o seriado do herói que se passava nos anos 1970 (a revista é de 1973), em que Robert Banner era interpretado por Bill Bixby e sua versão grande e verde, o Hulk, era interpretado pelo fisiculturista Lou Ferrigno. Este seriado foi muito popular em todo o mundo e não podia ser diferente no Brasil.

HULKgrafiparA Grafipar era uma das poucas editoras de quadrinhos fora do Eixo Rio-São Paulo. Tinha sede em Curitiba e era de propriedade de Faruk El Khatib de ascendência árabe. Ele também criou a primeira revista de bordo do Brasil, para a Varig, chamada Passarola e foi proprietário do Correio de Notícias. A editora vinha investindo no filão dos quadrinhos eróticos desde o começo da década de 1970, onde lançou revistas como Eros, Neuros, Maria Erótica e Contos de SaFadas. Tentando variar seu catálogo, a editora criou revistas eróticas que se associavam a outros gêneros de histórias, surgiram assim Taras Sexuais, Sexy West e Sexy Comics. Junto com elas veio uma revista que explorou o filão dos heróis e super-heróis:

“Herói Erótico teve apenas seis números. Assim como o Especial de Quadrinhos e Aventuras em Quadrinhos, trazia um personagem como destaque da capa por edição. Apesar do título apelativo, tornou-se um dos melhores momentos da editora, por causa da qualidade de seus colaboradores – os mais representativos jovens autores da Grafipar, já com traços bastante maduros, depois de quase três anos de produção. No primeiro número, Mozart Couto dividiu as páginas com [Julio] Shimamoto em Hyania, cuja trama teria sido enviada por um leitor do Maranhão que não quis se identificar. Outro bom exemplo da série foi Ty-Rex, um herói dos tempos da Idade da Pedra com pitadas de heroísmo criado e desenhado por Watson [Portela], com arte final de Itamar [Gonçalves]. A montagem da história, contudo, mostrava um certo descuido e falta de zelo editoriais. Na verdade, por causa da limitação, parte da história foi reduzida de tamanho para que coubessem duas páginas em uma página só. Watson [Portela] mostrou sua veia humorística mas uma vez em O Incrível (e Bem-Dotado) Hukão, arte-finalizado por Franco de Rosa”. (JUNIOR, 2015, p. 410)

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A história que se passa na revista de 36 páginas de O Incrível (e Bem-Dotado) Hukão conta a história de um homem com grandes e bem definidos músculos que era achincalhado pelas mulheres por possuir um órgão sexual pequeno. Assim, ele procura um cientista maluco que promete aumentar o seu pênis. O cientista maluco, que seja digno de nota, é calcado na figura do Detetive Dolan, policial que é contato do The Spirit, de Will Eisner em Central City.

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Hukão acaba bebendo demais daquela forma e por isso tem seu órgão estendido muito mais do que esperava. Seu pênis também, acaba ficando todo verde, em consequência do abuso da fórmula científica. Ao abordar uma mulher, ela foge desesperada com medo do enorme membro em riste. Outra mulher, contudo, adora aquela “mirunfa”, aquela “trolha”, como se referem ao pênis do Hukão, os autores. Contudo, ela se revela a Hukão como sendo “gay” e que ele vai fazer muito sucesso neste “mundo”. Mais tarde vemos um jornal que diz que o nome da “mulher” era Florinda e que ela era “gay por opção”.

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Se hoje em dia existe uma grande confusão quanto à nomenclatura usada para definir pessoas queer, vejam a enorme confusão que os autores fazem neste quadrinho. Para eles, gay é uma pessoas que, necessariamente se veste e aparenta ser uma mulher. Reparem que eles não usam a designação travesti, ou a ação em travesti, ou ainda transexual, como no caso de Roberta Close, que despontava na época. Hukão acaba fugindo desesperado da “gay”, com o seguinte pensamento: “Ufa! Escapei fedendo! Um gay… Essa é boa! Preciso prestar mais atenção, senão acabo me transformando no símbolo sexual… dos gays! Argh!” Vejam como esse pensamento envolve uma mística que compreende ao mesmo tempo ódio e medo, um discurso parecido com os do homofóbicos que ao mesmo tempo querem destruir os gays e ao mesmo tempo tem medo do que os gays podem fazer com eles, “transformando-os”.

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É digno de nota, contudo, que os mesmos autores, Watson Portela e Franco da Rosa, alguns anos depois, iriam produzir um álbum de quadrinhos dedicado somente a super-heróis gays, chamado Super-Gay. Um dia ainda irei falar mais sobre este álbum aqui, contudo, o discurso homofóbico não está presente nem mesmo nos vilões daquela produção, diferente deste O Incrível (e Bem-Dotado) Hukão. Depois que Hukão foge da “gay”, ele então passa a amarrar seu pênis na perna, mas ao atingir uma ereção, sua perna se levanta junto com seu membro em riste.

 

O relato da “gay” no jornal, chama atenção do editor de revistas de sacanagem Robério Carlos (um pastiche do cantor Roberto Carlos, no auge na época), que quer contratar o Hukão para ser ator pornô. Mas não é somente ele que o procura. Uma empresa de preservativos o quer como garoto propaganda e uma seguradora quer convencê-lo a por sua “trolha” no seguro. Hukão acaba contratando uma prostituta para fazer sexo com ele, mas quando solta seu pênis preso à perna, acaba dando uma chapoletada na bunda da mulher que a faz cair para fora da janela do prédio. Hukão soca seu pênis de raiva, apenas para levar um golpe na cara quando ele retorna para ele com a força do soco. Ao ser surpreendido por Robério Carlos naquela cena, Hukão acaba fugindo e Robério jura ainda encontrá-lo. E assim acaba a história.

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O Incrível (e Bem-Dotado) Hukão é uma história feita para o deleite sexual e o riso de seus compradores, assim como muitas revistas da Grafipar, mas é nela que vemos como muitos mitos sexuais eram (e ainda continuam sendo) divulgados no imaginário popular. São mitos de que os gays querem ser mulheres, de que homens fortes ou super-heróis devem ter ou têm pênis enormes, de que estrelas pop são insaciáveis, de que as mulheres gostam de pênis grandes (e os gays mais ainda). Alguns desses mitos foram quebrados hoje em dia, outros ainda persistem e têm aqueles que juram de pés juntos que são verdade. Isso revela o quanto nossa sociedade é governada por factóides e quando encaramos a seara sexual, esse mitos são ainda mais difundidos porque este é um assunto que não é de domínio de todos e também não é bem visto enquanto um tema corriqueiro para ser tratado abertamente.

5 comentários sobre “O Quadrinho Erótico do Hulk Produzido no Brasil: O Incrível (e Bem Dotado) Hukão

  1. Primeiro algumas correções: a Grafipar começou a publicar quadrinhos no final dos anos 70 e não no começo. A revista Herói Erótico começou a ser publicada em 1981 e, segundo o Guia dos Quadrinhos, essa edição do Hukão é de 1982, já perto do final da história editorial da Grafipar.
    O seriado do Hulk foi produzido entre 1978 e 1982, não sei quando começou a ser exibido no Brasil, mas foi bem próximo a essa época (eu lembro, assistia quando criança – tenho 47 anos).

    Por fim, como você aborda questões a respeito de sexualidade nos quadrinhos, queria sugerir que procure a revista Rose publicada pela Grafipar. Era editada pela poeta Alice Ruiz, inicialmente direcionada para o publico feminino, a revista trazia quadrinhos, artigos e fotos de nus masculinos. Só que a revista começou a fazer sucesso entre os gays por causa das fotos e a revista mudou o direcionamento para esse público, passando a ser editada por Nelson Padrella. Também sugiro procurar histórias roteirizadas por Padrella, que muitas vezes escrevia histórias de temática gay.

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    1. Oi Roberval! Obrigado pelas correções e pelas dicas de leituras. Sabes onde posso encontrar online algumas dessas revistas? Acessei o blog “Projeto Grafipar”, mas nem as revistas Rose nem a Playgay estão disponíveis. (a última com link quebrado). Existe alguma outra alternativa para ler online essas edições? Obrigado! Abraços! =)

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      1. Só conheço esse blog para ler online as revistas da Grafipar. As edições físicas são muito difíceis de se achar em sebos, mesmo aqui em Curitiba. Já encontrei alguma coisa no Mercado Livre, mas com preços absurdos.

        Alguns artistas que trabalharam na Grafipar guardam edições e artes originais em suas coleções, como Franco de Rosa e Gustavo Machado. Talvez se tentar contato com eles, tenham algo que possam escanear.

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