Tudo Que Você Queria Saber Sobre a Vagina, Mas tinha Vergonha de Perguntar (ou de Explorar)

Ano passado a Companhia das Letras lançou o quadrinho “A Origem do Mundo: Uma História Cultural da Vagina ou A Vulva versus o Patriarcado”, da autora sueca Liv Strömquist, aderindo à onda (muito bem sucedida) de livros feministas, sejam eles em quadrinhos ou não. Neste quadrinho, a autora tenta apresentar as últimas descobertas sobre esse “misterioso” órgão sexual feminino e porquê se sabe tão pouco sobre ele na cultura popular. Ela fala sem rodeios sobre masturbação feminina, menstruação, ejaculação feminina, sobre o clitóris e sobre como a sociedade inibiu a evolução da sexualidade (principalmente a feminina) por muitos séculos. Convido vocês a lerem mais sobre este quadrinho e conhecerem mais sobre a vagina, esta desconhecida.

Eu fico aqui pensando com meus botões sobre aqueles homens que falam que “nunca vão entender as mulheres”, “que mulher é outro bicho”, “qual o problema das mulheres”, “que mulher isso, que mulher aquilo”, e ainda por cima eles querem transar com mulheres, se casar com mulheres e ter filhas mulheres com mulheres. Mas só não se preocupam em entender elas. Ou ainda não se preocupam em entender pra que serve 9e como funciona) aquela coisa que eles mais desejam delas (eu acho), a vagina, ou a vulva, a buceta. Também me preocupa os gays que acham que a vagina é algo nojento, mas que querem liberdade para os gays fazerem isso e aquilo sem serem pressionados a nada. Todos esses homens não percebem que tudo que está gerando essa ignorância é que a sociedade transformou a buceta num tabu.

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Leia neste post como a Mulher-Maravilha acabou se tornando um símbolo feminista.

Por isso este livro que a autora sueca Liv Stömquist trouxe para nós é essencial.  Ele traz uma variedade imensa de informações sobre sexualidade feminina que é totalmente desconhecida da maioria da população. Claro, algumas coisas eu já sabia, porque sexualidade é meu objeto de estudo. Mas creio que a imensa maioria das pessoas – homens, mulheres, gays, lésbicas, trans -, sabem MUITO POUCO sobre a vulva. E olha, devem saber tão pouco sobre o pênis também, hein? A não ser, claro, os mitos que contam sobre esses órgão sexuais feat. excretores. Liv nos fala sobre muitas coisas sobre a vulva – que não é só a vagina, mas um órgão que envolve os grandes e pequenos lábios, o clitóris, o prepúcio do clitóris, enfim…

Leia uma resenha sobre o quadrinho “Qual o Problema das Mulheres?”, de Jacky Fleming

ORIteta

Vamos falar sobre o citóris. Um órgão que, ao contrário do que se pensava até recentemente, está envolvido no orgasmo feminino – mas que o ponto principal se encontra no clitóris e que não existe orgasmo vaginal. Que o clitóris fica ereto como o pênis e como ele, também pode ejacular (a ejaculação não é algo obrigatório no orgasmo feminino e masculino, mas foi culturalmente associada a isso, a ponto de que se transformou em sinônimo físico de orgasmo). Para que a mulher tenha o orgasmo é preciso que se trabalhe nas preliminares, ou seja, deixar a mulher pronta, excitada e sensível para que a penetração provoque uma reação em seu corpo que a leve ao prazer. Isso porque a sociedade inibiu tanto as mulheres que para que seus corpos se sintam capazes (e permitidos) a atingirem o prazer, elas precisam sentirem-se seguras com quem estão. (Claro, isso não se aplica a todas elas).

Só mulheres sabem escrever mulheres direito? Leia mais sobre esse mito neste post.

ORIorgasmo

Essa é uma das razões porque apenas 47% das mulheres atingiam o orgasmo com homens durante a pesquisa feita por Shere Hite nos Estados Unidos no final dos anos 1970. Já a pesquisa de Masters e Johnson, feita nos anos 1960 (e que você pode ver na série do Netflix, Masters of Sex), indicou que o clitóris era essencial para a mulher atingir o prazer. Veja que isso foi descoberto somente há 60 anos atrás. Hoje em dia, muitos homens nem sabem que as mulheres têm clitóris e quiçá onde ele fica, mas se acham machos o suficiente e bons de cama o suficiente para saírem por aí xingando e agredindo todos os demais que ele julgue “menos másculos”. Além disso, o Relatório Hite também descobriu que 64% das mulheres só conseguia atingir o orgasmo masturbando-se, isso, se já haviam atingido esta sensação alguma vez.

ORIgustave

A Origem do Mundo, nome que dá título para este quadrinho, vem de um quadro de Gustave Coubert, que retrata uma vagina entreaberta, de uma mulher sobre uma cama. Feito em 1866, é considerado o quadro mais indecente do mundo exatamente porque é um close do órgão sexual feminino. Para se ter uma ideia de quanto tabu foi colocado sobre o órgão sexual feminino, a própria palavra tabu, segundo Liv Strömquist vem do islandês e significa menstruação. E você já deve ter ouvido falar de sua mãe, de suas amigas, de sua irmã ou das mulheres ao seu redor o quanto constrangedor foram suas experiências com menstruação. Porque esse ciclo do corpo feminino é considerado sujo por nossa sociedade. E se você nunca ouviu uma história assim, bem, talvez você não esteja se interessando por mulheres o suficiente.

Leia um post para conhecer quem são  as mulheres mais poderosas dos comics americanos.

ORIintro

Precisamos falar sobre a buceta. E falo buceta aqui, porque uma amiga minha que é biomédica me disse que se você só falar vagina, está falando dos lábios ou do canal vaginal apenas. Buceta envolve todo o órgão sexual. Assim como Liv Strömquist prefere utilizar a palavra vulva no lugar de vagina pela mesma razão. Só se começou a falar sobre a buceta faz pouco tempo. Talvez você já tenha ouvido falar de uma peça muito popular, encenada em diversos países do mundo, inclusive no Brasil, chamada Os Monólogos da Vagina, criados pela estadunidense Eve Ensler, noas anos 1990. Um relato potente sobre a sexualidade de diversos tipos de mulheres pelo mundo, na forma de monólogos teatrais.

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O que eu tinha para mim, contudo, era de que a peça Os Monólogos da Vagina era algo de fundo humorístico. Lendo esses textos percebo que o único humor que ela pode gerar é o humor do desconforto, o rir de nervoso, o riso libertário do humor involuntário. Da mesma forma quando algum amigo seu faz uma piada com aquela pessoa super sisuda e que é impossível não rir. A vagina, então, até “Monólogos” era essa pessoa, sisuda, fechada, que não se permitia prazer. Com as peças ela foi se abrindo, foi vertendo lágrimas de riso, de emoção e de gozo. A vagina, então entrou no caminho da emancipação com o V-Day, que traz textos no final explicando as comoções que a peça e os eventos causaram ao redor do mundo. A vagina, então, começou a ocupar seu lugar como resistência e agente da mudança. Mas muita coisa precisa mudar. Então peço licença para copiar um excerto de um poema do livro:

“Não aguento mais a passividade dos homens bons. Cadê vocês, merda? Vocês vivem com a gente, transam com a gente, nos têm como filhas, amigas, irmãs, são nutridos, criados e eternamente amados por nós, e como não lutam do nosso lado? Por que não vão à loucura e tomam uma atitude contra nosso estupro e nossa humilhação?”.

Para mim, então, o livro A Origem do Mundo: Uma História Cultural da Vagina ou A Vulva versus o Patriarcado tem muito a ver com esse movimento revolucionário que os Monólogos da Vagina arquitetou (ao menos para as mulheres e, se as meninas de hoje sentem prazer ao transar, em grande parte é por causa deste livro e da abertura de conversas sobre educação sexual nas escolas). Talvez o livro de Liv Strömquist seja o Monólogos da Vagina para uma nova geração, que aceita e conhece mais tanto a sexualidade como a linguagem dos quadrinhos, que não se choca com imagens de vaginas, vulvas, bucetas e nem se constrange em falar abertamente sobre sexo.

Leia aqui a resposta para a pergunta “O Que Significa Ser um Super-Homem em Tempos de Crise de Virilidade?”

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O livro em quadrinhos de Liv Strömquist tem um potencial educativo enorme. Mas não é o mesmo potencial educativo que vamos encontrar em uma sala de aula, é aquela educação das ruas, daquilo que é aprendido fora do ambiente escolar. Como dos anos 1920 a 1970 os homens desta geração tiveram com os Catecismos ou as Tijuana Bibles, e os homens das gerações seguintes, em menor intensidade com a pornografia. Por muitas vezes foi falado que as mulheres não curtem a pornografia mainstream e que ela é voltada principalmente para o prazer masculino. Que a forma de educar sexualmente as mulheres pode se dar de uma forma diferente da do homem, que se coloca como dominador dos seus objetos sexuais.

Leia mais sobre os Catecismos e a s Tijuanas Bibles aqui neste link.

ORIpensador

Quem sabe, então, não se possa tomar uma abordagem de educação sexual das meninas e das mulheres de uma forma mais lúdica e informativa como é feita nos Monólogos da Vagina ou neste A Origem do Mundo? Claro, eu não estou no meu lugar de fala porque não sou mulher e não posso saber o que é melhor para elas, a não ser que elas me digam. Mas eu posso sugerir uma boa leitura e posso fazer uma resposta ao apelo de Eve Ensler que quer saber onde estão os “bons homens” que convivem com as mulheres, tentando buscar soluções para essa divisão de gêneros que prejudica e muito a nossa sociedade.

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Quem sabe, as mulheres e os homens tendo mais domínio sobre as questões das próprias sexualidades possam evitar que inúmeros crimes sexuais que são cometidos todos os dias e acabam com as vidas de diversas pessoas não possam ser evitados? Quem sabe com o conhecimento não se apaguem os mitos e os tabus que levam os homens a se colocarem como dominadores, brutais, violentos e agressivos sobre as mulheres e outros homens só para poderem provar que são homens? Quem sabe os gêneros não adquiram uma paz e um equilíbrio a ponto de ninguém ter que provar que é (ou que é mais) homem (ou mulher) do que seus semelhantes?  

Livros como esse e ações como essa começam a lançar uma luz sobre a armadilha dos gêneros que a sociedade e a cultura nos colocaram para termos que agir dessa ou daquela forma. O importante não é fazer o que se quer, mas saber respeitar os outros e conviver em harmonia. Dessa forma, tudo vai ser possível para qualquer um, homem ou mulher ou ainda nenhum desses.

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