Melhores e Piores Leituras de Junho de 2019

Olá mergulhadores! Junho, para variar também foi um mês intenso, estive em duas convenções de quadrinhos, a FloripaComicCon e a POC CON, dois eventos sensacionais, que vou deixar o link sobre eles no final desta postagem. Mas, claro, não deixei também de fazer minha extensa lista de leituras para vocês. Só que dessa vez ela veio no primeiro dia de julho. Este mês são quarenta e cinco quadrinhos e livros sobre quadrinhos que fizemos resenhas, e de todo o tipo de leitura: acadêmicos, biográficos, europeus, independentes, de super-heróis, mangás, alternativos e muitos outros. Então afivelem seus cintos de segurança que o nosso submarino vai submergir em leituras!

Melhores

MJUcacadaHELLBOY: A CAÇADA SELVAGEM, DE MIKE MIGNOLA E DUNCAN FEGREDO

É neste volume! É neste volume! É neste volume que é revelada a identidade secreta da verdadeira mãe de Hellboy! (ou será que é só uma mentira?). Bem, vamos dizer que neste volume toda a epopeia das lutas de Hellboy contra as bruxas européias e seus sabás, acaba levando ele para a Inglaterra, onde pensa que vai enfrentar gigantes. Mas na realidade Hellboy acaba indo parar no castelo escondido e resguardado por demônios de Morgana LeFay e ele descobre que se não quer reinar nas profundezas do inferno, ela pode reinar sobre a Inglaterra, pois, segundo Morgana, ele seria um descendente direto de Arthur Pendragon da Távola Redonda. Bastava, para isso, ele retirar a espada da mitológica pedra no lago de Vivianne. Será que Hellboy acaba sucumbindo à alguma das suas heranças: à herança infernal ou à herança real? Bem, só lendo este volume lindíssimo tanto na composição das lendas como na maneira como ele é trazido à realidade através das belíssimas ilustrações de Duncan Fegredo. Um belo volume de Hellboy, mas que, como seus semelhantes, peca por não apresentar a ordem de leitura das histórias aqui contidas em comparação com as demais.

MJUclamor

HELLBOY: O CLAMOR DAS TREVAS, DE MIKE MIGNOLA E DUNCAN FEGREDO

Bom, eu ia ler o Caçada Selvagem antes desse volume, mas lendo na parte de trás descobri que este, O Clamor das Trevas, deveria ser lido primeiro. Hellboy tem esse problema aqui no Brasil: a gente não sabe o que ler primeiro e o que ler depois. Seria útil um Guia de Leitura de Hellboy, quem sabe, um dia, quando eu entender, eu faça um. Enfim, este volume tem a arte de Duncan Fegredo que, emulando Mike Mignola, me parece melhor ainda do que a arte do “autor original”. E como este encadernado e o próximo tratam de lendas europeias, acho justo que a arte dele se encaixe mais que a original. Este Clamor traz um tipo de “Convenção das Bruxas”, fazendo que Hellboy enfrente as mais diversas versões dessas lendas, desde a deusa das encruzilhadas, Hécate até a maligna russa Baba Yaga que tem a ver com a origem do demônio-menino. Isso sem falar em diversos sabás (grupos de adoradores do demônio, bruxos e bruxas) que se intrometem no seu caminho, querendo obliterar seu destino seja ele qual for e mesmo que Hellboy relute em aceitá-lo. Um quadrinho soturno muito gostoso de se acompanhar do início ao final.

MJUvigaristaHELLBOY: A CAPELA DE MOLOCH E O VIGARISTA, DE MIKE MIGNOLA E RICHARD CORBEN

Meu braço de 2006 deve estar torcido, distorcido e retorcido depois de eu ter cuspido no prato do diabo Hellboy e dito que suas histórias não eram legais. São legais para caralho. Tá ok, nesta compilação, as histórias A verruga, que parece mais um continho fill-in de backup e A Capela de Moloch, que tem inúmeras referências mitológicas e ocultistas nela, mas que, na história em si é só isso. Bem, essas histórias são bem ok. Mas é em O Vigarista que reside toda a mágica do caldeirão profano de Mike Mignola. Nela, o Hellboy anda pelos Montes Apalaches para tentar livrar um homem de uma maldição que, segundo ele foi jogada por uma linda bruxa e pelo diabo. A história é tenebrosa, com vários conceitos lendários, narrativos e visuais interessantíssimos. Isso fica ainda mais acentuado pela arte do virtuose do pontilhismo Richard Corben, que empresta às páginas uma atmosfera soturna e nefasta, nos fazendo transitar pelos meandros das lendas caipiroskas norte-americanas e seu folclore cheio de pactos com bruxas e demônios. Dito isso, parece que, nesse caso, a arte de Corben fechou melhor com a história do que se fosse a de Mignola ou um de seus asseclas de estilo.

MJUlua

CAVALEIRO DA LUA, VOLUME 8: FASES, DE MAX BEMIS, TY TEMPLETON, JACEN BURROWS E PAUL DAVIDSON

Eu pensei que essa segunda parte da run de Max Bemis (não confundir com Max Landis) no Cavaleiro da Lua ia continuar com a mesma qualidade da primeira. Mas dá uma esquisitada bem boa nas histórias. Seja tanto pelo argumento, quanto pelos desenhos, que chegam a um momento de ficarem bastante bizarros. Se a primeira parte tinha uma narrativa mais ou menos sólida (do que se pode dizer de sólido dentro da loucura), esta segunda parte possui uma narrativa extremamente fluida, que não se prende a nada e tudo pode ser. Começa bem, revelando que o tio rabino de Marc Spector era na verdade um sádico nazista, mas depois fica mucho loca com pessoas que se fundem, mentes coletivas e exércitos de Cavaleiros da Lua mentais. Então volta para o sadismo do tio rabino e engloba ainda mais alguns elementos do primeiro volume como o Incendiário e o Rei Sol. Desse jeito fica fácil entender porque a revista acabou sendo cancelada e não teve mais novas edições a partir daí. O fato é que através deste encadernado, a revista Moon Knight acabou atingindo a sua duocentésima edição, que é o mesmo do que edição número duzentos.

MJUhulk

COLEÇÃO HISTÓRICA MARVEL: O INCRÍVEL HULK, VOLUME 11, DE BILL MANTLO E SAL BUSCEMA

Bem… Este foi um dos piores volumes da Coleção Histórica Marvel do O Incrível Hulk e, ainda assim, foi bom. Bem melhor do que muita coisa que já foi publicada pela Marvel, seja na época original dessas histórias seja na época em que a Casa das Ideias publica histórias atuais. Nesse volume vemos o MODOK e o General Thaddeus “Thunderbolt” Ross ressuscitarem o Abominável para enfrentar o Hulk. Mas o MODOK e a I.M.A. não ficam satisfeitos com isso e capturam a assistente do Hulk, a Doutora Kate Waynesboro e a transformam na Senhora MODOK, uma versão feminina do cabeçudo que lança raios mentais. Além disso o Hulk volta a enfrentar o circo do Mestre do Picadeiro que, desta vez tem uma nova atração: o Homem-Dragão, que vai colidir com o Hulk. O verdão também se envolve com o Quarteto Fantástico e com o vilão Bumerangue. Contudo as histórias são bem mornas, parecendo longe do que Mantlo desenvolvia antes com o Golias Esmeralda, com histórias que desembocavam em outras e se desdobravam. Neste encadernado parece que ele deu uma espécie de descansada nas aventuras frenéticas e imparáveis do Hulk, botando Bruce Banner também “para descansar”.

MJUshade

SHADE, A GAROTA MUTÁVEL, VOL. 1: É FÁCIL SER TERRÁQUEA, DE CECIL CASTELLUCCI E MARLEY ZARCONE

Acho que esse é encadernado-barra-título do selo da Young Animal que eu mais gostei até agora. No começo eu tinha certeza de que não ia gostar, mas gostei bastante dos três títulos que saíram no Brasil até então. O maior problema é ser BEM mais caro do que qualquer título em capa dura, né, Dona Panini? Ia ficar bem mais bonitinho em capa cartão, mas os zolhão da grana brilharam mais. Bom, eu adoro tanto o Shade do Ditko, como o do Milligan e Castellucci dá um jeito de incluir os dois nessa HQ em que uma patricinha escrota arrogante e bully que é extraterrestre vai parar no corpo de outra patricinha escrota arrogante e bully só que da Terra. Aí ela começa a ver as coisas por outro ângulo e perceber como ela também era a mesma coisas que essa menina que ela “roubou” o corpo comatoso. Ao mesmo tempo, ela percebe que todo mundo do mundo dessa patricinha odeia ela (deveras, né?). Enquanto as pessoas no mundo ET de Meta tentam tirar a chatonilda do estase e do corpo da chatonilda2, Shade está descobrindo um plano encoberto dos “amigos” da patricinha para se livrarem dela de vez. Um quadrinho bem malucão, mas divertido na maneira certa e dando lições nas pessoas que merecem lições. Toda patricinha escrota arrogante e bully deveria ler este quadrinho, inclusive as minhas de estimação.

MJUpunpun2

BOA NOITE, PUNPUN, VOLUME 2, DE INIO ASANO

O primeiro volume de Boa Noite, Punpun, de Inio Asano tinha me agradado bastante. É uma jornada de transformações nestes volumões de por volta de 500 páginas cada um. Este segundo volume, entretanto, foca mais no tio de Punpun, que cuida da família do garoto (passarinho?) (fantasminha?) depois que o pai vai embora e mãe tenta se matar. Lá pelas tantas eu comecei a ter a sensação de que estava lendo um romance literatura contemporânea e não um quadrinho, por causa do arco de amadurecimento dos personagens, onde você percebe que eles estão mudando. Mas eu já havia sentido isso em outros trabalhos do Inio Asano, em Solanin e Nijigahara Holograph. Ele me lembrou alguns romances de literatura contemporânea que lia no final da década de 2000, em que protagonistas e famílias desajustadas eram a ordem do dia. Não por acaso Boa Noite, Punpun foi feito naquele tempo, então provavelmente essa vibração e temática assolaram globalmente os escritores de todas as partes. Eu inclusive. Esse deve ter sido um resultado de que as pessoas perceberam que as coisas e, inclusive elas mudam, e que isso não precisa ser ruim, pode ser bom.

MJUheroisempoderados

COMO DESENHAR HERÓIS MASCULINOS EMPODERADOS, DE MOTOKA

Botei o olho nesse quadrinho da Motoka na POC CON e tive a certeza que eu precisava comprá-lo. Afinal, como os leitores contumazes deste blog devem saber, a frágil masculinidade dos super-heróis é um assunto que volta e meia eu trato. Neste fanzine barra quadrinho barra manual de desenho, aprendemos como fazer super-heróis menos erotizados. CAHAM! Capaz! Tudo é uma ironia para de certa forma subverter e tirar sarro dos manuais de desenhos de super-heroínas que ensinam a fazer mulheres sensualíssimas e lânguidas, expelindo suas gotas de sexo para todo o lado das páginas. O que a Motoka faz aqui é uma crítica tanto aos manuais de desenhos que ensinam a desenhar heróis homens quanto os que ensinam a desenhar heroínas mulheres, invertendo esses papéis de gênero. É algo parecido àquilo que a Hawkeye Initiative fez com o Gavião Arqueiro em poses sensuais de mulheres heroínas. Só que a Motoka aqui, faz com muito mais CAHAM! teoria e CAHAM! referencias teóricos. Sinto que essa publicação ainda vai render ao menos um artigo acadêmico! Uhuu!

MJUtrans

PEQUENAS FELICIDADES TRANS, DE ALICE PEREIRA

Colaborei com o Pequenas Felicidades Trans na sua campanha do Catarse e peguei o álbum com a Alice na POC CON, onde eu a conheci. Acho incrível e sensacional que as pessoas queer consigam se expressar de maneiras tão maravilhosas como esses quadrinhos que tem saído, como este. É uma forma de transformar vidas: a de quem faz e a de quem recebe. Os quadrinhos da Alice são lindos. pra começar que a arte lembra e muito o estilo do Chris Ware, embora o layout da Alice seja mais contido e, eu prefiro assim. Ela sabe jogar bem com os nove quadros da página e desenvolveu uma entrevista na TV para linkar toda a sua história de vida, num recurso bem aproveitado. Alice revela nestas páginas alguns percalços e felicidades de ser trans que nem todo mundo está consciente e, por isso, esse quadrinho vem pra esclarecer – e confundir um pouco, porque confundindo a gente se entende, esse é o papel dos queers nessa existência. Adorei mesmo ter participado dessa campanha e o resultado ficou pra lá de bom. Que venha mais quadrinhos da Alice, da Luiza, do Lino, da Laerte, de mais pessoas trans se expressando e não somente sobre sua condição trans, mas sobre aquilo tudo que faz eles e elas amarem e serem amados.

MJUquentinhas

HISTÓRIAS QUENTINHAS SOBRE SAIR DO ARMÁRIO, DE ANNIMA DE MATTOS, ALINE LEMOS, ELLIE IRINEU E RENATA NOLASCO

Esse é um daqueles quadrinhos que dá vontade de abraçar, ou ainda, aqueles quadrinhos que abraçam a gente quando a gente está se desfazendo em lágrimas. Ao invés de trazer histórias trágicas sobre homossexualidade e quetais, ele traz histórias quentinhas, como naquele livrinho do Snoopy “Felicidade é um Cobertor Quente”. As quatro histórias desta publicação, trazidas por quatro talentosas artistas, são contadas de maneiras diferentes, com artes diferentes, sob diferentes aspectos, mas todas são, sim, quentinhas. A primeira, de Annima de Mattos, a mais independente/underground de todas, fala sobre como o visual pode importar e como pode não importar na sua sexualidade. A segunda, de Aline Lemos, gira em volta da revista Veja da Ana Carolina “Sou Bi, e Daí?!”, uma capa que marcou essa geração, inclusive a minha, a HQ é muito bem orquestrada. A história seguinte, de Ellie Irineu, conta uma belíssima história de companheirismo e amizade que avisa que nos papéis de gênero tudo pode acontecer. Por fim, a HQ da Renata Nolasco mostra amigos nerds e geeks de videogame MMORPG compreendendo melhor as nuances da sexualidade um do outro e o resultado é explosivo. Um belo esforço das meninas, histórias gostosinhas, emocionantes e que devem ser lidas mundo afora

MJUsincope

SÍNCOPE, DE ALINE ZOUVI

A Aline Zouvi é, digamos, minha “gêmea de dissertação”, já que tanto eu quanto ela fizemos nossa dissertação de mestrado sobre o Fun Home, da Alison Bechdel. Em Síncope, que tem o seu significado patológico e musical, a questão queer não é o principal – ela está ali, mas como pano de fundo – o destaque aqui fica para os ataques de ansiedade que Laura, a protagonista tem. De Qualquer forma, a ansiedade é uma patologia que acompanha os queer. Afinal, viver em uma sociedade que não te aceita e te trata com os mais diversos requintes de violência, certamente provoca nessas pessoas depressão, ataques de pânico, ansiedade, fobia social e tantas outras patologias. Entenda: não é o fato de ser queer que deixa as pessoas doente, mas o fato de como a sociedade trata os queer. Por isso, é difícil de desassociar uma coisa de outra. Não sei se a Aline quis expressar isso com o seu Síncope, que é um trabalho ritmado como a música e sufocante como a patologia, cheio de usos especiais da linguagem dos quadrinhos para expressar isso, o importante é que o resultado das intenções da Aline nos deixa permeados com essas sensações paradoxais que envolvem nossas vidas o tempo todo.

MJUzefiro

O DEUS DA SACANAGEM: A VIDA E O TEMPO DE CARLOS ZÉFIRO, DE GONÇALO JÚNIOR

Para quem está chegando agora no rolé, não deve saber quem é Carlos Zéfiro, mas aqueles que já estão nessa baladjeenha há muito tempo, sabem que ele foi o “educador sexual” da geração de brasileiros que viveu sua adolescência dos anos 40 aos anos 70. Seus quadrinhos eróticos, os “catecismos”, eram vendidos clandestinamente nas bancas e sua verdadeira identidade era secreta por medo de perseguição da censura. A identidade de Zéfiro sempre sobreviveu como um mito urbano, até que no final dos anos 90, depois de um imbróglio sobre quem realmente ele era, foi revelado pela Playboy seu alter-ego. Neste livro, o jornalista de uma obra imensa sobre história dos quadrinhos, esmiúça outra vida do artista: a de Alcides Caminha, a verdadeira identidade de Zéfiro. Considero esse, junto com A Guerra dos Gibis, um dos melhores trabalhos de Gonçalo. Uma extensa pesquisa dando nuances não só da vida de Alcides, mas do contexto de sua época, e daqueles que tentaram lograr para si o nome Carlos Zéfiro. Para quem estuda sexualidade e erotismo nos quadrinhos como eu, é um trabalho de vigor que em muito vem a contribuir com as pesquisas brasileiras nessa área. Afinal, se há um nome que tremula quando se discute quadrinhos e sexualidade em nosso país, esse nome, definitivamente, é Carlos Zéfiro. Leitura obrigatória para todo mundo que já se “divertiu” com um quadrinho erótico.

MJUyala

YALA E A TEIA DA EXISTÊNCIA, DE YURI AMARAL

Este é um livro young adult com uma pegada existencial do amigo Yuri Amaral. O interessante sobre a personagem-título deste livro, Yala, é que ela é o alter-ego drag queen de Yuri, através da qual ele realiza algumas performances. Segundo ele, o propósito da encarnação drag é causar uma desestabilização no pensar – algo muito próprio do queer – pois Yala traz elementos femininos (vestidos e maquiagens) e elementos masculino (barba e pelos no corpo). A história que Yuri conta sobre Yala neste livro também é de desestabilização, mas não somente no causar impacto no outro, como em si mesmo. Yala mostra que estamos em constante movimento e que é essa força de transformação que rege as nossas vidas e as forças da natureza. Somente com o movimento e a ação podemos fugir dos padrões e grilhões que nos aprisionam e sonharmos ser mais, atingindo novos mundos nessa viagem. A narrativa de Yala me lembrou bastante Sandman, já que incorpora alguns elementos do quadrinho nela, como Sonho e uma formação de irmãos Perpétuos. Afinal, sonhos e o perpétuo, por mais que tenham uma forma, estão sempre em movimento e é por isso que são infinitos.

MJUpiteco

PITECO: FOGO, DE EDUARDO FERIGATO

Quem lê a sinopse desta HQ do Piteco, uma nova versão do personagem na Graphic MSP (a primeira foi feitas por Shiko, que assina o posfácio), vai achar que vai se deparar com a mesma trama do filme do Conan. Sim, existem algumas semelhanças com o filme de 1984, estrelado por Arnold Schwarzenegger, mas tem uma coisa que faz a diferença fundamental que se chama protagonismo feminino. Piteco até fica meio apagado frente a sua filha, Thala e sua mulher, Thuga. Essa divisão de protagonismo também desenvolve um recurso narrativo que eu gosto muito, que são as subtramas e tramas em paralelo. Neste quadrinho, a tribo de Lem é escravizada por uma outra tribo que venera um deus do fogo e usa um certo líquido negro (já sacou o que é?) para atiçar o fogo no seu grande deus. Os escravos precisam, então, cavar as profundezas da terra para encontrá-los. Thala, que era desconsiderada como caçador por seu pai, vai provar a sua valentia e também, porque não dizer, a sua validade como membro da tribo, salvando a todos. Nada menos que a luta que toda mulher trava desde o momento que nasce: se provar tão boa e valiosa como um homem. E na sociedade pré-histórica não seria diferente. Ou não?

MJUaranhaverso

O ESPETACULAR HOMEM-ARANHA: PRELÚDIO PARA O ARANHAVERSO, DE DAN SLOTT, CHRISTOS N. GAGE, GIUSEPPE CAMUNCOLI E OUTROS ARTISTAS

Depois da animação Homem-Aranha: No Aranhaverso, que foi arrebatadora de corações e mentes e ainda ganhou o Oscar de melhor animação, muita gente foi atrás da versão da saga nos quadrinhos. Este encadernado tem a missão de introduzir o leitor na luta dos Aranhas de vários universos. mas se engana quem acha que vai encontrar uma trama parecida com a da animação. Neste encadernado nos deparamos com Os Herdeiros, uma família da Terra 000, que se alimenta de totens-aranha e está atrás de Homens e Mulheres e Macacos e Robôs e Porcos-Aranha aos redor do Omniverso. Aqui algumas histórias introdutórias são contadas e ficamos sabendo como o Homem-Aranha Superior (o Doutor Octopus no corpo de Peter Parker) está reunindo “totens-aranha” pelas realidades para deter o consumismo dos Herdeiros e proteger aos Aranhas do Omniverso. O encadernado é bem divertido, o ponto negativo é a relação custo-benefício: muito caro para as poucas (120) páginas que ele traz. Ah, sim, neste encadernado também temos o primeiro encontro entre o Homem-Aranha Peter Parker e a Miss Marvel Kamala Khan.

MJUeducacao

HISTÓRIAS EM QUADRINHOS E PRÁTICAS EDUCATIVAS: O TRABALHO COM UNIVERSOS FICCIONAIS E FANZINES, DE ELYDIO SANTOS NETO E MARTA REGINA PAULO DA SILVA

Ganhei esse livro sobre quadrinhos do Claudio Alves quando visitei a loja dele, a Pop Art’s no Coletivo Geek, um lugar muito legal que todo nerd deveria conhecer. Eu já havia lido o segundo volume desta coleção da Editora Criativo e, num plano geral, este fica abaixo do segundo em qualidade. Isso porque este é mais focado nos fanzines e o outro trata da educação em geral, abrangendo, dessa maneira um escopo de estudos muito maior. Contudo, este livro sobre quadrinhos também tem os seus destaques, como por exemplo uma historinha em quadrinhos bem divertida sobre produção de fanzines feita por Edgar Guimarães. Uma coisa que me deixou um pouco chateado é ter um artigo repassando a história dos quadrinhos em geral quando o foco do livro é a produção de fanzines em sala de aula. Me pareceu bastante fora do foco que o livro foi pensado para dar. Como a grande maioria dos livros com diversos artigos, alguns são muitos bons, outros, apenas são. Assim, num cômputo geral, esses livros acabam ficando na média, com uma avaliação média, a não ser que muitos artigos se destacam. O que não é o caso deste, em questão.

MJUadolf

EU MATEI ADOLF HITLER, DE JASON

Eu Matei Adolf Hitler é realmente um quadrinho em que você é surpreendido a todo momento. Primeiro porque nosso protagonista é um matador de aluguel e cheio de clientes, depois, porque é contratado por um cientista para voltar no tempo e matar Adolf Hitler. Mas algo dá errado e Hitler não apenas sobrevive como rouba a máquina do tempo e viaja até a atualidade. Misto de abismamento com uma verve farsesca, assim funciona esse quadrinho de Jason com criaturas antropomórficas. O fato de trabalhar com uma história de amor um tanto frustrada e com viagem no tempo me remeteu diretamente ao trabalho de Daniel Clowes em Patience, mas claro, mais pontual, silencioso e com humor e ironias involuntárias (ou voluntárias, vai saber qual foi a intenção do autor). O uso de personagens antropomórficos, com caras de gatos, cachorros, ursos, ratos e pássaros também concedem à história em quadrinhos aquele estranhamento que uma viagem no tempo por Adolf Hitler também poderia causar. Eu Matei Adolf Hitler é um quadrinho interessantíssimo e muito criativo, que discute nossas escolhas na vida.

MJUmisterno

MISTER NO ESPECIAL, VOLUME 3, DE GUIDO NOLITTA E ROBERTO DISO

Ler essa coleção de Mister No Especial da Editora 85 é sempre um primor. Não só porque a história é bem escrita e a trama é bem amarrada, mas porque Guido Nolitta, pseudônimo do chefão Sergio Bonelli é um profundo conhecedor do “Brasil profundo”, com o perdão do trocadilho. Depois de nos aventurar pelas religiões afro e pelas selvas amazônicas brasileiras no primeiro e no segundo volume, Nolitta e Roberto Diso nos levam por uma aventura através do cangaço, em que Mister No precisa recuperar a cabeça mumificada do famoso fora-da-lei Virgulino Lampião. E com o primor de sempre, Nolitta demonstra as ambiguidades dos símbolos, culturas e lendas nacionais brasileiras: uns creem que Lampião era uma figura do bem, outras, do mal, uns que era de esquerda, outros, que era de direita, uns que é o demônio, outras que é o redentor. Esse entrelugar e essa transculturalidade dos nosso costumes são muito bem traduzidas neste terceiro volume de Mister No. Estas histórias são uma visão do Brasil por um gringo que nos enxerga às vezes melhor do que nós mesmo nos vemos, com nossas idiossincrasias, paradoxos, crenças e descrenças que conferimos sentidos que, muitas vezes, nos deixam cegos para as consequências dessas lutas.

MJUfaceoculta

FACE OCULTA, VOLUME 3, DE GIANFRANCO MANFREDI E VÁRIOS ARTISTAS

Eu havia me encantado com Face Oculta em seu primeiro, mas senti que no segundo volume as aventuras, o suspense e a energia apresentadas no começo haviam arrefecido. Então, neste terceiro volume, o derradeiro, Gianfranco Manfredi volta à toda carga. A diversão, o mistério e a tensão estão de volta nas aventuras de Ugo, Cesare e Matilde e, claro, do Face Oculta, sobre quem ficamos finalmente conhecendo alguns de seus mistérios (mas, claro, não todos). O quadrinho apresenta uma bela retratação da Itália colonialista e imperialista e também de uma Etiópia sem dono e nem governo, dividida entre clãs e tribos e tentado ser tomada pelos italianos. Manfredi trabalha um trama cheia de reviravoltas que bem poderia ser tanto uma série histórica como uma novela de época. Os personagens (fora Ugo, o mocinho) são fascinantes e movem a trama para frente através de seus ímpetos e loucuras. Um ponto negativo neste é a arte irregular que trabalha personagens coadjuvantes apresentando eles com semblantes diferentes, a cada troca de desenhista num capítulo novo. Contudo, Face Oculta é um belo fumetti que devia ser lido por muito mais pessoas. Recomendadíssimo.

MJUprovidence3PROVIDENCE, VOLUME 3, DE ALAN MOORE E JACEN BURROWS
Chegamos à parte final desta saga de Alan Moore e Jacen Burrows que homenageia a obra de H. P. Lovecraft. Das três partes que compõem os volumes publicados aqui pela Panini Comics, este é o volume com menos sustos, suspenses e bizarrices. Ao menos foi o que para mim pareceu. O que menos me causou impacto. Isso também porque as obras de Alan Moore em quadrinhos cada vez têm se tornado mais herméticas a ponto de exigir que o leitor entenda todas as referências obscuras que ele usa para bem usufruir de suas obras em quadrinhos. Assim, este terceiro volume contém uma miríade assombrosa de referências. Eu, que li algumas obras de Lovecraft consegui captar algumas, muitas estão lá, mas me passam. Nesse volume, o protagonista Robert Black se encontra não apenas com H. P. Lovecraft em Providence, mas com Robert Chambers, autor de O Rei de Amarelo, e Robert E. Howard, criador de Conan, para citar pouquíssimas, mas as maiores referências neste volume. O que poderia colaborar com nossa interpretação enquanto leitores seria um trabalho editorial minucioso e dedicado por parte da Panini, com a confecção de notas explicativas. Contudo, esse é um tipo de trabalho que a Panini não se dá e nem se dispõe a pagar por ele. Assim, metade da graça de ler Providence, para um leitor não familiarizado com as obras lovecraftianas se perde.

MJUluzesombraCURSO MASTER DE DESENHO: LUZ E SOMBRA, DE LEANDRO FERNÁNDEZ
Muito bom este livro em forma de curso de desenho de luzes e sobra pelo desenhista argentino Leandro Fernández. Para quem não conhece o trabalho dele, ele é discípulo de Eduardo Risso (100 Balas) e Marcelo Frusín (Hellblazer), dois mestres argentinos na arte do chiaroscuro. Leandro já trabalhou para a Marvel (em Justiceiro e Woverine) e para a Vertigo, por exemplo. Neste livro ele conta um pouco do seu processo de pensar as incidências das luzes e das sombras no seu trabalho de desenho. Ele fala sobre perspectiva e pontos de luz e em como ser econômico no seu desenho sem ter que levar também o estudo das luzes e sombras ao pé da letra. Eu admiro muito o trabalho de luzes e sombras destes três argentinos, Frusín, Risso e Fernández então é ótimo entender o processo de trabalho de um deles num minicurso em forma de livro como esse. O livro é produzido no Brasil pela Editora Criativo e vendido exclusivamente através do site da loja de quadrinhos Comix Book Shop. Para aqueles que procuravam mais informações para como se desenha através da técnica do contraste pelo chiaroescuro, este livro é um prato cheio.

MJUbatwoman3

BATWOMAN, VOLUME 3, DE MARGUERITE BENNETT, JOHN RAUCH E FERNANDO BLANCO

Que legal foi acompanhar todas as edições do Renascimento DC que dizem respeito à Batwoman. Neste encadernado a saga chega no fim. Mas, como dizem, é melhor abandonar o barco quando se está na crista da onda do que quando se está nas profundezas do lodo. Não tive oportunidade de ler todas as histórias pregressas de Kate Kane, mas sei que elas foram muito elogiadas pela crítica e público, mas aquelas que eu tive a oportunidade de ler, eu gostei. As histórias começam densas, com bastante texto, bastante conspiração, e pecados do passado. Aos poucos as conspirações vão se revelando e vamos entendendo mais o universo de Batwoman. Além disso, a arte é fabulosa, ainda que nos primeiros volumes não tenhamos tanta experimentação narrativa como fazia J. H. Williams III. Contudo, parece que neste último encadernado, Bennett e Blanco resolveram prestar uma homenagem aos primeiros arcos da personagem. A dupla traz de volta não somente a irmã de Kate, Alice, mas também reapresentaram o modo de construir as páginas de narrativas visuais ousadas e dinâmicas, marcas de Williams III. Depois do grande arco se encerrar, a equipe criativa dá um gostinho de quero mais nas duas últimas edições fazendo a Batwoman combater o Rei-Relógio ao lado de sua antiga paixão, a policial Renée Montoya. Batwoman é vida!

MJUfiodanavalha

O FIO DA NAVALHA, DE DOMENICO DIMITRI E MARIO ALBERTI

Bem, pra começar, esse é agora o quadrinho mais volumoso que eu tenho, isso porque ele tem um tamanho gigante e tem quase 300 páginas. Primeiro preciso falar da arte do virtuose Mario Alberti (Homem-Aranha & X-Men), que tem um traço que fica entre um Milo Manara e um Carmine di Giandomenico (perceba que as influências são todas italianas), com cores acachapantes de lindas! Fantásticas, a ambientação deste quadrinho, seus cenários incríveis são um deleite. O roteiro de Francesco Dimitri poderia muito bem transformar O Fio da Navalha em um baita dum filme de ação superestrelado, mistura de Onze Homens e um Segredo com O Código da Vinci e filmes de M. Night Shyamalan, enfim, um blockbuster para todos ficarem atentos. Claro, em alguns momentos não fica bem claro o que está acontecendo com os personagens, isso porque muitas vezes o ritmo é intenso demais. Esse quadrinho é muito mais incrível nos seus desenhos do que na sua trama, mas esta última não é de se botar fora não e os personagens utilizados e criados pelos dois italianos são fascinantes e fáceis de que nos encantarmos por eles. O Fio da Navalha vale a pena.

MJUesquilo

OS HERÓIS MAIS PODEROSOS DA MARVEL: GAROTA-ESQUILO, DE STEVE DITKO, WILL MURRAY, RYAN NORTH E ERICA HENDERSON

A Garota-Esquilo é o máximo! Mas a dona Panini Comics nunca deu a chance das histórias dela saírem por aqui e conquistar uma legião de fãs (e principalmente fãs mulheres). Felizmente, a Salvat trouxe esse volume da Doreen Green na rabeira da sua coleção vermelha. As histórias são muito divertidas, espertas, desafiam o leitor e usam e abusam de muita metalinguagem, mas de uma maneira mais querida do que fazem as histórias do Deadpool. Neste volume, além das histórias que Doreen enfrenta Kraven, o Caçador e ninguém menos que Galactus, também somos apresentados à sua história de origem, quando foi criada pelo mesmo criador do Aranha e do Estranho, Steve Ditko. Os roteiros malucos e nonsenses todos especiais criados por Ryan North (A Hora da Aventura) ficam incríveis com os desenhos redondinhos da Erica Henderson. É diversão e gargalhada que não acaba mais. Se você gosta de rir com o Deadpool, mas acha que às vezes ele passa do ponto, a Garota Esquilo é pra você. Se você acha que está faltando representação de mulheres poderosas nos quadrinhos, a Garota Esquilo é pra você. Se você curte histórias bem elaboradas e desenhos bonitinhos, a Garota Esquilo é para você!

MJUtitas

LENDAS DO UNIVERSO DC: OS NOVOS TITÃS, VOLUME 5, DE MARV WOLFMAN, GEORGE PÉREZ E ROMEU THANGAL

Seguimos nas histórias de altos níveis de qualidade gráfica e artística e de aventura narrativa nesta coleção que traz as primeiras histórias dos Novos Titãs por Marv Wolfman e George Pérez. Neste encadernados temos uma batalha da equipe de heróis adolescentes com o maligno e religioso Irmão Sangue em momentos beefcake fanservice com o Robin Dick Grayson. Desde as priscas eras Dick já servia de colírio e alívio sexual para o povão. Depois, temos uma saga que envolve Koryander, a Estelar e sua perversa irmã, a Estrela Negra. Fazia muito tempo que queria ler essa história dos Novos Titãs, mas confesso que me decepcionei um pouquinho, com muita batalha e pouco pano de fundo. tem quem goste, né? O que achei interessante é a participação da deusa X’hal e sua origem contada neste encadernado em questão. A participação da equipe espacial dos Omega Men também é um tanto confusa nesta história. Quando se trata de aventuras de super-heróis no espaço, não adianta, fica bem difícil vencer dos X-Men nesse quesito, mesmo que isso possa invocar a ira dos decenautas e dos titãmaníacos. Esse encadernado deu uma caída em relação aos demais…

MJUcampeõesOS CAMPEÕES, VOLUME 1: AURORA POLAR, DE JIM ZUB, SEAN IZAAKSE E EMILIO LAISO

Embora este seja o primeiro encadernado que a Panini Comics Brasil esteja lançando com os Campeões, ele é o quarto da série. Isso porque a editora lançou a fase anterior, de Mark Waid e Humberto Ramos, na revista mensal e extinta Homem Aranha & Os Campeões. A fase que estreia neste encadernado é de Jim Zub, roteirista que ficou famoso por sua série independente e medieval Skullkickers. Realmente Zub sabe trabalhar melhor a individualidade de cada personagem de uma forma mais dinâmica que Mark Waid, contudo o plano de fundo e motivações da série e da equipe estavam mais sob controle com Waid. Zub apresenta aos leitores uma nova personagem inuktitut, i. a., esquimó, chamada Guarda da Neve. No primeiro arco a equipe tem um combate com o Mestre do Mundo e uma participação obrigatória da Tropa Alfa. O segundo arco é um tie-in com a saga Guerras Secretas, na verdade, uma minisssérie. Essa é a parte ruim do encadernado, que vai acabar com terríveis consequências para Riri Williams, a Coração de Ferro, Sam Alexander, o Nova, e para o Hulk, Amadeus Cho, provocando mudanças nos personagens. A série regular dos Campeões saído em uma outra direção criativa: ótimo. A minissérie ligada à Guerras Secretas: bem marromenos.

MJUato5

ATO 5, DE ANDRÉ DINIZ E JOSÉ AGUIAR

Esse quadrinho do André Diniz e do José Aguiar, dois grandes quadrinistas engajados da cena paranaense da nona arte, havia sido lançado em 2009, mas só agora entrou no meu lugar. Momento propício para um quadrinho sobre a imposição da censura na cultura e a vitória sobre esse cerceamento, através de laços de amizade de família, vir à tona. Estamos vivendo tempos estranhos, em que não sabemos definir o que fazer a respeito da cultura e da educação de tão sucateados que estão. É triste, mas ao menos na ditadura, alguma educação e cultura existiam, de modo enviesado e completamente ideológico, mas não era a burrice e ignorância sucateadora dos recursos memoriais do coletivo que temos em 2019. Vivemos tempos que são piores que sombrios, são tempos de penumbra, porque nada é definido, o escuro e o claro são os mesmos e não o são. A flor e o punhal estão na mesma mão. Visões libertárias por serem um pouco conservadoras, são contestadas. Visões conservadores, por serem um pouco libertárias, também. A penumbra vai persistir misturando tudo na nossa cabeça e na nossa sociedade, enquanto não nos apoiarmos na luz da educação e da cultura com todas as nossas forças. Aliás, esse é um belo quadrinho sobre a resistência da luz.

MJUvamgam

VAMPIRA & GAMBIT: ANEL DE FOGO, DE KELLY THOMPSON E PERE PÉREZ

Esse quadrinho, que é originalmente uma minissérie me levou direto para a década de 1990, quando eu comecei a amar, a adorar e a venerar os X-Men. Então eu percebi uma das razões porque eles têm ficado sem eira nem beira ultimamente: a ausência de Vampira e de Gambit nas equipes principais e, mais do que isso, a ausência da dinâmica entre os dois que 8 entre 10 fãs dos X-Men curtem. Essa minissérie intitulada Anel de Fogo, em homenagem à música de Johnny Cash e June Carter, que tinham uma relação atribulada assim como a de Remy LeBeau e Anne Marie. Mais que isso, ela presta uma homenagem à trajetória do casal, revistando partes de sua história bem conhecidas e outras nem tão conhecidas, como o primeiro encontro e confronto do casal durante a Saga da Ilha Muir (meu amorzinho de saga! 3). Contudo se ela se destaca prestando homenagem ao passado, ela peca em apresentar uma inimiga bem meia-boca, embora a ideia de levar Gambit e Vampira para um retiro de casais seja bem interessante. A forma como se desenvolve o conflito, contanto, não é nada inovativa, e sim repetitiva. Poderia ser melhor, mas se a ideia era ser nostálgico, Thompson e Perez acertaram em cheio.

MJUextermina

EXTERMINADOR, VOLUME 5, DE CHRISTOPHER PRIEST, CARLO PAGULAYAN, DIÓGENES NEVES, LARRY HAMA E JEROMY COX

Passados três anos do início da iniciativa Renascimento, da DC Comics, os quadrinhos do Exterminador por Christopher Priest continuam sendo um dos melhores, senão o melhor deste esforço. As histórias são intrincadas em espionagens e nas relações familiares entre traições e alianças. Os desenhistas da série, o brasileiro Diógenes Neves, Carlo Pagulayan e outros, parecem estar em sintonia, fazendo um trabalho regularíssimo. Neste encadernado, o Batman confronta o Exterminador porque ele acredita que Slade Wilson pode ser o pai de Damian, o Robin, e não Bruce Wayne, como ele pensava. Segue-se um combate tenso e em vários cenários entre o maior mercenário e o maior detetive do mundo. Isso sem falar nas alianças forjadas entre Wintergreen e Alfred, que dá um sabor meio à trama, além das maquinações de Adaline Wilson e Tália Al Ghul, que também forjam pistas para confundir o morcego e o homem do tapa-olho. Enquanto isso, acompanhamos as subtramas de Jericó e Rose Wilson, para desvendar quem realmente matou a noiva de Joseph Wilson. Exterminador é um quadrinho que deve ser lido por mais gente, recomendadíssimo!

MJUpapergirls2PAPER GIRLS, VOLUME 2, DE BRIAN K. VAUGHAN, CLIFF CHIANG E MATTHEW WILSON

Se o primeiro volume de Paper Girls já estava incrivelmente incrível, este segundo então, com mais aventuras pelas realidades e pelo tempo então, toma um direcionamento mais divertido ainda. Neste segundo encadernado a Sessão da Tarde do final dos anos 1980 encontra com os filmes indies com ficção científica do final dos anos 2000. O roteiros de Brian K. Vaughan além de trazer diálogos extremamente espertos e bem-sacados, eles também nos mantém atentos para saber o que está acontecendo na história, que ele não entrega tudo de uma vez. Além disso, a construção da estrutura da história também é interessantíssima, com alguma maracutaia temporal envolvendo dispositivos da Apple, as versões 1980, 2000 e 60.000 de Erin, a protagonista da série. Os desenhos de Cliff Chiang também são demais, casados com as paletas de cores bem trabalhadas de Matthew Wilson, nos dão uma sensação temporal e atemporal ao mesmo tempo para esta história de viagens no tempo. Esse é um daqueles quadrinhos que te mantêm submerso na história, agarrado no gibi até ele acabar de tão interessante e divertido que ele é. Paper Girls é incrível, sensacional, é demais!

MJUpelotaPELOTA!, VOLUME 2, QUADRINHOS E FUTEBOL, COPA DA RÚSSIA, DE DANIEL ESTEVES, PEDRO OKUYAMA E SAMUEL BONO

Este é o segundo quadrinho que o pessoal do HQ em Foco e do selo Zapata Edições realiza focando em histórias de futebol. O primeiro foi lançado durante a famigerada Copa do Brasil. Este segundo, então, foi lançado para a Copa da Rússia contendo figurinhas de grandes jogadores da seleção brasileira. A história desse quadrinho é uma disputa no futebol entre dois times para que um deles ganhasse as figurinhas de um menino que se propõe “investidor”. Sabe, como aquelas propagandas de televisão da XixxPê com muito xotaque cariocax? Então, só que com figurinhas e não grana. Ele atazana a vida dos amigos contratando uma equipe para vencê-los, mas, claro, no final, o pessoal humilde é quem ganha. O legal é que tem uma personagem menina que está no time e é a melhor de todos. Os desenhos de Pedro Okuyama são muito bonitos e a edição é caprichadérrima, uma pena que ela tenha “data de validade” devido à efemeridade de uma Copa do Mundo de futebol. Quem sabe agora que a seleção feminina de futebol finalmente atraiu a atenção da grande mídia não tenhamos um Pelota! versão feminina saindo por aí? Seria legal!

MJUpunpun1

BOA NOITE, PUNPUN, VOLUME 1, DE INIO ASANO

Tenho chegado à conclusão que meu tipo favorito de mangá são aqueles que tratam o cotidiano. Algo muito diferente daquilo que se pensa quando se pensa em mangás, com suas linhas de ação e de movimento intensas. Esse Boa Noite, Punpun, é um quadrinho sensível, muito lindinho, em que, seguindo uma pegada Maus, de Art Spiegelman, o personagem principal é representado como um passarinho/fantasminha, assim como todas as pessoas da família dele. O restante é mostrado num realismo incrível, próprio do Inio Asano (Nijigahara Holograph, Solanin). Este primeiro volume mostra a infância de Punpun, que se apaixona pela garota nova no colégio. Junto com ela e seus amigos, Punpun vai tentar desvendar um crime ocorrido numa fábrica do seu bairro. Essa é a parte que começa a esquisitice que marca a história. Boa Noite, Punpun é muito interessante, tanto pela arte quanto pela forma como o autor faz a sua abordagem das “coisas da vida”, estabelecendo Punpun em uma família extremamente disfuncional e que não gosta do produto dessa família: o próprio Punpun, que vive num mundo à parte, à margem de tudo e de todos. Belo mangá que começarei a acompanhar suas sete edições pela JBC.

MJUbigbaby

BIG BABY, DE CHARLES BURNS

É, não, adianta, eu curto muito os trabalhos de Charles Burns (não confundir com o Charles Montgomery Burns, de Os Simpsons). Esse é o cara que trouxe ao mundo a sensacional graphic novel Black Hole, um quadrinho que explodiu minha cabeça quando eu li e me abriu para as possibilidades dos quadrinhos. Neste Big Baby, nós temos pequenas histórias de Charles Burns feitas no início da sua carreira para a revista RAW, de Art Spiegelman. Incluída nelas está “Praga Adolescente”, a história que inspirou o enredo e clima de Black Hole. A edição de Big Baby tem o capricho sem igual das edições da Darkside Books, e tem aquele clima e atmosfera de terror que os quadrinhos do Charles Burns fornecem com seu traço encorpado e pesado. O personagem principal é o Big Baby, um garoto que tem o rosto de um bebê, e que vive aventuras arrepiantes de terror que, se a princípio podem parecer apenas fantasias da sua cabeça que lê muito gibi, por outro lado, elas acabam se tornando apavorantemente reais tanto para Big Baby quanto para aqueles que não levam a sério suas insinuações. Que quadrinho bom! Deveria ter pelo menos um quadrinho do Burns por ano! Amei!

MJUmanara

MILO MANARA: A SUBVERSÃO PELO PRAZER, DE GONÇALO JÚNIOR

Quando comprei este livro em uma promoção de uma loja de quadrinhos on-line, achei que ele ia trazer uma análise das obras de Milo Manara. Mas estava errado. O que ele traz, na verdade, é um tipo de biografia de Milo Manara, só que não. É mais uma biografia das obras que Manara fez ao longo da sua carreira, com pouco destaque para os aspectos pessoais de sua vida e mais voltado para o lado profissional e artístico de Milo Manara. Claro, as polêmicas que ele se envolveu, principalmente nos últimos anos, com as capas da Marvel Comics também estão incluídas neste livro, do fabuloso escritor sobre quadrinhos, Gonçalo Júnior. Mas sinceramente, eu esperava mais profundidade. Certamente este é um livro muito mais jornalístico, do que de fundo analítico, acadêmico, que dê aportes para entender o processo e a recepção das obras de Milo Manara. Como um compilado de notícias e entrevistas, ele até é útil, mas eu gostaria de um livro que trouxesse mais implicações sobre a obra erótica de Milo Manara e de que forma ele traz e trata essa “subversão pelo prazer” descrita no título deste livro sobre sua obra – erótica, pornográfica, ou daquilo turno no meio disso tudo.

MJUalamein

EL ALAMEIN E OUTRAS HISTÓRIAS, DE YUKINOBU HOSHINO

Continuando a minha vibe de ler mangás sobre a Segunda Guerra Mundial, comprei este por um precinho extremamente camarada em uma promoção das interwebs. São cinco volumes compilados neste mangá, com seis histórias, todas temáticas sobre a guerra das guerras. Temos algumas histórias que são mais realistas e outras que são mais fantasiosas. Gostei mais das que apresentam elementos fantásticos, como a da fatídica batalha do deserto africano chamada El Alamein. Durante ela, alguns soldados descobrem um templo egípcio com provas de que o povo do local havia usado dinossauros para construir as pirâmides. Outro conto em mangá fantasioso deste volume é “A Floresta de Ardenas”, que traz à tona um enorme homem de palha, construto em que os celtas gauleses costumavam aprisionar seus prisioneiros de guerra ainda vivos e, depois, queimá-los lá dentro. Esta lenda também acaba sendo relacionada com a guerra, porque os prisioneiros do homem de palha manifestam seus espíritos que, anteriormente, eram de germânicos que foram sacrificados. Um bom mangá na média.

MJUguerrasinfinitas2

GUERRAS INFINITAS, VOLUME 2: CONTAGEM REGRESSIVA, DE GERRY DUGGAN, JIM MCCANN, CHAD BOWERS, CHRIS SIMS, MIKE HAWTHORNE, MIKE DEODATO JR., AARON KUDER E GANG HYUK LIM

Continua a saga cósmica orquestrada por Gerry Duggan e seu parceiros, acirrando as pontas do conflito para cima dos Guardiões da Galáxia e seus aliados. Isso significa que a missão de Warlock dada por Kang precisa ser cumprida logo, mas parece que existe alguém que quer impedi-lo. Este volume também mostra uma edição especial enfocando em Carol Danvers, a Capitã Marvel, de posse da Joia da Realidade. Contudo essa edição é extremamente dispensável e totalmente enchedora de linguiça. O destaque fica mesmo para a nova minissérie do Falcão de Aço, herói muito celebrado aqui no Brasil nos anos 90, mas que caiu no ostracismo e na obscuridade. Desde o evento Guerra dos Reis, a a armadura do Falcão de Aço e seu usuário, Chris Powell vêm tomando uma dimensão cósmica e um novo papel no Universo Marvel: mais próximo dos Shiars e da fraternidade renegada dos Rapinantes, encarregados de defender seus mundos da Fênix. Assim, mesmo que a minissérie, aqui publicada pela metade, para ser concluída nas próximas edições, tenha desenhos um tanto irregulares e mangasísticos, acaba se revelando o melhor deste segundo volume de Guerras Infinitas: Contagem Regressiva.

MJUretornoO RETORNO DE WOLVERINE, VOLUME 2, DE CHARLES SOULE, JIM ZUB, TOM TAYLOR, MARIKO TAMAKI, R.B. SILVA, MATTEO BUFFAGNI, THONY SILAS E BUTCH GUICE

O Retorno de Wolverine continua sendo uma boa homenagem ao universo do carcaju e ao universo mutante em geral. Neste volume começa a quarta minissérie, “As Garras de um Assassino”, de Mariko Tamaki e Butch Guice. Contudo, essa série que é estrelada por Dentes-de-Sabre, Lady Lethal e Daken, acabou se revelando a pior parte do compilado. Isso porque os rivais de Wolverine, ao irem atrás de seu algoz, se deparam com zumbis. Todo mundo já está de saco cheio de zumbis. Então, imagina, de uma cidade inteira feita de zumbis? Pois é. A melhor parte do compilado nesta edição foi a “Arma Perdida”, linkando as diversas cenas de Retorno do Wolverine dispersas em várias histórias da Marvel. “Operação Adamantium” e “Mistério em Madripoor”, seguem regulares com a temperatura amornando. Contudo é preciso dizer que este Retorno de Wolverine está muito melhor orquestrado do que o evento da Morte do mesmo personagem, que envolveu minisséries fraquinhas e um spin-off sem pé e nem cabeça que foi a maxissérie Wolverines, que acabava indo do nada para lugar algum. Vamos ver o que as próximas edições nos reservam.

MJUnossosolhos

NOSSOS OLHOS, DE DIÉFERSON TRINDADE

Os quadrinhos do Diéferson são como um soco no estômago dos nossos preconceitos e das nossas expectativas de realidade. Como um bisturi, eles rompem a dura casca da nossa bolha, para operar um cisto, que retirado logo após a leitura do quadrinho, mas que de alguma forma volta a crescer retroalimentado pelas perspectivas da bolha. Neste quadrinho, Diéferson conta a história de um viciado em crack que perde tudo e se torna um mendigo, invisível aos “nossos olhos”. Ele compara o mendigo Josué à barata de Kafka, rejeitada pelo pai que o criou, assim como Josué é rejeitado pelos pais que o tornaram barata, a sociedade, que corre alheia aos seus desgastados olhos. Existe uma poesia profunda, corroedora e marginal nas obras autorais de Diéferson Trindade que atentam para o lado mais sórdido do comportamento social: a indiferença que se torna ojeriza. Este sentimento está presente tanto nos marginalizados quanto nos marginalizantes, num ciclo vicioso, tão vicioso quanto as drogas que estabelecem um tipo de marginalidade. As pessoas passam por nós, nós as julgamos com “nossos olhos” e as descartamos, sem nos importarmos qual o papel delas no plano geral das coisas ou que bem que podemos fazer a elas e mudar sua realidade ao estourarmos, nem que cirurgicamente, as nossas bolhas.

MJUmotoqueirofantasmacosmico

MOTOQUEIRO FANTASMA CÓSMICO, VOLUME 01: O BEBÊ THANOS DEVE MORRER, DE DONNY CATES, DYLAN BURNETT E ANTHONY FABELA

Comecei a olhar esse quadrinho como quem não quer nada, para ver quais as loucuragens Donny Cates iria trazer para esse personagem que é uma versão Motoqueira Fantasma com poderes cósmicos dados a um Justiceiro Matusalém. Quando percebi já tinha lido três histórias (de cinco, no total), de tão vidrado que fiquei na narrativa estabelecida aqui. Com certeza, Cates tem esse dom e vem provando também na série de horror sobrenatural (e cósmico) do Venom. Já os desenhos de Dylan Burnett neste encadernado lembram um pouco o estilo de Jeff Lemire de fazer rostos compridos e escorridos. A história é louca? É! Os personagens são loucos? São! Se trata de viagens no tempo e realidades alternativas que dão nó na nossa cabeça pela sua lógica distorcida? Sim. É divertido pra caralho e a gente consegue dar uma boas risadas? Uhum. É melhor do que muito material mequetrefe que vem sido vertido para o português do Brasil principalmente pela Panini Comics? Com certeza. Quem gosta do Thanos deve ler sem problemas de continuidade e essa patacoada geral? Eu acho que sim, mas me diga se estiver enganado. E p-por e-enquanto é-é s-só, p-pessoal!

MJUintrusos

INTRUSOS (CONTOS), DE ADRIAN TOMINE

Intrusos, de Adrian Tomine, tem originalmente o nome de “Killing and Dying’, ou seja, “Matando e Morrendo” que é o que as histórias fazem ao serem contadas mas, talvez, as de cotidiano, como estas aqui, revelem mais esse aspecto de matar e morrer num sentido amplo e contínuo do que histórias de ficção especulativa, por mais fantásticas que sejam. As histórias de cotidiano revelam a inexorabilidade do tempo e como ele acaba agindo nas nossa vidas, que “vivemos e deixamos morrer” ou ainda “matamos e deixamos viver” determinados aspectos, identidades e relacionamentos que a compõe. Intrusos lembra a prosa suburbana de Tom Perrotta e outros escritores contemporâneos norte-americanos. Lembra também o desconforto causado por narrativas investigativas do cotidiano de Paul Auster. Os traços simples e as cores mornas lembram o quadrinho de Chris Ware, mas com uma ironia maior, com uma extensão mais próxima, com menos extrainterpretações imbricadas e de difícil cognição. Intrusos é um belíssimo quadrinho, mostrando que esse tipo de mídia pode alcançar espaços em que o cinema e a literatura são reverenciados criticamente e que seu efeito pode ser ainda mais poderoso.


Piores

MJUdiabolik2DIABOLIK, VOLUME 2, DE MARIO GOMBOLI E DEMAIS ARTISTAS

Eu havia recebido o primeiro volume de Diabolik pela Editora 85 com muito entusiasmo, chegando até a escrever um post sobre o personagem. Então, era de se esperar que o segundo volume mantivesse o mesmo nível das histórias dinâmicas e misteriosas do ladrão intrépido. Só que não. Este segundo volume de Diabolik não chega nem perto do primeiro encadernado com quatro histórias publicado pela Editora 85. Sendo que das quatro histórias de 120 páginas deste livrinho/livrão de 500 páginas e formato pocket, apenas uma delas é realmente interessante. Aquela que trata de um vírus encomendado para um casal de ricaços que Diabolik e Eva Kant estavam disfarçados. Os materiais italianos trazidos ao Brasil pela Editora 85 costumam ter uma excelente qualidade, este segundo volume de Diabolik foi a primeira publicação da editora que me decepcionou mesmo. De qualquer forma, eles estavam seguindo a numeração original italiana e, portanto, a ordem sensata de se publicar aqui no Brasil. Mas a totalidade de histórias do compilado acabou com grande parte de histórias fracas se comparado com o primeiro e, assim, perdendo muito do meu entusiasmo com a coleção.

MJUimortaisOS IMORTAIS, DE JAMES TYNION IV, JIM LEE, RYAN BENJAMIN E TYLER KIRKHAM

Olha, não vou negar que até hoje eu tenho um certo prazer macabro, ou prazer culposo, o tal do guilty pleasure, em ler aqueles quadrinhos da Image Comics no seu início e aqueles crossovers dos anos 1990. Talvez porque eles me lembram de tempos mais simples, em que minha preocupação era só inventar super-heróis para minhas histórias. Esse quadrinho dos Os Imortais é bem isso: parece uma equipe de heróis criada por um pré-adolescente que perdurou até se tornar realidade num quadrinho da Image dos anos 1990. Para completar, temos a arte de Jim Lee e seus asseclas (Lee nunca fica para sempre num projeto, que coisa). O quadrinho é divertido como um exercício criativo, mas não dá para levar muito a sério, a não ser que você seja um pré-adolescente criador de super-heróis próprios. Além disso, é uma minissérie esquisita porque não dá um fechamento. O que parece é que foi encerrada às pressas e que foi projetada para durar bem mais que as seis edições compiladas neste encadernado. Isso me leva a perguntar: será que esse esforço da linha de quadrinhos de Noites das Trevas: Metal, não foi uma espécie de revival da Image no seu início?

MJUragemoorRAGEMOOR, DE JAN STRNAD E RICHARD CORBEN

Fui até Ragemoor como se eu fosse a um “blind date” com esse quadrinho: sem saber muito sobre ele, a não ser a capa mostrando um golem engolindo uma mulher e sabendo que a arte era do virtuose do pontilhismo underground Richard Corben. Ah sim, e tudo apontava que se tratava de um quadrinho de terror. Bem, depois de lidas as suas mais de uma centena de páginas cheguei à conclusão de que não quero ficar com esse quadrinho na minha coleção, que vou passá-lo adiante, porque apesar da bela arte, ele não diz nada para mim. Se ele tivesse mantido o clima da primeira história em que os servos insectóides e os babuínos de caveira do castelo não tivessem sido apresentados, talvez eu conseguisse levar mais a sério e entender o propósito dessa HQ. Mas ela não é nem chocante para justificar tais seres e nem mantém uma ambiência de terror lúgubre como na primeira história. As coisas acabam ultrapassando uma sensível barreira entre o que é bizarro por ser bizarro e o que é bizarro e também é apavorante ou chocante. Ragemoor acaba forçando essa barreira demais da conta e perde as estribeiras do terror bem estabelecido na primeira história. Assim, foi boa a tentativa, mas não conseguiu me conquistar, não.

MJUbombaCAPITÃO AMÉRICA E FALCÃO: A BOMBA ENLOUQUECEDORA, DE JACK KIRBY

Este encadernado marca o retorno de Jack “O Rei” Kirby para as páginas da Marvel e de Capitão América (e Falcão). Neste arco de histórias nos deparamos com a bomba enlouquecedora, um artefato do crime que ao explodir, envia ondas mentais capazes de reverter a mente da população a níveis bestiais e instintivos. Em sua busca para impedir a explosão de uma bomba ainda maior que pode enlouquecer o mundo inteiro chamada “A Mãe de Todas”, Steve Rogers e Sam Wilson partem para um investigação. Mas acabam viajando para o “longínquo” ano de 1984 onde as pessoas precisam competir em um derby da morte e enfrentar seres humanos deformados. Esse é o futuro onde a “mãe de todas” foi detonada. Essa parte do encadernado é bastante enfadonha. A segunda parte, que se passa nos dias “atuais” e conta s história de amor de Rogers por uma mulher destinada a morrer é mais interessante. Cabe que essa mulher é filha do inventor da Bomba Enlouquecedora e a relação de compaixão e companheirismo do Capitão América por essa mulher vai ser crucial para definir o destino dos Estados Unidos. A nação patriótica está sendo ameaçada por uma corja de malfeitores que se autointitula “A Elite”, e quer reverter os EUA a uma monarquia inglesa. Cabe a Rogers e Wilson impedir. Eu esperava um pouco mais desse encadernado. As histórias são bem mornas e os desenhos são bem burocráticos, não chegando a me empolgar, não.

MJUarmaxARMA X, VOLUME 4: GUERRA MODERNA, DE GREG PAK, FRED VAN LENTE, YILDIRAY CINAR, ROLAND BOSCHI

Se eu não fosse um verme das publicações x, eu já teria desistido de ler Arma X desde o primeiro volume. Mas a verdade é que eu não sou e preciso acompanhar tudo que tem um x no título. O arco do Bazuca, em que todo mundo vira bazuca na república de bananas de São Marco, inclusive o Arma X, é menos ruim do que eu pensava. mas ser menos ruim não quer dizer que não seja ruim, certo, pipow? Ali eles tentam desenvolver um forçado romance entre Dominó e Apache, ai, ai, ai. Bom, depois tem um outro arco incluído neste encadernado, isso porque a Panini resolveu publicar somente mais este encadernado e um próximo e não dividi-los em 3 como foi feito lá nos States. Neste outro arco, que marca o aniversário do Velho Logan, mais uma vez o Dentes-de-Sabre tenta, de alguma forma, desgraçar a sua vida ou matar ele. Como Creed fez quando estuprou e matou ou vice-versa, o grande amor de Wolverine, a indígena Raposa Prateada. Lutinha, lutinha e lutinha e nada de mais a ser acrescentado neste segundo arco de duas partes desse encadernado. Aliás, esse título é um dos mais sem sentido e dispensáveis da história dos X-Men. Só acompanha quem é verme mesmo.

MJUcoisaselvagensCOISAS SELVAGENS, DE JUSTIN JORDAN, IBRAHIM MOUSTAFA E JORDAN BOYD

Vou dizer: comprei esse quadrinho pela capa, sem saber nada, nadica, nadinha sobre ele. E adivinha o que aconteceu? Me dei mal, Juvenal! É um quadrinho bastante desinteressante, massante, com diálogos rápidos e curtos e um enredo bobinho, bobinho. A não ser é, claro, que você goste dos filmes do Jason Statham, porque parece ter sido um quadrinho feito para virar esse tipo de filme mesmo. A arte de Ibrahim Moustafa é competente e, realmente, não é problema fulcral aqui deste Coisas Selvagens. O roteiro de Justin Jordan é que deixa o leitor bastante decepcionado, revolvendo ao tema de escolar que criam criancinhas terríveis e assassinas sem um pingo de remorso para “atuarem” na sociedade como máquinas de matar. Enredo que a gente já viu zilhares de vezes em zilhares de lugares e que foram melhor executados até mesmo na revista da Viúva Negra escrita pelo estuprador de mulheres. Por isso, amigos leitores, não façam como eu não comprem um quadrinho apenas pela capa. Vão atrás do conteúdo daquela história e do que ela trata. Senão pode ser um tiro no pé e uma decepção muito grande.

MJUkickassvol2KICK-ASS: A NOVA GAROTA, LIVRO UM, DE MARK MILLAR E JOHN ROMITA JR.

Esta é a nova tentativa de Mark Millar e John Romita Jr. para fazer perdurar seu personagem próprio Kick-Ass. Assim, Patience Lee, uma ex-fuzileira naval dos Estados Unidos que serviu no Afeganistão assume o manto de Kick-Ass. Mas temos um problema aqui, recorrente de vários quadrinhos estadunidenses. Ela é chamada o tempo todo de “girl”, de “garota”, mas ela foi fuzileira e é mãe de dois filhos. Em que lugar ela é “just a girl, not yet a woman”? Complicado isso, principalmente se formos comparar com outro quadrinho nessa mesma vibe que é Jennifer Blood de Garth Ennis, que tem elementos semelhantes. Jennifer Blood, contudo é muito mais apelativo do lado cômico e ridículo da coisa, embora os dois sejam apelativos para a violência sem comedimentos. O traço de John Romita Jr continua muito desengonçado na hora de fazer as crianças, um absurdo de feio. Já a história compre aquele papel de ser massaveistica, mas pelo menos não acaba ofendendo ninguém, como muitos dos quadrinhos do Millar já fizeram com os mais diversos tipos de gente. Kick-Ass: A Nova Garota é um quadrinho bem ok, que não tem nada de novo a acrescentar.


É isso, aí, mergulhadores, essas foram as Melhores e Piores Leituras de Junho de 2019. Espero que tenham curtido. E, como prometido ficam os links para saber mais sobre os eventos de quadrinhos que compareci em Florianópolis e São Paulo neste mês de junho de 2019:

FloripaComicCon

POCCON

Abraços submersos em um mundaréu de leituras! =)

Anúncios

2 comentários sobre “Melhores e Piores Leituras de Junho de 2019

  1. Sobre um guia de leitura em Hellboy, as edições históricas da Mythos possuem um guia bem completo. Bom, pelo menos o volume 10 que peguei recentemente possui.

    Curtir

Deixe um comentário, caro mergulhador!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.