Continuidade Narrativa e o Uso da Memória nos Quadrinhos

A memória nos quadrinhos pode ser pensada muito mais do que apenas quadrinhos que contêm memórias de outras pessoas ou dos próprios autores. Ela pode ser pensada através dos rituais que realizamos para guardar informações sobre os universos ficcionais dos quais gostamos; ela pode ser utilizada como forma de arquivamento de coleções, a nostalgia pode ser pensada através dessas memórias, entre outras situações. Mas uma função importante da memória, principalmente nas duas grandes editoras de super-heróis é a continuidade narrativa. É através dela que sabemos que uma história que estamos lendo já teve um passado e terá um futuro e que depende de nós comprarmos mais e mais revistas para conhecer esse universo. Vamos falar neste post sobre como a continuidade narrativa dos super-heróis são uma ferramenta de impulsionamento de vendas para as editoras de quadrinhos. 

Ao estudar a continuidade narrativa nas histórias em quadrinhos da Marvel, Jean-Mathieu Méon define a continuidade nos quadrinhos como uma mediação da leitura entre o produtor de um universo ficcional e o leitor-consumidor:

Sua natureza transicional exige a preservação de uma memória específica que o editor tenta mediar para seus diferentes leitores, para facilitar o acesso à sua produção atual. Eventos e enredos, relações entre personagens e lugares ou história fictícios são apresentados através de diferentes suplementos paratextuais, a fim de ativar a memória dos leitores ou oferecer-lhes conhecimentos compensadores (MÉON, 2018, p. 205).

CONcrisis

A continuidade é, então, um mapa para a geografia das edições únicas, mas a continuidade também é um guia para as nossas vidas. Afinal, o ser humano costuma criar uma narrativa autobiográfica para explicar a continuidade de sua vida e, através desse artifício ele cria uma narrativa que empresta sentido à sua existência e das demais pessoas que estão envolvidas nela. Hank McCoy, o Fera, explica bem como essa continuidade funciona na vida dos seres humanos no quadrinho X-Men: The Worst X-Man Ever, de Max Bemis e Michael Walsh: 

Existe uma continuidade para conduzir a existência da humanidade. E para se referir a isso como uma experiência individual, Campbell se refere ao monomito. Uma narrativa mítica que tem seu próprio sentido de autopreservação. Mesmo homens malignos são incapazes de quebrar esse ciclo… eles apenas buscam controlá-lo. (BEMIS, WALSH, 2016).

CONavengers

O Campbell que o Fera se refere na sua fala é Joseph Campbell, que estruturou o que é conhecido como A Jornada do Herói, uma narrativa em que um personagem segue para se tornar um homem de feitos, um herói. Mas também o monomito explica porque o ser humano precisa buscar um sentido e uma condução por um caminho para sua vida e, por isso, ele busca a continuação, que também tem a ver com a preservação da espécie, quando envolve a reprodução humana. Nesse sentido, pensamos na economia da continuidade e que fatores financeiros e de manutenção ela envolve. Nos explica Méon:

A continuidade é um recurso criativo e comercial. É uma memória pronta para ser ativada e ser, como um arquivo, extraída de novas histórias, com um engajamento já estabelecido pelos leitores. Qualquer história do passado e seus personagens é um começo potencial para novas histórias. O “universo” definido por uma continuidade é “uma matriz para todas as parcelas possíveis” (Dukaj 2010 citado em Maj 2015, 85), um “sistema de conteúdo abstrato a partir do qual um repertório de histórias ficcionais pode ser atualizado ou derivado” (Klastrup e Tosca 2004 citado em maio de 2015, 85). O entrelaçamento narrativo organizado através da continuidade é precisamente o que confere significado emocional e diegético às histórias para os leitores (Reynolds 1992, 38). Tem sido a base de interações lúdicas com os fãs – como o No-Prizes (ou Troféus Cata-Piolhos) da Marvel, concedido a leitores atentos que captam erros de continuidade (Pustz 1999, 131). A continuidade confere impacto nas histórias e exige lealdade dos leitores. (MÉON, 2018, p. 194)

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Para Méon, então, existem três formas de mediação editorial feitas por e através da continuidade narrativa nesse tipo de histórias em quadrinhos. Esses esforços editoriais podem ajudar aos leitores a compreenderem o que está se passando na história sem ter que buscar edições antigas, mas ao mesmo tempo sem fazer com que eles percam o interesse nelas. 

  • Inserções paratextuais no enredo ou notas de rodapé
  • Reimpressão seletiva de histórias
  • Produções de referências em formato textual

Essas mediações paratextuais podem ocorrer diretamente nos quadrinhos ou em publicações dedicadas paralelas. Eles explicitam a memória narrativa presente na maioria das histórias da Marvel. Eles também demonstram as operações de reconstrução e seleção que essa memória envolve. […] Uma forma mais direta de mediação consiste na reimpressão seletiva de histórias, enfocando questões importantes e personagens principais. As histórias são selecionadas com base em sua importância diegética: “origens” de personagens, primeiros encontros de personagens, formação de equipes… […] Uma terceira forma de mediação editorial baseia-se na produção de publicações de referência baseadas em texto. Três variações de tais publicações podem ser distinguidas: índices, enciclopédias e narrativização híbrida. Todos eles compartilham a mesma abordagem da memória diegética, na qual a informação é transmitida por texto mais que pela imagem. (MÉON, 2018, p. 195 a 197)

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Contudo, enquanto o processo de continuidade narrativa das histórias em quadrinhos nos oferece uma oportunidade para nos dirigirmos ao futuro (ou ainda ao passado), existe um processo que é, de certa forma, inverso. Esse processo envolve a criação de outras realidades dentro da mesma continuidade canônica e oficial de um universo. Não iremos aqui entrar na discussão sobre realidades paralelas, mas falaremos no processo do retconning, que busca ou inserir novos elementos na continuidade corrente, ou ainda, corrigir alguns erros de continuidade que se apresentaram ao longo de várias narrativas.

Segundo Méon, a continuidade se sobrepõe ao retconning. “A reescrita aqui é uma adaptação do material narrativo para outros tempos, outros leitores e outros contextos transmídia, a fim de manter alguma moeda contemporânea no material, ao mesmo tempo que permite novas contribuições criativas de escritores e artistas” (MÉON, 2018, p. 203).

Dessa forma, a continuidade guarda imensas similaridades com a memória (autobiográfica, monomítica ou não), quando pode ser reescrita, reinventada, transformada, conforme os conhecimentos e as sensações sobre determinados acontecimentos se alteram. Assim, a continuidade: “é uma memória para manter e construir, mas também uma memória para se adaptar, a fim de acomodar novos leitores”. Principalmente quando os quadrinhos estão envolvidos em um processo consumo compulsório de narrativas seriadas, “as restrições da memória são constantemente avaliadas em termos de acessibilidade comercial” (MÉON, 2018, p. 204).

CONshehulk

Como pudemos ver se a continuidade está a serviço dos leitores, envolvendo eles mais profundamente em um universo ficcional, é do interesse das empresas de quadrinhos manter, de alguma forma, essa continuidade para também provocar um monomito no leitor. Uma vontade de autopreservação através das memórias do próprio leitor do seu passado de leituras, como dos próprios quadrinhos, invocando no consumidor a necessidade da leitura de um número cada vez maior de revistas para que se coloque de posse do próprio monomito como na Jornada do Herói de suas histórias em quadrinhos favoritas. 


Referências:

MÉON, Jean-Mathieu. Sons and grandsons of origins: narrative memory in Marvel superheroes continuity. In: AHMED,Maaheen. CRUCIFIX, Benoît. Comics memory: archives and styles. London, Palgrave, 2018. 

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