O Thor Gordo: Por um Thor Mais Humano e Menos Divino

O Thor Gordo se tornou um verbete da enciclopédia eletrônica “urban dictionary” e do site “know your meme”. Depois de o encerramento da quadrilogia dos Vingadores terem levado milhares de pessoas aos cinemas e se tornado a maior bilheteria da história, não é de se espantar que as pessoas tenham se fantasiado de Thor Gordo para irem em festas de fantasia. Afinal, o Thor Gordo está bem mais próximo dos corpos reais dos homens do que o corpo de um Chris Hemsworth (deus me livre, mas quem me dera!). Vamos falar um pouco sobre essa mudança radical no Thor que aconteceu antes do Thor Gordo e como essa pançona acabou modificando o personagem para melhor. Pelo menos nos cinemas. 

O Thor que todo mundo conhece hoje em dia é bem diferente daquele estipulado por Stan Lee e Jack Kirby nos anos 1960, quando pegava emprestado as lendas nórdicas e vikings para construir o universo dos seus asgardianos. O Thor daquela época havia sido castigado pelo seu pai, Odin, para “calçar as sandálias da humildade” e passar a viver na Terra, ou Midgard, como um humano. Encontrou no médico manco Donald Blake o seu alter-ego, que quando batia seu cajado-bengala no chão, se transforma no poderoso Thor e o cajado no martelo Mjolnir, forjado pelo metal Uru pelos anões de Nidavellir.

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O fato é que este Thor de Stan Lee e Jack Kirby era um deus nobre, ele falava empolado com o inglês arcaico da era elizabetana, emprestado das obras de William Shakespeare. E assim também falavam todos seus conterrâneos deuses, diferenciando, assim, de outra forma, Blake e o deus do trovão. Blake servia para mostrar a Thor como ele era falho, e como Thor e qualquer deus asgardiano poderiam ser. Mas enquanto a falha de Blake era física, a do deus do trovão era comportamental. Era o seu ímpeto pela aventura que o colocava em enrascadas, enquanto os problemas de Don Blake era de se declarar para a sua amada enfermeira Jane Foster. O mal exemplo de comportamento, nessas aventuras ficava mesmo para o príncipe das mentiras e trapaças, o meio-irmão, meio-gigante, Loki, que preparava artimanhas a fim de destruir Asgard, Odin e seu invejado irmão Thor. 

SEVthorNos cinemas e nos quadrinhos do começo do século XXI, até então, aprendemos a encarar e conhecer um Thor diferente do de Lee e Kirby. Esse Thor acaba se parecendo muito mais com a personalidade do Hércules criado por Roy Thomas e John Buscema no começo dos Vingadores do que do Thor original. Esse Thor têm o ímpeto pela aventura, mas também pela violência, pela matança, pela bebedeira, pelo machismo, pela conquista das moçoilas e pela camaradagem masculina. Vemos nesse novo Thor, uma escalada da virilidade, que vem sendo tão questionada nos dias de hoje. Isso, nos filmes, desde sua segunda película é motivo de piada, tornando Thor um alívio cômico. De longe se vê que ele é o menos popular da trindade da Marvel, formada também por Capitão América e Homem de Ferro. 

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As pessoas demoraram para se identificar com Thor, somente conseguiriam fazê-lo no terceiro filme do personagem, que assume de vez a galhofa. Tenho lá minhas desconfianças que a apresentação do personagem, como um alienígena capturado pela SHIELD foi errada e a supressão do alter-ego Donald Blake, ainda mais errada. Mesmo que nos quadrinhos lá pelas tantas tenha-se afirmado que Don Blake era apenas um construto da magia de Odin feita para encarcerar Thor na terra midgardiana. De qualquer forma, nos quadrinhos, mesmo sem Donald Blake, o deus do trovão foi contrabalançado no seu som e fúria com uma contraparte humana: Eric Masterson, Jake Olsen, e até Jane Foster, sofrendo de câncer, serviam como um contraponto para a energia sem controle do deus que controla (ou descontrola?) a eletricidade e as tempestades.

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Outro fator para destacar essa virilidade desenfreada de Thor nos quadrinhos, passando por cima da influência dos filmes, foi a incumbência de Jason Aaron para escrever as suas histórias. Além de um deus arrogante, desrespeitoso e ultra viril, Jason Aaron preferiu fazer um Thor sem alter-ego e colocando-o em aventuras cósmico-espaciais. Seu Thor é muito mais espacial que asgardiano, se metendo com devoradores de deuses, fênixes, futuros distópicos, seres cósmicos, do que propriamente com os assuntos asgardianos, quando esses aparecem, eles se repetem numa coalizão de reinos da árvore Yggdrasil. Assim, Thor se esquece da Terra. Em suas aventuras-solo por Aaron, poucas vezes ele atuou ao lado dos humanos, defendendo-os. Seus olhos estavam sempre voltados para a Cidade Doirada.

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Essa ultra virilidade é uma constante nos quadrinhos feitos por Aaron. Ele começou com Wolverine, que precisa provar sua hombridade o tempo todo, continuou com o Motoqueiro Fantasma. Este também carrega, como Wolverine, Thor e Conan, uma via dicotômica entre afirmar a macheza e dar pano para fantasias homoeróticas fetichistas. Uma maneira de evitar essa subversão de sentido é mostrar o lado mais humano desses personagens, mais sensível, o lado do alter-ego não divino, não pronto, inacabado, que ainda precisa trabalhar muito se quiser ser imortal, divino ou demoníaco. 

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O masculino hiperbólico dá a direção para o ser perfeito e acabado, positivo, enquanto uma pitada de feminilidade mostra que os seres ainda estão prenhes de algo, que carregam em si possibilidades, dúvidas, bifurcações nos seus caminhos. Assim, o alter-ego humano é o lado feminino dos super-heróis dualísticos. As suas fraquezas, seja de caráter ou físicas conferem a eles essa infinidade de histórias que não se acabam mais, e que acompanhamos com prazer seu crescimento e mudança. E nós adoramos uma mudança. Os ciclos da lua – e da menstruação -, a mudança, são aspectos femininos. Por isso, talvez, a Thor Jane Foster vendia mais que o Thor deus. Jane era inacabada, ela tinha dúvidas, sua vida estava em risco. 

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Um deus poderoso dificilmente tem sua vida arriscada pelos outros, ele mesmo se arrisca por si só, pelo calor da batalha, para provar sua completitude e positividade. Ou ainda mais, para provar sua integridade. Mas não uma integridade de caráter, mas muito mais externa, de corpo, de composição, músculos e de poder. Ele precisa exteriorizar o poder, demonstrar, porque se interiorizasse ele estaria fazendo um movimento feminino, profundo, cavernoso como a vulva, assim o Thor dos cinemas e de Jason Aaron é hipermasculinizado. 

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Nele faltam elementos de equilíbrio,e  por isso é ridicularizado, é uma comédia, porque ele só externaliza, só grita, só quer demonstrar o seu poder. Mas quando ele perde o que lhe torna inteiro, quando perde sua integridade, a sua potência masculina, sexual, positiva, seu propósito gerador, ele se esvazia. O Thor murcha como a sua pança e seu peito plenos de cerveja e hidromel. Ele vira o Thor Gordo, que se esconde dentro de uma casa – o lado feminino do ser: escuro, sombrio, misterioso, mas ainda assim acolhedor e carinhoso – em busca da parte feminina que tanto lhe faltava. Então, só encontrando o equilíbrio entre a potência masculina e porvir feminino é que ele consegue reunir as forças para mais uma vez enfrentar Thanos, como vimos nos filmes. 

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Ao findar a quadrilogia dos Vingadores, o Thor Gordo está feliz. Gordo e feliz, aceitando seu corpo, menos viril e mais falho. Ele também aceita que não pode tudo, que não é completo e precisa buscar algo. Nos quadrinhos, ainda precisamos de uma mudança drástica para o Thor. Uma abordagem recente boa foi o Thor Indigno, um Thor que não conseguia erguer seu martelo por causa de algo que disseram para ele. Neste Thor também vemos uma quebra com a virilidade e a hipermasculinidade. Impossível não estabelecer um paralelo com o fato de erguer o martelo e o fato de manter seu falo em riste. O Thor Indigno tem falhas em sua constituição. Ele não é pleno porque não tem o seu poder, a sua potência, que é representada pelo martelo e, ironicamente, naquele momento o martelo está de posse de uma mulher.

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Também é impossível não fazer um paralelo com os comportamentos machistas em frente à assunção do poder pelas mulheres, Janes Fosters que ergueram e continuam erguendo o martelo melhor que muitos Thors. Com a perda da virilidade desses homens, eles precisam apelar para outras formas de manterem completos pela virilidade: eles xingam, gritam, são violentos e até matam para “provarem que são dignos”. Mas no fundo, eles sabem que não conseguem erguer o martelo. Isso porque o martelo é – também – das mulheres. E somente tendo consciência de que todos têm os mesmos poderes e as mesmas possibilidades – ou seja, os mesmos direitos e deveres – é que se tornarão completos e poderão reerguer seus martelos sem se preocuparem excessivamente com sua dignidade – ou virilidade. Em algum lugar em Valhalla, o Thor Gordo está feliz, comendo uma javali, brindando com hidromel e, satisfeito, bate na sua pança flácida, que chacoalha. 

 

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4 comentários sobre “O Thor Gordo: Por um Thor Mais Humano e Menos Divino

  1. Eu evito falar do Thor gordo… porque algumas cenas dele me emocionam. É visivelmente um reflexo da depressão do personagem. No Ultimato ele até decapitou o Thanos, mas isso não lhe serviu de nada, não lhe trouxe paz, não saciou sua angústia por ter falhado com o universo.
    Depois ele encontra a própria mãe, que sabe que “o futuro não foi bom”. Nossa, cara! Mães de verdade sempre sabem.
    E quando ele recupera o Martelo (ou melhor, o rouba daquela continuidade temporal), se percebe a mensagem: “Você pode não estar bem. Você pode estar gordo ou depressivo, mas isso não impedir que VOCÊ SEJA DIGNO”.
    O Thor dos filmes passa por todas essas fases que você citou aí, Smee. Umas por mais tempo, outras por uma rápida passada… mas essa última… Marvel, por que faz isso comigo?
    Lágrimas e sorrisos aqui!
    😉

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  2. eu não leio Thor pra me identificar com o personagem, e sim por sua natureza sobre-humana desafios “impossíveis”. a única cagalhagem – e uma cagalhagem monstra – com o personagem é ele ver como igual um cara cuja crença fudeu com seus crentes e crenças. sim, tô falando do Capitão América ser protestante. isso poderia render grandes debates sobre crítica e intolerância religiosa mas a Marvel se faz de égua.

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