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Superamiguinhos: O Retorno da Liga Cômica

Em 1986, após a, dispensável de apresentações, Crise nas Infinitas Terras, a DC Comics publicou a primeira saga de seu universo recém-reformulado, Lendas, no formato de minissérie através de crossovers entre seus títulos regulares que foi responsável pela reascensão e reformulação da Liga da Justiça. Essa nova equipe foi o ponto de partida para o que viria a ser a memorável bem-humorada Liga da Justiça Internacional de J.M. DeMatteis e Keith Giffen cujos frutos de 16 anos depois será o objeto de análise deste texto.  

Inicialmente acompanhados pelo prestigioso trabalho do desenhista Kevin Maguire, os roteiristas DeMatteis e Giffen marcaram o período de 1987 até 1992 que seria lembrado como a “Era Bwahaha”. Essa época foi definida por seu teor descontraído e jocoso, contrário ao usual de muitos títulos oriundos da mesma década, e seu inusitado conjunto de personagens desdenhados. Obviamente uma fase tão marcante não passaria despercebida pelas tentativas de extensão do rendimento editorial, o que levou a LJI a retomar o título de Liga da Justiça América e ramificar-se em outras revistas, como a Liga da Justiça Europa, em 1989, e Justice League Quarterly, em 1990.

Em 2003, a equipe criativa responsável por originar todo esse sucesso voltava com os desarmoniosos personagens que evidenciaram essa fase para novas desventuras com “Já fomos a Liga da Justiça” e em 2005 com “Não acredito que não é a Liga da Justiça”, desta vez com o desastroso time de super-heróis tendo que assumir o nome de “Superamiguinhos”. 

Já fomos a Liga da Justiça 

O retorno de DeMatteis, Giffen e Maguire com sua consagrada e disfuncional equipe de heróis de classes secundárias seria nada mais além de uma tentativa de retomada nostálgica com a perda da caracterização que tornava o clássico um clássico? 

Com a perda do título de Liga da Justiça Internacional, a opção encontrada foi abraçar aquilo que destacava a equipe entre suas outras formações, o humor. A comicidade agora é constante e, consequentemente, desgastante. Utilizada como único artifício para movimentar e guiar a narrativa, transformando todo o elenco de personagens em alívios cômicos, acaba por abandonar seus ideais pragmáticos e situacionais que permitiam o tom de verossimilhança. A descaracterização do que poderiam ter sido os desenvolvimento e legado dos personagens envolvidos é a prova que a comédia é o total compromisso dessa nova premissa. 

O fato de Maguire, que apesar de permanecer digno de destaque e com excelente retrato de expressividade facial, encontrar-se inconsistente, por aparentar estar entrando em uma nova fase e abordagem para com seu trabalho, apenas auxilia a fugir das lembranças saudosas daquela que já foi uma das equipes mais aleatórias do Universo DC.  

Assumindo o posto estereotipado, estabelecido pelos leitores não receptivos da formação na época da famigerada “Liga Cômica”, como somente uma simples e esquecível piada. Apesar do primeiro volume da fase dos “Superamiguinhos” realizar uma pobre e infeliz introdução mergulhada num caráter humorístico previsível e desinteressante, seguida por um desenvolvimento decente, (devido especialmente ao relacionamento entre as personagens, que mesmo apesar de plástico e descaracterizante, consegue reaver pouco dos bons tempos da desorganizada equipe), ainda consegue realizar uma conclusão que, graças às participações especiais de antigos rostos relacionados à equipe e ao clímax, nada “super”, de nível quase catastrófico para a aventura e o relacionamento dos heróis ao ponto da narrativa utilizar de metalinguagem para rir de si mesma (assim como nos bons e velhos tempos), retoma aos ares das célebres aventuras do passado. 

“Já fomos a Liga da Justiça” não é capaz de saciar suficientemente o sentimento de saudades da Era Bwahaha, e em alguns casos faz apenas perpetuar sua infame imagem de ser somente uma piada sem graça. Entretanto, mesmo sem passar um tom de obrigatoriedade ou indispensabilidade para os fãs, certamente o início dos Superamiguinhos é uma leitura que vale a pena ser conferida e que demonstra um grande potencial a ser apresentado (ou neste caso de rebusca nostálgica, reapresentado) para seu segundo volume. 

Não acredito que não é a Liga da Justiça 

Mas teria a sequência do aguardado retorno da desastrosa superequipe, dos roteiristas Giffen e DeMatteis e desenhista Maguire, a capacidade de finalmente devolver o leitor ao clima das nostálgicas aventuras e, especialmente, desventuras da nostálgica Liga da Justiça Internacional? 

Ainda que, devido a praticamente ineficaz tentativa anterior de resgate do tom clássico, a resposta esperada possa ser uma negação. A verdade é que a continuação dos Superamiguinhos consegue sim levar sua narrativa às raízes que marcaram a formação original dessa equipe. Agora já com seus personagens reintroduzidos e sua dinâmica estabelecida, a trama permanece guiada pelo humor, porém desta vez sem perder sua caracterização relacionável.  

Com uma introdução breve e, por conseguinte dedutível, prolongado desenvolvimento. O roteiro produz um material de verossimilhança através de dispor as impossíveis figuras que protagonizam a estória numa problemática corriqueira ou as colocando numa situação fantasiosa impossível, geralmente em níveis hiperbólicos de absurdo até mesmo para histórias em quadrinhos, para si mesmas e, assim, deixando-as na mesma posição que o comum humano leitor encontra-se durante seu rotineiro, praticamente impotentes e regidos pelo o que vier. Proporcionando um humor de teor pragmático e proporcionando um caráter relacionável capaz de estabelecer-se semelhante à realidade pessoal e rotineiro do leitor e, ainda assim, manter distancia da realidade que rege seu mundo.  

Kevin Maguire comprova mais uma vez seu exímio domínio nas representações faciais e suas expressividades. Apesar de demonstrar maior desenvolvimento em sua nova abordagem artística, ainda é perceptível constantes irregularidades na arte final. 

A estória utiliza novamente de participações especiais como artifício de auxílio para estabelecer o tom de sua trama. Outros rostos antigos e já familiarizados entre os leitores e as personagens. Faces, para os heróis e talvez para alguns fãs, indesejáveis e inesperadas foram responsáveis e essenciais pela carga emocional da narrativa e seu desfecho progressivo para a relação dos vigilantes cômicos, tal peso emocional certamente é um deleite literário para qualquer um que acompanhou às antigas estórias dos não tão Super, mas ainda fortemente amiguinhos. 

Guiado por uma introdução não tão digna (Já fomos a Liga da Justiça), “Não acredito que não é a Liga da Justiça” trata-se de uma prazerosa leitura capaz de resgatar a sensação de nostalgia de um clássico, mesmo que não plenamente. Os bons e velhos tempos não retornaram e não retornarão, porém é uma tremenda duma excelente e saciável pedida à suposta necessidade de retomada pertencente ao sentimento de saudosismo. 

O fato de a Era Bwahaha ter fenecido não significa que você não pode (re)aproveitá-la, pois parte de suas estórias estão presentes na “Coleção DC Comics Graphic Novels” da Eaglemoss (edições 72 e 73 reúnem Justice League (1987) #1-7 e #8-12, além de contarem com a primeira aparição do Besouro Azul, Ted Kord, e a primeira edição de Senhor Milagre por Jack Kirby). Apesar de estar atrasada, a Panini planeja também republicar a Liga de DeMatteis e Giffen através da série “Lendas do Universo DC” ainda no ano de 2019. 

O previamente citado evento originário dessa formação da Liga, Lendas, também já foi republicado tanto pelas Graphic Novels da Eaglemoss (edição 92) quanto pela Panini nas Lendas do Universo DC (Darkseid). 

Entretanto, se você ficou interessado nos Superamiguinhos, lamento informar que tais edições só poderão ser encontradas ao garimpar por usados. 

4 comentários

  1. Eu já achei o contrário: “Já Fomos…” lembra mais o humor das primeiras edições da Liga Cômica (mesmo com a “violência” na transformação de Mary Marvel), dos confrontos em Bialya e com a Abelha-Rainha, por exemplo.
    Mas “Não Acredito…” é a história repetida como farsa de mau gosto, principalmente o conflito entre Poderosa e Guy Gardner e o drama do resgate de Gelo. A mini comprovou o quanto Giffen/DeMatteis/Maguire ficaram “datados” e levou so triste fim de seus personagens na “trilogias das Crises” (Identidade, Infinita e Final).

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    • Ed M. de Oliveira diz

      Opa. Sempre acho bom conhecer outras perspectivas.
      Apesar de não partilhar da mesma visão, compreendo, especialmente quanto a dupla estar datada, só levar em conta o uso do Gardner como arquétipo para dar dinâmica para trama. Porém ainda vejo esse retorno como um trampolim ou um treino para outra fase de desenvolvimento do Maguire, quando abordado isoladamente.
      Valeu pelo comentário!

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