Verde Como um Monstro (do Pântano?): O Imortal Hulk, de Al Ewing e Joe Bennett

A revista O Imortal Hulk tem angariado inúmeros elogios e boas críticas, inclusive dos organizadores do Oscar dos quadrinhos, o prêmio Eisner, para o qual foi indicado como melhor série. Ela é escrita por Al Ewing, um inglês que tem um extensa passagem pela revista 2000 a.D, e outros títulos da Rebellion, e é desenhada em grande parte pelo veterano brasileiro Joe Bennett. Desde o começo, a série O Imortal Hulk foi celebrada pela mídia como uma nova forma de aproximar as histórias de super-heróis com o gênero terror. Antes disso, outro personagem foi alçado à popularidade graças a um approach próximo das histórias de terror: O Monstro do Pântano, de Alan Moore. Vamos falar um pouco das semelhanças entre essas histórias neste post. 

Para começar, vamos para as semelhanças óbvias: os dois são verdes: o verde simboliza a natureza, o instinto, mas também pode simbolizar a raiva e a inveja. Mais que isso, o sinal verde quer dizer liberdade, que você tem a sanção de poder fazer o bem quiser. Essa liberdade com consequências, poder com consequências, o sinal verde de forças irascíveis e irrefreáveis da natureza já foram bastante exploradas tanto nas histórias do O Incrível Hulk quanto nas aventuras do Monstro do Pântano. Ambos são criatura superpoderosas, pura fúria da natureza e dos elementos mais subconscientes daquilo que consideramos como humano. 

Outro comparativo que pode ser feito é sobre o caráter dual destes dois personagens, sempre buscando um equilíbrio entre seu ego e seu id. No O Incrível Hulk, obviamente, o monstro é o id, o inconsciente, os instinto que quer ser deixado em paz caso contrário irá destruir tudo e todos no mundo à sua frente. Bruce Banner é o ego, suscetível ao seu id, mas também ao seu superego, sobre o qual falaremos depois e, por isso, acaba sendo anulado como personalidade e não consegue encontrar a força para se impor sobre os demais aspectos do seu self. 

Já no Monstro do Pântano temos praticamente a dissolução do ego, já que Alec Holland descobre não ser mais Alec, mas uma planta senciente, puro instinto, pura natureza, puro id, pura vontade do planeta que está suscetível às mudanças do clima, dos ventos, das marés, do próprio ser humano. O Monstro do Pântano é sinônimo de terror porque ele encarna o “tudo pode acontecer”, o sujeito sem controle, o ser psicopata e sociopata, em certa medida que vai fazer tudo para atingir seus objetivos. Por outro lado, ele é a sabedoria dos instintos, de obedecer aquilo que seu corpo diz para você e obedecer também aos sinais que o ambiente lhe fornece. Portanto, o Monstro do Pântano em sua dimensão do ego não é tão irascível e irrefreável quanto o Hulk, mas ainda assim ele representa as possibilidades de horror para o ser humano, como já foi explorado em muitas de suas histórias. 

Em sua nova condição, o Imortal Hulk, bem, não pode morrer, ou seja, ele se reconstitui a partir do que resta do seu corpo. Da mesma forma funciona o Monstro do Pântano que surge e ressurge e se forma onde existir vida vegetal no planeta e até fora do globo terrestre. Essa condição de extravasar as barreiras da vida e da morte, uma natureza sobrenatural de existência coloca os dois personagens dentro das convenções do gênero terror. Diferente dos super-heróis, aquilo que supera as adversidades da morte não continua vivo. Aquilo que supera a morte não é um ser bonito, forte, saudável e audacioso: é algo doente, feio, putrefato, vil e sem um objetivo preciso, a não ser obedecer a comando no fundo de seu ser que o guiam para uma determinada missão instintiva. 

Outra semelhança entre os personagens do Imortal Hulk e do Monstro do Pântano é que sua grande nêmesis tem ligação com sua imortalidade, ao mesmo tempo que é fantástica e  é sobrenatural. No caso do Imortal Hulk, essa grande nêmesis é o pai de Bruce Banner, David. Ele foi responsável por diversos abusos contra Bruce durante sua infância e além disso acabou matando a mãe do pequeno Bruce. O pai de Bruce Banner serve aqui, então como o superego dominante na personalidade de Bruce Banner e que, por ter suprimido tanto o ego de Bruce, acabou criando o monstro que é puro id, o Incrível Hulk.  

Ambos nêmesis e superegos do Imortal Hulk e do Monstro do Pântano possuem, de certa forma,  uma perversidade que está escorrendo escondida no seio familiar. Esse fator torna essas relações ainda mais desviantes e tenebrosas. O grande inimigo do Monstro do Pântano é Anton Arcane, que é tio de Abby Arcane, sua “esposa”, que também tinha uma relação de abuso e violência com ela. Anton Arcane é um feiticeiro que quer controlar o mundo e, nas histórias do Monstro do Pântano ele é o superego, a força do controle qua vai contra os instintos da natureza. Ele é a mão do homem que a tudo corrompe se colocando contra o ímpeto instintivo daquilo que é de ordem natural. O controle do ser humano sobre a natureza atingiu seu ápice no século XX, o que levou a Alan Moore o incensado renovador das histórias do Monstro do Pântano a fazer a seguinte declaração na abertura do primeiro encadernado de A Saga do Monstro do Pântano: 

“Num século onde os paradoxos formam um vulcão prestes a entrar em erupção, uma coisa extremamente embaraçosa deve ser a ascensão meteórica do horror como gênero de literatura, cinema e até mesmo da música, quando diariamente nos tornamos um pouco mais conscientes e alertas quanto aos terrores da vida real ao redor de nós […]. Goste ou não, o terror é parte da nossa vida, da nossa mídia, da nossa cultura. Será que nós mergulhamos num terror fictício como forma de entorpecer as nossas emoções sua contraparte na vida real? Isso é algum tipo de inoculação? Uma pequena dose de algo assustador com o qual nós procuramos nos precaver de um ataque mais sério na próxima vida? Poderia isso representar uma útil, se não vital, ferramenta para investigarmos e compreendermos as origens do horror, sem nos expormos aos danos físicos e mentais? Qualquer que seja a resposta, o fato ainda permanece de uma forma ou outra, o horror é o maior totem do século XX”. 

Outro fator que aproxima as peculiaridades das histórias de O Imortal Hulk e do Monstro do Pântano é a forma com que as narrativas e histórias são contadas. As histórias de inícios das fases do Imortal Hulk e Monstro do Pântano, respectivamente, “Os Dois lados do Espelho” e “Lição de Anatomia”, possuem alguns paralelos que renderia um postagem somente para isso para identificar todos. Já a forma como os encadernados e a narrativa fluente são concebidos também se assemelham.Nessas estruturas, os compilados apresentam histórias pontuais, que funcionam sozinhas, mas que em conjunto formam um grande arco de desenvolvimento e descoberta do novo status quo do personagem

O cotidiano, o simples, bucólico e o comum são contrapontos para os elementos assombrosos das histórias, potencializando-as. Essa percepção nos aproxima das notas de Alan Moore sobre o horror como totem do século XX e, mesmo com o Imortal Hulk, ele acaba se estendendo também para o século XXI, quando ainda precisamos buscar explicações e nos proteger de ameaças que não sabemos de onde vão surgir ou ainda por que razão nós as tememos. Ao que parece o horror, tanto o cotidiano como o ficcional vai deixar as pessoas estarrecidas por muitos anos à fio ainda.  

3 comentários sobre “Verde Como um Monstro (do Pântano?): O Imortal Hulk, de Al Ewing e Joe Bennett

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