O Machismo e as Histórias da Batwoman dos anos 1950

Nos dias de hoje muito se fala sobre Kate Kane, a Batwoman como um epítome da lebianidade nos quadrinhos. Mas antes dela, havia nas histórias em quadrinhos Kathy Kane, a Batwoman dos anos 1950, que foi criada como uma compensação para o sentimento de homossexualidade latente entre Batman e Robin, destacado pelo psiquiatra Fredric Wertham em seu livro Sedução dos Inocentes. A personagem foi abordada nas histórias de Grant Morrison num retcon, mas havia sucumbido muitos anos antes no final da década de 1970. Batwoman foi um fruto de seus tempos, usando uma cartilha de atuações para lá de machista em todos os caminhos que suas histórias tomavam. Neste post vamos falar sobre as consequências do Código dos Quadrinhos nas histórias de Batman e Robin a partir da inserção da Batwoman, Kathy Kane.

Os anos 1950 foram marcados pela caça às bruxas sobre o comunismo e a censura exacerbada sobre as produções culturais em solo americano. Essa década estadunidense ficou no imaginário social como uma época em que as famílias eram perfeitas como mostrados em comerciais de televisão. Isso também porque a televisão estava em alta naquele país e, além da criação do Código de Quadrinhos, ela despontava como uma ameaça para a indústria das histórias em quadrinhos, porque arrebanhava os antigos consumidores de quadrinhos para um novo meio de comunicação. A televisão era um veículo de comunicação mais barato e, além disso, era menos dispersivo que as histórias em quadrinhos, pois forçava seu espectador a acompanhar sua transmissão com o risco de perder parte do conteúdo se desviasse a atenção. 

Mas os quadrinhos da dupla dinâmica tinha uma ameaça maior que a censura, que o comunismo ou a televisão rondando suas páginas: era a possibilidade de seus consumidores acharem que Batman e Robin incentivariam comportamentos homossexuais. Isso, porque, segundo o psiquiatra Fredric Wertham, que associava a leitura dos quadrinhos com a delinquência juvenil: 

Somente alguém ignorante aos fundamentos da psiquiatria e da psicopatologia do sexo podem deixar escapar a sutil atmora de homoerotismo que atravessa as aventuras do maduro “Batman” e seu jovem amigo “Robin”… Eles são Bruce Wayne e “Dick” Gray-son [sic]. Bruce é descrito como um “socialite” e o relacionamento oficial entre eles seria que Dick seria o protegido de Bruce. Eles vivem em uma suntuosa mansão, com belas flores em largos vasos e possuem um mordomo, Alfred. Algumas vezes Batman é retratado vestindo robes. É como um sonho dourado de dois homossexuais vivendo juntos… Robin é um belo efebo, comumente mostrado em seu uniforme de pernas nuas. Ele é fervilhante de energia e é devotado a nada mais na terra ou fora dela, do que ao próprio Bruce Wayne. Geralmente ele posa de pernas abertas com a região genital discretamente evidente (WERTHAM, 1957).

Nessa época os Estados Unidos também vivenciavam aquilo que ficou conhecido como o Terror Lavanda, ou o Lavender Scare. Isso porque o subsecretário de estado norte americano John Puerifory, assegurava que existia um “movimento clandestino homossexual” e passava a demitir pessoas homossexuais envolvidas com o governo. 

Por isso, era mais que urgente que fosse inserido um constante elemento feminino em suas histórias. A Batwoman foi, então, primeira mulher a conviver de maneira regular com Bruce Wayne, Dick Grayson e seu mordomo Alfred. Apesar do que algumas lendas dos quadrinhos possam afirmar, esse papel não foi assumido pela tia de Dick Grayson, Harriet Cooper. Outros, afirmam que ela foi criada como elemento para dissipar as suspeitas do homoafetividade entre Batman e Robin no seriado da década de 1960, mas Harriet Cooper havia aparecido nos quadrinhos após a morte do mordomo Alfred, em Detective Comics# 328, de  junho de 1964 e foi criada por Bill Finger e Sheldon Moldoff. 

Já Katherine Kane, a Batwoman foi criada em julho de 1956 na edição 233 de Detective Comics. Seus criadores foram Bob Kane, o mesmo criador do Batman e o editor Sheldon Moldoff. Para a crítica Laura Fernandez, a Batwoman surgiu para cumprir um papel ausente na feliz Bat Família dos anos 1950: o de mãe. Assim, nada mais adequado que a Batwoman que surgisse teria que lutar para conquistar esse lugar entre aquela família já formada. O background de Kathy Kane é o de que ela é uma ex-motociclista do Globo da Morte do circo que repentinamente se percebe herdeira de uma grande fortuna. Como sempre nutriu grande admiração pelo Batman, ela decide ir a Gotham City para conquistar seu coração. “Kathy é uma espécie de groupie, mas uma groupie ativa, disposta a se tornar a mulher-morcego se essa for a única maneira (e certamente, parece) de que o Batman preste atenção nela” (FERNANDEZ, 2013, p. 108).

A Batwoman não se veste apenas de preto, mas também de amarelo e vermelho. Como foi uma motociclista do Globo da Morte, ela não dirige um Batmóvel, e sim, uma Batmoto. Se o Batman tinha seu cinto de utilidades, tal qual um Gato Félix, a Batwoman tirava diversos apetrechos de sua bolsa, como um batom que envenena quem ela beijava e uma variação do perfume Chanel nº 5, cheio com gás lacrimogêneo. Mas nada disso parece convencer ao Batman que dispara contra Kathy: “Cuide do jantar, garota, que eu me encarrego dos vilões”. E quando Robin descobre que a Batwoman salvou o Batman, ele reclama: “Uma garota salvando você? Isso é ridículo!”. 

Nas histórias da dupla dinâmica em que a Batwoman aparecia, o Batman tinha uma relação de dono sobre Kathy Kane, “tratando ela mais como um incômodo do que como um parceiro valioso”. Quem lesse uma história com a Batwoman, iria pensaria que nos anos 1950, “as mulheres eram criaturas completamente ineptas.O flagrantemente sexista Batman intimidava constantemente Batwoman insistindo que as mulheres não eram preparadas para combater o crime. O Batman mostrava mais fé em Ace, o bat-cachorro, do que na Batwoman”. Mas ,Batwoman parecia não se importar com a difamação e insultos de Batman. “Como uma esposa abusada, a Batwoman recebe agressões verbais e difamação, e anda continua retornando por mais” (MADRID, 2009, p. 63).

Se os anos 1950 não eram assim, pelo menos nos escritórios da DC Comics essa realidade prevalecia, assombrada pelo fantasma da caça às bruxas e das intervenções da censura do Código de Ética dos quadrinhos. Uma prova é que o Código de Política Editorial da DC Comics apresentava as mulheres da seguinte maneira: “a inclusão de fêmeas em histórias é especificamente desencorajada. Mulheres, quando usadas na estrutura de um argumento, devem ter uma importância secundária…”. 

“Os escritores de quadrinhos geralmente sugerem que as mulheres não têm a mesma dedicação à causa nobre, porque sua necessidade por amor é geralmente maior ou igual em importância que sua busca pela justiça. Super-heroínas querem lutar contra o crime, mas também querem criar raízes. Se o Senhor Certinho levantasse essa questão, uma heroína poderia simplesmente tirar sua máscara e sua capa e estabelecer uma vida como esposa e mãe. A conclusão é que não importava o quanto poderosa fosse uma mulher, ela precisaria do amor de um homem para completá-la. […] São dadas parceiras femininas para heróis masculinos por duas razões: elas providenciam apelo sexual para os leitores masculinos e tramas românticas para atrair as garotas. Mas esse ângulo romântico também provava que esses super-heróis eram totalmente americanos, homens heterossexuais,que por acaso andavam por aí em colantes coloridos (MADRID, 2009, p. 57)

Mas, aparentemente os escritores e editores do Batman não estavam satisfeitos com a adição apenas da Batwoman para fazer frente às críticas de homossexualidade contra (ou a favor) de Batman e Robin. Alguns anos depois de Kathy Kane surgir nos quadrinhos, seria Betty Kane, a sobrinha de Kathy que, inteligentemente descobre que sua tia era a Batwoman. Apesar que a identidade de Kathy como Batwoman não parecia tão secreta assim, já que tanto o Batman, quanto o Robin e até mesmo o Batmirim (que atuou por um tempo como uma espécie de marketeiro da heroína) já haviam descoberto seu segredo antes. Por outro lado, a Batwoman se negava a revelar a identidade do Batman, mesmo quando tinha oportunidade para tal. Ela queria se mostrar merecedora disso, ou seja, só saberia quem Batman era se ele viesse voluntariamente a se revelar a ela, como uma espécie de lenda de Eros e Psique. Betty Kane, então, acabou fazendo chantagem com a tia para também combater o crime como a Bat-Girl. Ela, então, acabou servindo como interesse romântico – à revelia – do Robin. 

Enquanto Bat-Girl era uma adição fofa à Família Batman, provavelmente adicionada pela mesma razão que a Batwoman: para dar um interesse amoroso a Robin e reprimir esses rumores homossexuais, sua presença tirou parte da singularidade da Batwoman. Era uma questão de uma mulheres-morcego demais e, junto com Bat-Mirim e Bat-Cão, dava a impressão de que qualquer um poderia ser algo-morcego e combater criminosos em Gotham City (GRANDINETTI, 2007).

Aos poucos, a Batwoman foi desvanecendo de sua presença nas histórias de Batman, o mesmo acontecia com os demais integrantes da Bat Família, conforme as vendas de Detective Comics diminuíram e corria-se o risco de haver apenas um título do Homem-Morcego. O editor Julius Schwartz resolveu tomar medidas drásticas a respeito dos bat-títulos e reduzir a família do herói, incluindo o Robin, que foi mandado para a faculdade. O Batman, em compensação, ganhou um círculo amarelo no seu peito, embaixo de seu símbolo. Até que em 1973, Denny O’Neil e Neal Adams resolveram matar Kathy Kane, que sucumbiu à Liga das Sombras de Ra’s Al Ghul: 

Havia outro motivo por trás de matar Kathy Kane além de contar uma história emocionante? Denny O’Neil, escritor de “O Voto de Vingança”, declarou em uma entrevista: “nós já tínhamos Batgirl [Barbara Gordon], não precisávamos de Batwoman”. A verdade é que as vendas da Detective Comics estavam ficando tão baixas que se falava em cancelamento. Para aumentar as vendas da Detective Comics, O’Neil e os editores da DC Comics sentiram que a morte de um personagem amado aumentaria o interesse do leitor. Depois que Kathy foi morta, sua morte não foi mencionada por Batgirl, que se tornara amiga íntima dela, nem por Betty Kane, a Bat-Girl original, que havia sido revivida na revista em quadrinhos Teen Titans, logo após o retorno da Batwoman. Enquanto os leitores elogiaram a história, muitos acharam que Kathy deveria ter sobrevivido. Como um leitor resumiu: “Embora pouco usado, o personagem de Batwoman é bom demais para perder” (GRANDINETTI, 2007).

Ironicamente, meio século depois da criação da primeira Batwoman, uma nova personagem era recriada na minissérie 52, por Greg Rucka. Mais ironicamente, essa Batwoman, agora Kate Kane, também uma socialite rica, mas sem os apetrechos feminilizados, com um nome mais “adulto”, e egressa do exército, teria outro tipo de preferência sexual. A Batwoman do século XXI, é lésbica. 


Bibliografia:

FERNANDEZ, Laura. Breve historia (y sentido) de las chicas murciélago. In: CUCURELLA, Enric. FERNANDEZ, Laura. PAREJA, Ana S.. Batman desde la periferia: un libro para fanáticos o neófitos. Barcelona: Alpha Decay, 2013.

GRANDINETTI, Fred. Remembering Kathy Kane: The First Batwoman. In: CBR: Comic Book Resources. Publicado em 10 de julho de 2007. Disponível em: https://web.archive.org/web/20070710222202/http://www.newsarama.com/dcnew/Batwoman/BatwomanHistory.htm Acessado em 12 de setembro de 2019. 

MADRID, Mike. Supergirls: fashion, feminism, fantasy, and the history of comic book heroines. San Francisco: Exterminating Angel Press, 2009. 

WERTHAM, Fredric. Seduction of the innocent: the influence of comic books in today youth. Nova York: Rinehart & Company, 1954.

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