O Universo de Sandman: Lúcifer e O Sonhar

Sandman está de volta! Ou será que não está? Isso porque nessa nova levada dos títulos inspirados na obra de Neil Gaiman tudo começa com a partida de Daniel, o novo mestre do Sonhar. Essa ausência começa a provocar modificações por tudo, inclusivo nos demais títulos relacionados com esse universo como Lúcifer, Livros da Magia e A Casa dos Sussurros, todos publicados posteriormente a este título. É no especial Sandman Universe que reencontramos esses personagens. Alguns deixados para trás há muito tempo, outros largados mais recentemente e outros ainda, novas caras para uma nova geração de leitores. Neste post vamos falar um pouco mais sobre O Sonhar e sobre Lúcifer, os dois primeiros títulos de O Universo de Sandman a chegarem no Brasil e como a realidade onírica tem a ver com a mais pura realidade. 

Em primeiro lugar, uma coisa a se ter em mente quando você for buscar por essa série ou esse encadernado, você precisa saber que ela não é uma continuação de Sandman. Ela é uma continuação da série O Sonhar, um título que nós, brasileiros, não tivemos a oportunidade de acesso a muitas edições, devidos às idas e vindas da Vertigo em editoras e mais editoras brasileiras nos anos 90 e 2000. O título de The Dreaming começou em 1996 e teve 80 edições. Mas aqui no Brasil foram trazidos apenas 12 edições deste título distribuídos em minisséries e especiais publicados pela Tudo em Quadrinhos e pela Metal Pesado entre os anos de 1998 e 1999. Em 2012, a Panini Comics trouxe Sandman: Apresenta – Contos Fabulosos, uma coletânea de contribuições de Bill Willingham para a série, um dos poucos arquivos digitais disponíveis do material.

Com isso explicado para você, não se pode exigir que a nova série por Simon Supurrier, a brasileira Bilquis Evely e o colorista Mat Lopes esteja à altura de Sandman, mas de O Sonhar. E isso, ela o faz com maravilhosa desenvoltura, com personagens extremamente cativantes, com um texto rico de metáforas ao estilo Gaiman e o desenho caprichadíssimo da virtuose brasileira Bilquis Evely. Mais que isso, parece que Simon Spurrier nas seis edições de O Sonhar que “herdou” de Neil Gaiman, parece desenvolver mais aquele lugar, seus contextos e seus habitantes do que o próprio pai da série original, que deixava esse reino tangenciar apenas as histórias de Sandman. 

Fora isso, essa história é uma forte metáfora dos nossos tempos, principalmente da realidade brasileira, pois encontramos um juiz nefasto que a tudo quer mandar, julgar e culpabilizar no lugar de quem deveria estar deixando O Sonhar e a realidade nos eixos. Quem deve ser essa pessoa que vai instaurar a ordem? Nem a própria revista responde. Algumas citações deixam claro que não só nós brasileiros, como também os americanos e ingleses, já que o escritor Simon Spurrier é inglês vivemos tempos sombrios. Observe: 

Sandman no momento de criação do Juiz Cadafalso:

“Para um humano decidir se sua versão da verdade vale mais que a vida de outro, não há esforço algum. Saber disso, conviver com isso, conviver com outros, é o terror mais puro que conhecem. E, ainda assim, mal o sentem. Meu intento é que você os faça lembrar”.

Sobre uma revolta de pesadelos:

“Naturalmente, o Juiz prevê a hesitação deles. Afinal, ele observa, ele ajuiza. Ele reconhece instantaneamente que esta leva juvenil de pesadelos assume formas além de sua compreensão. Decorre daí que, a eles, ele deve ser uma relíquia, uma anacronismo, impróprio para se temer. Isto pode ser mudado”.

Sobre como o Juiz vê a morte:

“O Juiz entende de intenção, e sabe que a morte em si não é meio disciplinar. Que interesse teria o tribunal em cadáveres e putrefação? Na verdade, o propósito da punição capital não é de modo algum o de punir. O propósito é que ela seja vista”. 

Caim sobre a situação do Sonhar:

“Transformaram esse reino em uma fortaleza! Soltaram um bando de pesadelos antiquados para vestir botas e agora exploram sangue do meu sangue para ajudar!”

Lido? Bom, enquanto você relê e pensa essas frases a respeito da nossa atual realidade, vamos falar um pouco sobre a série do Lúcifer.

Se você está esperando que esse volume de Lúcifer seja, de alguma forma, parecido com a série de televisão ou com as séries pregressas do Estrela da Manhã nos quadrinhos, pode se decepcionar bastante. Esta série é muito peculiar, muito própria mesmo, mas isso não quer dizer que não mergulhe na mitologia de Lúcifer ou ainda na tradição do Sandman de Neil Gaiman. Do primeiro, ela traz alguns personagens conhecidos como Caliban, Mazikeen, e introduz novos. Da segunda, vem a tradição de ser uma história sobre histórias, que em cada edição foca em uma história dentro da história dando destaque a algum personagem em especial, sempre variando aquele que será apresentado. 

Ela também tem um elemento muito próprio dela, que é a atmosfera de terror, do “tudo pode acontecer então precisamos estar ao máximo protegidos das intempéries do desconhecido”. É um quadrinho estranho a princípio, que não vai agradar a todo mundo mesmo por tentar juntar dentro de si todos esses elementos que, para alguns, poderão soar como conflitantes. A arte dos Fiumara também não colabora muito: com traços grossos e rabiscados, elas lembram muito o começo da Vertigo dos anos 1990 quando os desenhos da maioria dos seus títulos “eram bonitos sendo feios” para implicar ainda mais na sensação de desespero e desamparo que aquelas histórias – em sua maioria de terror – queria nos passar.

O interessante e, talvez o mais interessante dessa série de Lúcifer é que ele, de certa forma trabalha com o elemento masculino em conflito com o feminino. Mas quando eu falo de conflito não quero dizer que essas forças estão se confrontando, mas que estão dialogando que, de uma maneira bem perversa, uma depende da outra. Isso fica claro na relação de Lúcifer com sua ex-mulher Sycorax, de quem carrega e precisa cuidar dos ossos e despojos mortais enquanto ela vela por ele. Também está presente esse conflito, essa incompletude naqueles atos que se estabelecem entre Lúcifer e as três-em-um, as mães das bruxas, que estão à procura de sua terceira e somente Lúcifer pode torná-las completas.

O mais coincidente foi que no mesmo mês a Panini Comics lançou Mulher-Maravilha e Liga da Justiça Dark, um encadernado em uma história que esses personagens devem enfrentar a mãe de todas as bruxas, a deusa Hécate, e como esta versão das três-em-um acabou por optar destruir o mundo. Se lermos um encadernado depois do outro, como eu fiz, as peças de certa forma se completam. Não no nível narrativo, mas no nível mitológico e percebemos como esses mitos de feminilidade muitas vezes serviram na história da humanidade para simbolizar ou um poder imenso sem controle ou ainda associação com o diabo. Foram anos de doutrinação para demonizar as mulheres como seres inferiores, não é de se estranhar que alguns homens as tratem assim e o pior, que algumas mulheres aceitem ser submissas a eles. 

Falamos aqui sobre as duas primeiras séries de O Universo de Sandman, as primeiras a aportarem no Brasil, O Sonhar e Lúcifer. Quem sabem quando as outras duas, Livros da Magia e A Casa Dos Sussurros chegarem por aqui também não falemos um pouco delas também? Abraços submersos em travesseiros bem fofinhos.

Um comentário sobre “O Universo de Sandman: Lúcifer e O Sonhar

Deixe um comentário, caro mergulhador!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.