Discutindo as Críticas de Martin Scorsese ao Marvel Studios

Quando a estreia de um filme do universo dos super-heróis se aproxima, ela sempre vem recheada de polêmica. A grande parte das declarações são que ou o filme vai dar errado ou ainda, que não pode nem ser considerado um filme. Foi o caso da declaração do renomado diretor Martin Scorsese durante o período de estréia do filme Coringa (2019), dizendo que os filmes da Marvel se assemelham mais a parques de diversões do que a filmes, e que não podem ser considerados assim. Já a atriz da série Friends, Jennifer Aniston, declarou que praticamente não existem outros filmes em Hollywood além dos filmes da Marvel. Se levarmos o sofisma dessas duas declarações, o cinema, a partir dos filmes de super-heróis deixou de existir. Sabemos que essas declarações têm um fundo de verdade, mas será que Scorsese precisa atacar os filmes de super-heróis? Venha discutir esse assunto conosco! 

Vamos observar algumas declarações do diretor Martin Scorsese, diretor de famosos filmes como Taxi Driver e Os Bons Companheiros, sobre os filmes do Universo Cinemático da Marvel (MCU). A primeira delas foi dada à revista Empire Magazine, em que afirmava que tentou se envolver com os filmes do MCU, mas não conseguira:

Eu não assisto. Eu tentei, sabe? Mas isso não é cinema. Sinceramente, o mais próximo que eu posso pensar que eles chegam, por mais bem feitos que sejam, com atores fazendo o melhor que podem nessas circunstâncias, é de um parque de diversões. Não é o cinema de seres humanos tentando passar experiências emocionais, psicológicas, para outro ser humano. (SCORSESE in ALVES, 2019)

Martin Scorsese deve compreender que o cinema é um sistema de produção industrial e que não pode escapar de certas lógicas de produção e procura, bem como de consumo. Na lógica capitalista, os produtos que são mais consumidos e, portanto, mais capitalizados, são aqueles que atingem maior sucesso em suas performance como objetos da cultura. Ele também deve compreender que, diferente da maioria dos filmes, os filmes de super-heróis já tiveram o seu período de experimentação que acontece nos quadrinhos. É lá que se encontra a vanguarda desse tipo de experiência artística, a não ser, é claro, que esses filmes fossem materiais de criações inéditas, como por exemplo o filme Poder Sem Limites (2010), de Josh Trank. Assim, a experiências que Scorsese afirma que faltam no cinema estão presentes nos quadrinho e, a nós, parece importante que para ter uma experiência completa dessas emoções é preciso investigar e consumir o suporte midiático original, os quadrinhos, pois é lá que se encontra o teor “artístico” das obras que Scorsese tece sua crítica. Julgamento esse, que o cineasta voltou a fazer durante o London Film Festival, dias depois, da seguinte forma:

Como eu disse antes, isso não é cinema, é algo diferente. Se você gosta ou não é outra questão, e nós não deveríamos ser invadidos por isso [os filmes da Marvel]. Isso é bom e está tudo bem para quem gosta desse tipo de filme; e, a propósito, sabendo o que acontece com eles agora, admiro o que eles fazem. Não é o meu tipo de entretenimento, simplesmente não é. Está criando outro tipo de público, que pensa que cinema é isso; e por isso é uma grande questão. Precisamos que as salas de cinema se imponham para permitir a exibição de filmes narrativos (SCORSESE in ALVES, 2019).

Em primeiro lugar, Scorsese está excluindo os filmes do Marvel Studios de uma categoria que ele criou que se chama “filmes narrativos”. Contudo, não existem filmes mais narrativos que os do MCU, já que eles criam uma rede de narrativas entre diversas películas, de uma forma diferente da linearidade de sequências que dominavam os cinemas antes do aparecimento do fenômeno das narrativas interligadas da Marvel. Que a Marvel está criando um novo tipo de público para os cinemas isso é inegável. Mas a mudança de paradigma acompanha toda forma de arte, principalmente quando as antigas formas dessa arte se apresentar começam a definhar. O próprio Scorsese fez parte de uma revolução nos cinemas que salvou Hollywood de uma crise criativa. Junto com ele vieram cineastas como Francis Ford Coppola, George Lucas e Steven Spielberg, que foram demasiadamente criticados pelas gerações que os precederam, inclusive com críticas de que o que faziam “não era cinema”.  Ele chegou a declarar: “Nós éramos só uns caras que queriam fazer filmes, e sabíamos que a qualquer momento podíamos ser destruídos pelo pessoal dos estúdios” (SCORSESE in BISKIND, 2009, p. 15).

Já a crítica de arte Susan Sontag analisou essa geração do cinema como “um momento muito específico nos cem anos da história do cinema, um momento em que ir ao cinema, pensar sobre cinema, falar sobre cinema tornou-se uma verdadeira paixão entre estudantes universitários e outros jovens. Você se apaixonava não pelos atores, mas pelo próprio cinema” (SONTAG in BISKIND, 2009, p. 16). O autor de Como a geração sexo, drogas e rock’n’roll salvou Hollywood, Peter Biskind (2009, p. 16) argumentou que “O cinema havia se tornado, realmente, uma religião secular”.

Hoje encontramos essa espécie de religião secular modificada, como vimos em diversos argumentos anteriores que comparam o culto do super-herói a uma religião. Não é mais a mídia aqui que é venerada, mas o objeto através do qual essa mídia se faz presente, que é o super-herói. É o imaginário social e a memória coletiva acerca do super-herói que o torna um objeto de culto, um objeto de fanatismo, um objeto de fã. Este último conceito é definido por Zoe Fraade-Blanar e Aaron M. Glazer como “o que hoje chamamos de centros de emoção de atividade, pedaços de cultura que inspiram tanto a lealdade e, mais importante, à atividade” (2018, p. 26 e 27). Estamos presenciando uma mudança de paradigma da forma como se consome cinema da mesma forma que Scorsese e sua geração provocaram durante os anos 1970. O que está acontecendo, ironicamente, é um retorno ao sistema de estúdios e corporações que a geração de Scorsese ajudou a destruir. Perceba como era o contexto anterior à “geração sexo, drogas e rock’n’roll”: 

O antes poderoso sistema de estúdios, que já havia se tornado um barco furado, estava adernando rapidamente, e os conglomerados corporativos rondavam sob as águas revoltas, procurando o jantar. Enquanto os observadores de Hollywood viam com tristeza estúdio após estúdio se transformar em aperitivo para grandes companhias cujas principais atividades eram seguros, minas de zinco ou funerárias, havia um raio de luz no horizonte. A mesma crise que deixara os estúdios aos pedaços havia também aberto o caminho para sangue novo entre os executivos. (BISKIND, 2009, p. 19 e 20). 

Essa crise dos anos 1970 se agravou nos anos 2000, isso por causa da mudança de consumo da mídia cinema, como por exemplo a presença dos multiplexes e a ausência de estúdios fortes como nos anos anteriores à década de 1960 que ditassem e impusessem quais eram os filmes que todos deveriam ver. Hoje, essa imposição é mais subjetiva, mas evidente na massiva presença dos blockbusters nas salas de cinema dos multiplexes. A ascensão da tecnologia como fator de atração aos cinema, muito divulgada por diretores como Steven Spielberg e James Cameron ajudaram na dependência das distribuidoras com filmes de grandes orçamentos. 

Portanto, a experiência de ir ao cinema se restringiu a sentimentos épicos de filmes que inovaram visualmente e, principalmente tecnologicamente como no caso de Titanic e Avatar, grandes bilheterias do cinema anteriores ao fenômeno dos super-heróis. De forma que Hollywood se viu em uma nova crise criativa, em que não bastava apenas inovar na experimentação narrativa ou de linguagem dos anos 1970, era preciso causar fortes emoções baseadas na tecnologia. Teve de se apelar para as franquias, para a fantasia e para as adaptações de outras mídias, mostrando, mais uma vez a fragilidade da mídia cinema por ser um tipo de expressão artística extremamente onerosa. Os primos pobres do cinema, a televisão e os quadrinhos, que se utilizam de linguagem próxima, lograram mais sucesso no quesito da experimentação vanguardista e acabaram conquistando mais fãs como mídia no século XXI do que o cinema, exatamente nessa dimensão de culto que Biskind se referiu ao cinema dos anos 1970.  

Quando o cinema, nossa maior e mais espetaculosa arte de representação sofre uma hemorragia financeira, ele, e a nossa sociedade também são acometidos daquilo que Roland Barthes (1989) chamava de “hemorragia do real”, passamos a depender muito mais de mitologias para que consigamos estar no controle de nossas ações e das justificativas das nossas ações. Como estamos vivendo um período de incertezas e ambiguidades cada vez mais difícil de definir, precisamos nos apoiar em narrativas que explicam nossa existência e nossas condutas. Que narrativas melhores que as dos super-heróis para justificarem nos comportarmos de forma “boa e leal” em uma sociedade que beneficia de forma extensiva os “maus e caóticos”?

Por isso, a reclamação de Scorsese é legítima do ponto de vista de que sua geração era venerada pela forma que a linguagem do cinema tomava, fator que realmente é pouquíssimo explorado nos filmes do MCU. Por outro lado, a narrativa, ponto principal  da crítica de Scorsese é um ponto fulcral dos filmes do Marvel Studios. Isso porque ela é base filosófica de nosso tempo e de nossas atitudes. Porque por mais que os super-heróis sejam derrotados pela adversidade, eles levantam e lutam novamente, eles se unem e praticam o bem em conjunto. A narrativa extra-diegética dos filmes, ou seja, a forma como consumimos essas narrativas também se dá da mesma forma. Um filme de super-herói acaba, mas eles lutam novamente em uma sequência, e se juntam numa rede de narrativas que são sentido à suas ações, interligadas, que resultam num esforço maior que desemboca em um filme com mais apelo e mais resultado nas bilheterias. Infelizmente para Scorcese a nossa carência de representações no atual contexto social não se dá em formas de apresentar as soluções, mas de como conduzir nossas vidas na direção de as encontremos. Nisso, as produções experimentais não conseguem encontrar a mesma força e impacto que têm as narrativas coesas e concisas dos super-heróis. 


Referências:

ALVES, Robinson Samulak. Marvel não faz ‘cinema de verdade’, diz o diretor Martin Scorsese. In;Tecmundo. Publicado em 4 de outubro de 2019. Disponível em: https://www.tecmundo.com.br/cultura-geek/146508-marvel-nao-cinema-verdade-diz-diretor-martin-scorsese.htm Acessado em 15 de outubro de 2019. 

__________. Martin Scorsese volta a criticar filmes da Marvel. In: Tecmundo. Publicado em 14 de outubro de 2019. Disponível em: https://www.tecmundo.com.br/cultura-geek/146755-martin-scorsese-volta-criticar-filmes-marvel.htm Acessado em 15 de outubro de 2019. 

BARTHES, Roland. Mitologias. Rio de Janeiro,Bertrand Brasil, 1989.

BISKIND, Peter. Como a geração sexo,-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood : Easy Riders, Raging Bull. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2009. 

FRAADE-BLANAR|, Zoe. GLAZER, Aaron. M. Super Fandom: como nossas obsessões estão mudando o que compramos e o que somos. Rio de Janeiro, Anfiteatro, 2018. 

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