Interseccionalidade: 10 Super-Heroínas Negras Mais Importantes dos Comics

Interseccionalidade é uma palavra que nomeia as diversas relações de poder e de discriminação que um indivíduo pode sofrer através de suas agências e políticas de identidade. O termo foi cunhado pela advogada norte-americana Kimberlé Crenshaw em um artigo que ela estudava os motivos pelos quais as mulheres negras da General Motors recebiam menos que qualquer outro tipo de combinação identitária naquela indústria automobilística. O termo interseccionalidade foi criado, a princípio, para se pensar os cruzamentos das relações entre gênero e raça, mas também pode ser pensando na maneira de se estudar outras interseccionalidades, como sexualidades e necessidades especiais. Neste post vamos falar um pouco mais sobre a interseccionalidade e trazer uma lista das 10 super-heroínas negras mais importantes dos comics de super-heróis. Vamos lá? 

Segundo Carla Akotirene (2019, p. 48), “a interseccionalidade é sobre a identidade da qual participa o racismo interceptado por outras estruturas”. No caso das super-heroínas, além da sua condição de gênero, no caso, por serem mulheres, outras estruturas podem perpassar o racismo, como a sexualidade, no caso de Tormenta, a filha do Raio Negro, ou ainda a existência de necessidades especiais, como as de Silhouette, dos Novos Guerreiros, que possui uma debilidade nas pernas. Por isso, para Akotirene (2019, p. 47), “a interseccionalidade nos permite partir da avenida estruturada pelo racismo, capitalismo, e cisheteropatriarcado, em seus múltiplos trânsitos, para revelar quai são as pessoas realmente acidentadas pela matriz de opressões. Ou, em outras palavras, como diriam Angela Davis, eternizada na canção Angie, dos Rolling Stones, “raça é apenas uma forma de se viver a classe”. Assim que, para Kimberlé Crenshaw:

A interseccionalidade pode fornecer meios para lidar com outros tipos de marginalização também. Por exemplo, a raça pode ser uma coalizão de pessoas heterossexuais e homossexuais e servir como base para a crítica das igrejas e outras instituições culturais que reproduzem o heterossexismo.

Tendo estes conceitos de interseccionalidade em mente, vamos trazer nossa listinha de grande mulheres negras e super-heroínas dos comics de super-heróis a partir de então:

Tempestade Moicano

TEMPESTADE

Ororo Munroe, é uma afro-americana mutante e uma dos principais líderes dos X-Men. Após um desastre de avião que matou seus pais em sua frente, a pequena Ororo passou dias enterrada junto aos corpos e destroços até ser libertada, o que lhe desenvolveu claustrofobia. Aos oito anos nas ruas do Cairo, a garota se tornou batedora de carteiras profissional, tendo se encontrado com o Professor Xavier e o Rei das Sombras. Após um ebate entre os dois para saber quem controlava o destino da menina, ela fugiu para o Quênia. Lá, aos quatorze anos, era considerada uma deusa das chuvas, até que o Professor Xavier a reencontrou e a levou para os X-Men. Tempestade é o bastião da força feminina e negra, tendo passado por uma fase radical e punk e teve de enfrentar um bom tempo sem seus poderes e sua ligação com a natureza. Hoje ela é uma das principais heroínas da Marvel, se não a principal!

VIXEN

Vixen, para quem não sabe, é o feminino de Raposa (Fox) em inglês. Mas na DC Comics esse é o codinome de Mari Jiwe McCabe. Criada nos anos 70, Vixen foi a primeira grande super-heroína negra da DC, mas que também foi cancelada com a Implosão da DC. Vixen utiliza o totem Tantu, criado pelo deus africano Anansi com o intuito de proteger os animais e os sere-humanos da destruição. Mari foi criada na África e após muita matança tribal em sua família, ela se mudou para a América onde se tornou uma modelo de sucesso. Com esse dinheiro pode fazer viagens à África onde acabou encontrando o totem Tantu, que era uma lenda contada por sua mãe. Mari participou da famigerada Liga de Detroit, que era liderada pelo Aquaman, foi assim que ela entrou definitivamente para o rol de heróis do Universo DC.

Bwana, a Mônica é sua Mulher-Rambeau!
Bwana, a Mônica é sua Mulher-Rambeau!

CAPITÃ MARVEL/ FÓTON/ PULSAR/ ESPECTRO

Monica Rambeau participava da guarda marítima de Nova Orleans, entretanto, tentando impedir o roubo de uma arma supersônica, seu corpo acabou se tornando pura energia. Mônica logo se viu capaz de transformar seu corpo nas mais diversas frequências de energia, como o som e a luz. Por um longo tempo, a Capitã Marvel fez parte dos Vingadores tendo se tornado, inclusive, sua líder. Isso era o que ela não cansava de repetir durante sua estadia na equipe NovaO.N.D.A., escrita por Warren Ellis e desenhada por Stuart Immonen. Mais para a frente, Mônica se tornou parte da equipe dos Poderosos Vingadores de Luke Cage e depois das Guerras Secretas, participou da equipe dos Supremos. Todos os nomes acima foram usados pela heroína em cada uma dessas fases.

MISTY KNIGHT

Misty Knight era uma ex-policial de Nova York que perdeu o braço em um explosão de bomba. Acabou ganhando um braço biônico e superforte confeccionado por Tony Stark, o Homem de Ferro. Assim, ela acabou se encontrando com heróis como o Homem-Aranha, Punho de Ferro e Luke Cage, quando, junto com a amiga Coleen Wing abriram uma agência de detetives chamada As Filhas do Dragão. Um tempo depois recrutaram uma equipe de foras-da-lei chamada Heróis de Aluguel durante a Guerra Civil. Mais para frente, Misty e Valquíria encabeçaram uma equipe só de integrantes femininas chamada As Poderosas Defensoras. Hoje em dia, Misty Knight aparece como personagem de apoio na série de Sam Wilson, o novo Capitão América. Além disso, Misty é um personagem importante na série de TV do netflix do Luke Cage.

AMANDA WALLER

Também conhecida como a Parede, ou a “The Wall”, Amanda Waller é uma executiva fria e calculista capaz das mais incríveis jogadas para manter e conquistar o poder que tem. Ela é responsável pela Força-Tarefa X, mais conhecida dos leitores e, talvez, do mundo, como a equipe de criminosos em reabilitação Esquadrão Suicida. Waller e o governo dos Estados Unidos implantaram “bombas de obediência” no cérebro desses criminosos, que explodem quando as ordens solicitadas não são executadas. Um dispositivo com botão nas mãos de Amanda Waller é que pode decidir quem vive e quem morre. Por isso, é difícil considerar Amanda Waller uma super-heroína, já que sua moral e ética são distorcidas. Contudo, ela é uma das mulheres mais poderosas do Universo DC, tendo estado também por trás das operações da organização internacional Xeque-Mate. Ela é, guardada as proporções, um Batman de saias e com cargo executivo. 

MARTHA WASHINGTON

Martha Washington é uma criação em conjunto de Frank Miller nos roteiros e de Dave Gibbons nos desenhos, para a editora Dark Horse. Martha Washington é uma mulher sofrida, que passou por muitas provações na sua vida. Ela vive em um mundo que é dominado pelas corporações, onde trabalhava como especialista em computação e hackeamento. Contudo, durante a Segunda Guerra Civil Americana, ela se juntou à PAX, força de paz para encerrar o conflito e acabou se tornando uma heroína de guerra. Em continuações de suas histórias, ela salvou as florestas tropicais amazônicas e até mesmo foi parar em Vênus usando uma nave de tecnologia alienígena. Depois de viver por mais de 100 anos, Martha acaba morrendo e seu corpo é transformado em fogos de artifício. 

355

Aparentemente 355 é uma agente especial fria e calculista que foi encarregada de salvaguardar Yorick Brown, o último homem da terra. Quando falamos em último homem queremos falar de uma pessoa que porta os cromossomos XY. Ambos fazem parte da série Y: O Último Homem, do selo Vertigo da DC Comics, que imagina um mundo feito só de mulheres, depois de uma praga que dizimou praticamente toda a população masculina do planeta. 355 é uma agente secreta do Círculo Culper, uma organização encarregada de proteger grandes figuras históricas da humanidade, e é versada em diversas formas de combate e sobrevivência. Uma personagem que, no início da série poucos se importam, mas que no final da narrativa, todos querem o seu bem e simpatizam muito com ela. Responsável por um dos momentos mais chocantes e tocantes da série Y: O Último Homem.

SHURI

Apesar de não parecer, Shuri foi criada muito recentemente nas histórias do Pantera Negra, por Reginald Hudlin, já no século XXI. Ela é meio-irmã de T’Challa, filha de seu pai TChaka, com sua madrasta Ramonda. Quando T’Challa foi dado como morto depois de enfrentar grandes desafios para manter a nação soberana de Wakanda, Shuri foi transformada na nova Pantera Negra. Enquanto que no filme do Pantera Negra, de Ryan Coogler, a irmã de T’Challa tem aparatos científicos e é versada em conhecimentos sobre como aplicar a tecnologia do metal raro vibranium, nos quadrinhos a fonte de seu poder é outro. Nos quadrinhos, a fonte do poder se Shuri vem do Djalia, o tecido e dimensão memorial e agregadora do conhecimento ancestral do Wakandanos que é canalizado através de seu corpo e mente, como responsável e como recipiente da cultura e tradição daquele povo. 

PROMETHEA

Uma das melhores histórias de super-heróis criadas por Alan Moore e J. H. Williams III, o enredo de Promethea fala sobre uma personagem que é a guardiã das histórias e das narrativas aos longo dos tempos. Surgida no egito antigo, quando as primeiras histórias de origem da humanidade eram contadas, Promethea se tornou uma espécie de guardiã e receptáculo do conhecimento humano, guardados na dimensão da Immateria. A hospedeira das forças de Promethea são sempre mulheres (mas por vezes homens que se identificam com o feminino) que vão assumindo esse manto de geração em geração, toda vez que uma hospedeira tomba. Elas são a conexão da Immateria com a realidade e são as intermediárias desse poder das narrativas através do qual a Promethea circula. Por ter uma origem egípcia, o fenótipo da personagem sempre estará ligado à etnia negra.

NÚBIA

Esta personagem não é tão importante de forma representativa nos quadrinhos como é de maneira histórica. Núbia foi a primeira mulher negra a encarnar uma super-heroína nas histórias em quadrinhos dos super-heróis. Ela é a versão negra da maior heroína mulher dos comics, que é a Mulher-Maravilha. Muitas origens cercam Núbia, mas a primeira delas conta que ela era uma irmã gêmea da Mulher-Maravilha, forjada do mesmo barro dos deuses, mas que foi levada para ser criada em outra tribo de amazonas. Essas diferenças culturais e a necessidade de afirmação dos super-heróis, Mulher-Maravilha e Núbia se enfrentam numa luta mortal. Foi criada em 1973 por Robert Kanigher e Don Heck, dois anos antes da aparição de Tempestade. Na continuidade atual, Núbia é uma aliada de Antíope, que se alia à filha de Darkseid, Cálice, para servir como espiã para Themyscira. 


Esta não foi uma lista fácil de compor, isso porque muitas da super-heroínas negras que encontramos nos quadrinhos, apesar de poderosas, não possuem tanta proeminência assim, tendo aparecido em poucas edições e com pouco protagonismo. Tempestade, Ororo Munroe, certamente é uma honrosa exceção. Aquilo que falávamos sobre interseccionalidade no começo deste artigo sobre as mulheres negras da General Motors serem o conjunto de identidade que menos recebe salário na indústria americana, o mesmo pode ser suplantado para as mulheres negras como representação nos quadrinhos de super-heróis, sendo uma das interseccionalidades que menos possui protagonismo em número de personagens. 

2 comentários sobre “Interseccionalidade: 10 Super-Heroínas Negras Mais Importantes dos Comics

  1. Cara, que artigo superinteressante (desculpa o trocadilho com a revista). Daria, sem dúvidas, um bom material científico e teórico para alguma revista acadêmica. Por que não arrisca? Já tem um baita escopo com este livro sobre interseccionalidade.

    Você, aliás, acha possível escrever algum artigo fazendo um apanhado geral sobre determinado tema e elencar autores para corroborar a escrita para, assim, elaborar um top ten ou top five sobre alguma área relacionada aos quadrinhos que envolva os papéis sociais das humanidades? Existe restrição sobre isso dentro da academia?

    Enfim, parabéns pelo artigo. Gostei da leitura e por me fazer pensar ainda mais sobre a representatividade feminina na sociedade, principalmente a negra.

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    1. Valeu, Brasuka! Quem sabe um dia faça alguma coisa nesse sentido, vamos ver o que aparece por aí! Gosto de falar sobre representatividade e pode ficar certo que vem mais coisa assim por aí! Abraços! =)

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