O Cinema de Autor Contra o Cinema de Super-Heróis

No mês de outubro de 2019, as notícias do mundo de entretenimento se viram engolidas por uma enxurrada de críticas aos filmes de super-heróis. Elas vieram principalmente da direção dos cineastas Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, que afirmaram que os filmes da Marvel “não são cinema”, ou pior, que eram “desprezíveis”. É preciso lembrar que Scorsese e Coppola vêm de uma geração que salvou o cinema hollywoodiano nos anos 1970 assim como a Marvel e os filmes de super-heróis fazem hoje em dia. Também é preciso lembrar que dessa leva saíram George Lucas, que tem um approach no cinema muito parecido com o da Marvel, com a franquia Star Wars, e também Steven Spielberg, cujo nome é sinônimo de blockbusters e efeitos especiais. Nos últimos dias uma declaração de Spielberg sobre os filmes de super-heróis atiçou os fãs. Vamos falar mais sobre ela e sobre como nossas obsessões estão mudando o que compramos e quem somos, a seguir. 

Martin Scorsese

Primeiro precisamos entender o que é o cinema de autor, ou ainda “de auteur”, como dizem os franceses. Para isso, vou citar um texto sobre esse assunto do livro Histórias em Quadrinhos: Definições Conceituais que escrevi para a Especialização em Histórias em Quadrinhos das Faculdades EST

A “Teoria do Auteur” (autor, em francês), surgiu por volta de 1954 e tem como principal defensor François Truffaut. Esse método de análise de filmes foi originalmente associado à Nouvelle Vague, um movimento de vanguarda do cinema francês, e aos críticos que escreviam na revista Cahiers du Cinéma. Esse pressuposto diz que uma única pessoa é dona de um determinado filme, ou seja, esse filme é considerado “seu”, por isso muitos associam filmes de determinados diretores como filmes de estilo e marcas autorais próprias. “Este é um filme do Truffaut. Do Tarantino. Do Woody Allen”. O diretor é considerado autor do filme inteiro, sem se preocupar com toda a equipe envolvida. Essa teoria foi usada pelos cineastas da Nouvelle Vague como justificativa de seus filmes cada vez mais pessoais e idiossincráticos. Hoje em dia, a teoria do auteur tem grande impacto no público e na hora de criticar um filme para a audiência em geral (MIORANDO, 2019).

Os filmes de Scorsese e Coppola, como Taxi Driver e o Poderoso Chefão e suas continuações são considerados filmes “de auteur” porque possuem as seguintes características: a força criativa por trás de uma obra, a recorrência de determinados temas, seu estilo de tratamento, suas marcas estilísticas, as colaborações que se repetem e, por fim, algumas ideias de mestres que vieram antes dele, evidenciando suas influências mas tornando-as uma coisa só sua (DUNCAN, SMITH, 2015). Todos estes fatores estão presentes nas obras de Martin Scorsese e Francis Ford Coppola. Mas se pararmos para analisar friamente, esses elementos todos também estão presentes nos filmes da Marvel se considerarmos o Marvel Studios como o “auteur” destes filmes. A prova disso é que muitos detratores dos filmes da Marvel os acusam de serem formulaicos, de seguirem um molde. Isso nada mais é do que uma identificação estilística, uma das grandes justificativas da Teoria do Auteur. 

Francis Ford Coppola

Já falamos anteriormente sobre as críticas de Martin Scorsese sobre os filmes de super-heróis da Marvel. Elas foram incendiadas com as declarações do diretor da trilogia O Poderoso Chefão, Francis Ford Coppola, que declarou o seguinte: “Nós esperamos aprender com o cinema, ganhar alguma coisa, algum conhecimento, alguma inspiração. Eu não sei o que alguém ganha vendo o mesmo filme de novo. Martin foi gentil quando disse que não é cinema. Ele não disse que é desprezível, que é o que eu digo” (COPPOLA in BARROS, 2019). Realmente, Scorsese foi gentil, porque Coppola não apenas trouxe uma trilogia para o cinema de um tipo de filme que não costuma ter trilogia – o filme de mafiosos -, pois as sequências costumam se voltar para filmes que versam sobre ação e aventura, como também se esqueceu que o que faz o espectador voltar para assistir um filme no cinema, principalmente através da marca autoral, é sim, a vontade de repetir uma experiência passada com o frescor do novo. 

No livro Hit Makers, o autor Derek Thompson já dizia que um dos segredos do sucesso de algo no mundo do entretenimento é a regra MAYA (Most Advanced Yet Acceptable), que significa que as pessoas buscam por coisas que sejam familiares, mas que tragam um pouco de novidade ao mesmo tempo. Assim, elas não precisam sair tanto da sua zona de conforto quando se deparam com algo pretensamente novo. Essa é uma regra da Marvel. Os personagens estão ali há mais de quarenta, no mínimo setenta anos. Todos estão acostumados com eles. O que muda é a forma que são apresentados e é esse frisson de como vão ser mostrados e que interações terão com outros personagens e outras situações, dessa vez em live action, que mexe com os espectadores e consumidores desses filmes. Portanto, a repetição não é um defeito como Coppola afirmou, mas uma qualidade, ao menos no contexto atual da indústria cinematográfica. 

Aliás, contexto é tudo. James Gunn, diretor dos filmes dos Guardiões da Galáxia argumenta nessa direção quando foi rebater as críticas aos filmes de super-heróis da Marvel: “Super-heróis são simplesmente os gângsteres/cowboys/aventureiros espaciais de hoje. Alguns filmes de super-heróis são horríveis, outros são lindos.Como filmes de faroeste e de gângster, nem todo mundo vai gostar deles, talvez até alguns gênios” (GUNN in BARROS, 2019). A indústria do entretenimento já passou por diversas fases de “ondas” de tipo de produto cultural que está sendo consumido, inclusive teve uma onda que beneficiou Francis Ford Coppola e Martin Scorsese, quando os filmes de mafiosos estavam em voga nos anos 1990. Mesmo com Steven Spielberg tendo declarado que os filmes de super-heróis estão destinados a desaparecer como os filmes de faroeste, os fãs encontraram uma declaração do cineasta feita no Festival de Cannes de 2016, em que ele traça elogios aos filmes da Marvel: 

Steven Spielberg

“Gosto muito do Superman, de Richard Donner, do Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, e do primeiro Homem de Ferro, mas filme de super-herói que mais me impressionou é um que não se leva muito a sério: Guardiões da Galáxia. Quando a projeção dele acabou, eu sai com a sensação de ter visto algo novo no cinema, sem qualquer cinismo nem medo de ser dark, quando necessário.

Existe uma diferença entre heróis e super-heróis. O herói é uma pessoa comum que se depara com um fato grave e age para modificá-lo. Um herói é uma pessoa que, andando pela rua, vê um carro pegar fogo e corre para ajudar a pessoa que está no banco do motorista, presa ao cinto de segurança, a se soltar. Super-herói é uma pessoa que, diante da mesma cena, voaria até o carro e tentaria vira-lo de cabeça para baixo e sacudi-lo, usando sua superforça, até que o motorista se solte. Eu me identifico mais com o primeiro exemplo. Filmo heróis cotidianos” (SPIELBERG in ALEMÃO, 2019).

Jennifer Aniston e Natalie Portman

Portanto, Spielberg assume uma postura mais apaziguadora em relação aos filmes de super-heróis da Marvel em comparação aos seus contemporâneos de produção cinematográfica que tiveram seu boom nos anos 1970. Natalie Portman, que interpreta Jane Foster nas sequências de Thor disse que no cinema “há espaço para todos os tipos de filme” e “não há uma única forma de se fazer arte”. A atriz é vencedora do Oscar, mas também fez parte de outra grande franquia de filmes interpretando a Rainha Padmé Amidala nos filmes de Star Wars do início do século XXI. Filmes estes, que causaram uma revolução cinematográfica justamente na geração dos atuais críticos da Marvel, Scorsese e Coppola. Filmes como a franquia Star Wars e até mesmo a trilogia do Poderoso Chefão foram primeiros passos na direção de um “cinema de franquias” que vemos hoje em dia com o Marvel Studios, Harry Potter, Senhor dos Anéis, Jogos Vorazes, DC Comics e, claro, com Star Wars, cada vez mais presente no cotidiano das pessoas comuns. 

Essa presença massiva do “cinema de franquias”, faz eco a crítica de outra atriz, também envolvida com grandes orçamentos, Jennifer Aniston, famosa por interpretar a Rachel Green da série hit dos anos 1990 e 2000, Friends: “Você vê o que há disponível por aí e está apenas diminuindo e diminuindo, há apenas grandes filmes da Marvel. Ou coisas que eu não sou chamada para fazer ou que envolvem viver numa tela verde” (ANISTON in BARROS, 2019). Percebemos que o cinema está vivendo uma crise criativa desde o início deste novo século e vem se intensificando mais ao passo que o atravessamos, por outro lado outras mídias, como a televisão, tem suplantando essa falta de criatividade do audiovisual nas grandes telas com grandes produções para o serviço de streaming. Essas, produções, contudo, nem sempre fogem à lógica da tela verde, criticada por Aniston, basta ter em mente sucessos como as séries The Walking Dead e Game of Thrones. 

Para além da tela verde, o que esses sucessos e até mesmo a sitcom Friends tem em comum é o fenômeno do Fandom. “Fandom se refere à estruturas e práticas que se formam em torno de peças da cultura popular. É um fenômeno muito antigo, muito humano, agir como um fã é provavelmente tão antigo quanto a própria cultura (FRAADE-BLANAR, GLAZER, 2018, p. 23). O fandom não envolve somente o afeto dos fãs, mas também o consumo por parte das pessoas que adoram aquele tipo de entretenimento. Isso gera o que os autores chamam de “rituais de posse”. A posse é uma forma de se sentir profundamente envolvido com seu objeto de fã, que pode ser uma série, uma história em quadrinhos, uma marca, ou uma filme de super-heróis da Marvel. 

Minha prateleira de graphic novels e o fantástico Building Stories, de Chris Ware.
Minha prateleira de graphic novels e o fantástico Building Stories, de Chris Ware.

Os “rituais de posse”, contudo, não envolvem apenas o consumo do objeto físico em si, eles envolvem movimentos ritualísticos de conhecimento. É o capital cultural sobre o que acontece numa história em quadrinhos, numa série de televisão, em um filme de super-herói que deixa alguém “importante” no meio do fandom. Por isso a “cultura dos spoilers” se prolifera tanto nos dias de hoje. “Quem detém o conhecimento, detém o poder”, diria uma frase bastante conhecida no fandom. Se o status social no fandom pode ser “comprado” através da posse de objetos físicos, ele também pode ser atribuído através da posse de conhecimento sobre o “objeto de fã”. Rituais, como diria, Claude Rivière (1990), são formas que a humanidade encontrou de buscar o controle sobre a realidade através de gestos e comportamentos metódicos que reestabelecem a ordem em meio ao caos que é viver. Por isso a importância das coleções, tanto de objetos físicos como de conhecimentos (mesmo que inúteis) sobre os objetos de fã. 

Outra diferença entre os filmes da geração de Coppola e Scorsese e os filmes da Marvel é que, enquanto os filmes dos cineastas se tornou algo cult, ou seja, reverenciado apenas por uma elite cultural, os connoisseurs do que “é cinema de verdade”, os filmes da Marvel estão atrelados ao que conhecemos por cultura pop. O objeto de fã, ou de culto, deixa de ser uma figura humana, no caso, o realizador, cineasta, ou diretor que é dono do filme, para se tornar algo institucional e corporativo, ou seja, uma marca. Isso também quer dizer que, por ser marca e ser cultura pop – ou seja, pode ser consumida nas suas diferentes formas e interfaces por quem estiver disponível a adquirir-, se aproxima de forma mais natural à publicidade e ao merchandising. Esses dois elementos são mais estranhos a um filme “de auteur” do que a uma película temática de super-heróis. Além disso:

MINHA Marvel!
MINHA Marvel!

“O fandom é uma construção de marca gerada externamente. Ele permite aos fãs canalizar seus impulsos naturais em direção à expressão própria e comunicação ao serviço de criar esse contexto tão importante. De certa forma, o propósito do fandom é projetar um significado pessoal para o que, de outra forma, seria uma mercadoria comercial sem alma” (FRAADE-BLANAR, GLAZER, 2018, p. 85 e 86).

Se Walter Benjamin (1987) afirmava que a reprodução de uma obra de arte retirava sua “alma”, sua “aura”, é o culto ao objeto de entretenimento, ao objeto de fã, que vai insuflar essa alma de volta à arte, criando e ressignificando as ações e movimentos de fruição. Por outro lado, a elitização da cultura, tão valorizada pelos teóricos da Escola de Frankfurt da qual Benjamin fazia parte é que vem criando uma fissura entre arte e difusão da arte por tentar evitar se relacionar de forma “suja” com os instrumentos de divulgação da mesma, através do marketing e da publicidade. Elementos esses que acabam ocorrendo da mesma forma na arte elitizada, seja do cinema, das artes plásticas, da literatura, mas diversas vezes de forma mais velada para os círculos cult do que no massivo alcance do que é considerado cultura pop. Observa-se então um dilema que tem a ver com reconhecimento das elites e o dinheiro das massas, dilema esse que é tão antigo quanto a atividade artística. 


Referências: 

ALEMÃO. Elogios de Steven Spielberg aos filmes da Marvel viralizam na internet. In: Observatório do Cinema. Publicado em 25 de outubro de 2019. Disponível em: https://observatoriodocinema.bol.uol.com.br/filmes/2019/10/elogios-de-steven-spielberg-aos-filmes-da-marvel-viralizam-na-internet. Acessado em 27 de outubro de 2019.

BARROS, Luiza. Por que Coppola e Scorsese odeiam tantos os filmes da Marvel. In: o Globo. Publicado em 21 de outubro de 2019. Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/filmes/por-que-coppola-scorsese-odeiam-tanto-os-filmes-da-marvel-24031252 Acessado em 27 de outubro de 2019.  

BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. In: Obras escolhidas I. São Paulo: Brasiliense, 1987.

DUNCAN, Randy, SMITH, Matthew J., The power of comics: history, form and culture. New York: Bloomsbury, 2015.

FRAADE-BLANAR, Zoe. GLAZER, Aaron M. Superfandom: como nossas obsessões estão mudando o que compramos e o que somos. Rio de Janeiro: Anfiteatro, 2018. 

MIORANDO, Guilherme “Smee” Sfredo. Histórias em Quadrinhos: Definições Conceituais. São Leopoldo/RS: Faculdades EST, 2019. 

THOMPSON, Derek. Hit makers: como nascem as tendências. São Paulo: HarperCollins Brasil, 2018.


Agradeço ao amigo Samir Machado de Machado por me passar os links para as declarações dos cineastas.

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