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Os Quadrinhos Pensantes ou Intelectualizados Surgidos a Partir dos Anos 1950

Peanuts (Charlie Brown e Snoopy), Mafalda, Calvin e Haroldo, Ferdinando, Pogo, Armandinho. O que esses quadrinhos têm em comum? Todos eles são considerados como “pensantes ou intelectualizados”, que tem como característica exemplar construir o espírito crítico dos leitores sobre a sociedade e a cultura na qual estão inseridos. Este tipo de quadrinho costuma ter grande destaque ou despontar no meio quando grandes mudanças acontecem na sociedade, geralmente estreitando as liberdades civis de expressão. Outra coisa incontestável desses quadrinhos é que apesar de meterem o dedo na ferida e serem censurados, eles são enormes sucessos. Vamos, então, falar agora um pouco mais sobre este tipo de produção em histórias em quadrinhos. 

Aqueles quadrinhos considerados como “pensantes ou intelectualizados” são um produto da história e da indústria cultura que rendem uma boa análise. Isso porque eles são instrumentos de arte sequencial que, de certa forma, vão contra e cooptam com o sistema. Eles surgiram durante a época do Macarthismo, ou ainda, à caça às bruxas nos Estados Unidos, quando comunistas ou suspeitos de praticar os ideais dos comunistas eram entregues ao governo por seus parentes, vizinhos e pretensos amigos. Os quadrinhos foram um tipo de mídia que sofreu essa perseguição, mas que ocorreu em outros âmbitos culturais. O cineasta Charles Chaplin, por exemplo, era acusado de “difundir ideais comunistas, estimular o pensamento crítico das pessoas, incentivar o povo a lutar pelos seus objetivos e, consequentemente, ir contra as medidas e leis antidemocráticas impostas pelos representantes políticos” (SILVA, 2018, p. 58).

Charles Chaplin, o Carlitos em “Tempos Modernos”, de 1936, crítica ao capitalismo e ao modo de produção fordista.

Estimular o pensamento crítico e incentivar o povo a atingir os seus objetivos eram grandes problemas naqueles tumultuados anos 1950 do início da Guerra Fria entre países alinhados com o capitalismo e países alinhados com o comunismo. Aparentemente, este tipo de ação, fazer o povo pensar através de produtos da mídia, era fruto de um estranho e perigoso comunismo. Mas isso não impediu que os criadores de histórias em quadrinhos produzissem peças nessa mídia que fizessem o povo pensar. 

Alguns exemplos de capas de HQs de Horror e Crime dos anos 1950 nos EUA.
Alguns exemplos de capas de HQs de Horror e Crime dos anos 1950 nos EUA.

Com representações filosóficas sobre a realidade social, esses quadrinhos logo se tornaram bastante populares nos Estados Unidos e, com a força dos syndicates, agências que promoviam a distribuição das tiras em quadrinhos nacional e internacionalmente, eles se difundiram além daquele país. Conseguiram esse feito pela força e carisma de seus personagens, que estão arraigados na memória afetiva de muita gente ao redor do mundo. Os anos 1950 plantaram as raízes para a grande maioria desse tipo de quadrinhos, com desenhos simples, com a ênfase dada aos personagens do que ao cenário e ao texto no lugar das imagens. 

Pogo, de Walt Kelly.

Um dos primeiros personagens a serem criados neste estilo foi o porco-espinho Pogo, de Walt Kelly, que desenvolveu todo um aparato de cópias estilo animais pensantes e contestadores que vieram depois dele, com desenhos simples e textos densos. Contudo, Pogo acabou não vindo para o Brasil, por motivos ainda desconhecidos, mas provavelmente porque não estava alinhado com a política de distribuição dos syndicates. Nos Estados Unidos Pogo é muito celebrado, tanto quanto seus outros similares que surgiram na mesma época. 

Snoopy, Charlie Brown e sua turma criada por Charles M. Schulz.

Outro quadrinho pensante foi Peanuts, de criação de Charles M. Schultz, de onde surgiram o desastrado e sofrenildo Charlie Brown, o cachorrinho Snoopy e o passarinho Woodstock. Estes personagens são imensamente adorados ao redor do mundo tendo extrapolado o limite das tiras em quadrinhos, se transformando em desenhos animados com suas célebres animações de Natal. Mas não apenas isso, esses personagens em suas características tão singulares e específicas conquistaram a indústria cultura de jeito, mesmo sendo contestadores da realidade e do status quo. Viraram todos os tipos de produtos. Desde shampoos e cuecas, até despertadores e bichinhos de pelúcia. De brinquedos para crianças até objetos de decoração, de utensílios para cozinha a roupa de cama. Snoopy e seus amigos, apesar de pensantes, intelectualizados e contestadores também se curvaram  ao fetiche da mercadoria, tão presente no capitalismo e que em nada tem a ver com o estímulo do pensamento crítico ou a luta pelos objetivos. A não ser que seu objetivo seja adquirir um produto licenciado.

Capa da revista LIFE, de 1952 com o casamento do solteirão Ferdinando com a eterna pretendente Violeta. Inspirou o Chico Bento e o Piteco de Mauricio de Sousa.

Outro personagem contestador e menos famoso hoje em dia no Brasil foi o caipira Ferdinando, elaborado por Al Capp também nos anos 1950. O nome original de Ferdinando é Li’l Abner e ele vive na cidade imaginária e interiorana de Brejo Seco. As aventuras dele inspiraram outros personagens caipiras como por exemplo o Chico Bento, de Maurício de Sousa. As histórias de Capp para o Ferdinando traziam críticas sardônicas à sociedade capitalista pós-guerra dos Estados Unidos, tanto é que o autor foi acusado muitas vezes de comunista, mas sempre teve jogo de cintura para sair com humor das saias justas que o governo americano lhe colocava. 

Conheça mais sobre o universo de Ferdinando, criação genial de Al Capp.

Exposição da Mafalda, criação do argentino Quino.

Saindo dos Estados Unidos, outra personagem muito querida pelos brasileiros e a contestadora-mor da América Latina, foi a Mafalda, de Quino, trazida à luz também nos conturbados anos 1950. Ironicamente, Mafalda foi criada por Quino para uma campanha publicitária de uma loja de eletrodomésticos do nosso país vizinho. Assim, nós colocamos a mesma questão: até onde vai a linha tênue que separa esse tipo de quadrinho contestador e formador do espírito crítico da indústria e do capitalismo que aliena as mentes para o consumo e apenas o consumo? Logo depois de ter sido descartada pela loja de eletrodomésticos, Quino achou uma ideia muito boa para ser desperdiçada e passou a publicá-la regularmente na imprensa. Seu modo ácido e inocente de ver o mundo logo provocou imediata simpatia dos leitores, que viam nela uma criança prodígio e uma proto revolucionária, seja para o bem ou para o mal daqueles que a admiravam e a liam. 

Então é Natal, e o que você fez?

Mas nem Mafalda escapou das leis de oferta e da procura por produtos com a sua cara estampada. A verdade seja dita é que a maioria dos produtos com Mafalda são feitos por amadores, não são industrializados e tem um quê de artesanal. Eles escapam da originalidade, da industrialização, mas ainda servem a uma lógica de consumo mesquinha contra a qual Mafalda lutava. Ao mesmo tempo, as editoras responsáveis pela publicação de Mafalda após a morte de Quino enchem as lojas com compilações de todo tipo com histórias de personagens, agendas anuais e permanentes e outros tipos de produtos de papelaria como ímãs, cartões e papéis de presente. 

O menino Calvin e o tigre imaginário de pelúcia Haroldo. O nome original era Hobbes e isso provocou a revolta no público brasileiro por deixar de fazer a referência ao filósofo Thomas Hobbes.

Como herdeiro direto dos quadrinhos pensantes dos anos 1950 está a tirinha Calvin e Haroldo, de Bill Watterson, surgida mais tarde, em 1985 e publicada até 1995. Calvin e Haroldo conta as desventuras de um menino chamado Calvin e seu tigrinho de estimação que, na imaginação de Calvin, vive como qualquer outro ser. O nome de Calvin, vem de João Calvino, um dos grandes nomes da reforma protestante que acreditava que o homem está naturalmente inclinado para promover o mal a seu próximo. Em inglês o nome de Haroldo é Hobbes, que é uma homenagem ao filósofo Thomas Hobbes, que tinha aquilo que Watterson chamou de “uma visão obscura da natureza humana”, sendo o autor da famosa máxima “O homem é o lobo do homem”. Nas tirinhas de Calvin e Haroldo não temos lobos, só tigres, e de pelúcia, o que deixa tudo mais divertido e, porque não dizer, mais irônico. 

Seria o Armandinho, de Alexandre Beck nossa versão tupiniquim da Mafalda?

No Brasil de hoje em dia, um dos mais carismáticos e adorados herdeiros da tradição dos quadrinhos pensantes e intelectualizados é Armandinho, criação do catarinense Alexandre Beck. Armandinho possui uma força de crítica social e de movimentação popular, colocando o dedo direto na ferida social, que por muita vezes acertou nos preceitos dos quadrinhos pensantes ou intelectualizados que é de refletir e estimular o pensamento crítico. Alexandre Beck já foi perseguido por diversos órgãos brasileiro e suas tirinhas deixaram de circular em diversos grandes jornais brasileiros porque, assim como Charles Chaplin nos anos 1950, Beck foi acusado de “difundir ideais comunistas, estimular o pensamento crítico das pessoas, incentivar o povo a lutar pelos seus objetivos e, consequentemente, ir contra as medidas e leis antidemocráticas impostas pelos representantes políticos” (SILVA, 2018, p. 58).

Comprar ou não comprar? That’s the question!

Como sempre, a história se repete, e poucas pessoas aprendem com as reviravoltas que ela provoca. Os quadrinhos, em geral, e mesmo os pensantes e intelectualizados encontram-se em uma encruzilhada entre a conscientização e a alienação, característica muito destacada da indústria cultural. Cabe a nós, construirmos um pensamento crítico para podermos escolher com clareza se preferimos, através do consumo dos quadrinhos e de outros produtos da indústria cultural, se nos alienamos ou nos conscientizamos. 


Agradeço à Prof. Drda. Natania Aparecida da Silva Nogueira por fornecer o arcabouço e a inspiração para este post a partir de suas aulas na Especialização em História em Quadrinhos das Faculdades EST. 


Referências:
SILVA, Iury Matheus Costa; SALVADOR, Lílian das Mercês. A ideologia Chaplin: análise do discurso humanitário e sátiro no filme The Great Dictator. Revista Livre de Cinema, v. 5, n. 2, p.51-71, maio/ago. 2018. p. 58.

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