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Mães: a Nova Evolução das Super-Heroínas? A Silenciadora, Volume 1, de Dan Abnett, John Romita Jr. e Victor Bogdanovic

A Silenciadora fez parte de uma nova linha de heróis da DC Comics que veio na esteira de Noites das Trevas: Metal e foi o primeiro título da iniciativa a aportar aqui no Brasil. Ele trata da história de uma dona de casa e mãe de família negra que precisa rapidamente abandonar seus afazeres caseiros para dar conta de uma ameaça que vem do seu passado como assassina de aluguel. Esse passado envolve a organização Leviatã, de Tália Al Ghul e o fora-da-lei Exterminador. Agora, Glória Ventura, a Silenciadora, precisa cumprir suas tarefas do passado ao mesmo tempo que protege seu filho. Vamos falar um pouco mais sobre esta série e como algumas super-heroínas estão fazendo uma transição para o papel de mãe assumindo uma jornada dupla tão comum a tantas mulheres.

Os super-heróis por definição trabalham em uma espécie de jornada dupla, ele acumulam trabalhos. Seja na sua identidade pública ou na sua identidade secreta, eles estão se esforçando para manter uma vida necessária para sua sobrevivência e dos demais que dependem deles. O mesmo acontece com as mulheres que são mães e donas de casa e possuem um trabalho fora do lugar onde vivem. Elas não tem identidade secreta e não são defensoras dos fracos e oprimidos do povo, mas em certa instância elas são super-heroínas pois acumulam o dobro de atividades que as pessoas – principalmente do gênero masculino – assumem. 

Assim, esse tipo de atividade também acaba refletindo nos quadrinhos que são uma espécie de espelho da nossa cultura. Mais e mais super-heroínas têm se tornado mães e assumido essa jornada dupla que é cuidar dos filhos e da casa enquanto defendem também o mundo e o universo de ameaças mais poderosas que germes e vômitos. Por muito tempo os roteiristas dos quadrinhos não souberam como lidar com crianças nas histórias em quadrinhos de super-heróis. Os exemplos de Franklin Richards e de Nathan Christopher Summers, respectivamente filhos do Senhor Fantástico e da Mulher Invisível e de Ciclope e Madelyne Pryor, que tiveram que ser mandados de volta no fluxo do tempo para retornarem adolescentes são um sinal dessa tendência. Atualmente os criadores de quadrinhos têm feito um bom trabalho com os personagens como o caso de Jonathan Kent, filho do Superman com Lois Lane, mas outros regridem nessa retratação, levando-os novamente no fluxo do tempo, como fez Brian Michael Bendis com o mesmo personagem.

Nos quadrinhos de super-heróis, as heroínas inseridas em equipes superpoderosas sempre tiveram um papel defensivo, muito mais passivo do que ativo. Mais uma vez temos os exemplos de Sue Storm e Jean Grey, as duas tratadas como Garota Invisível e Garota Marvel, com poderes que serviam exclusivamente para sua proteção, gerar escudos invisíveis e telecinéticos, ou ainda ficar invisível e mover objetos com a mente. Não por acaso as duas só alcançaram certa independência com a assunção da terceira onda do feminismo e com uma mudança de status das duas: passaram a ser senhoras, mães e esposas. Assim, a Garota Invisível se tornou a Mulher Invisível e a Garota Marvel atendia ora por Garota Marvel ora por Fênix. Vale lembrar que heróis adolescentes como o Homem de Gelo e o Homem-Aranha não eram chamados Garoto de Gelo ou Garoto-Aranha por causa de sua tenra idade. 

Mas a vinda dos anos 2000 não foi muito boa com as mulheres-mães de jornada dupla. Se por um lado tínhamos a desbocada e alcoólatra Jessica Jones criando sua filha com Luke Cage, Danielle, os dois tiveram de se casar para “poderem viver juntos criando uma filha” sob bênçãos do padre Stan Lee e dos Vingadores, equipe da qual Luke fazia parte. Ou seja, os costumes não avançaram tanto assim nos quadrinhos de super-heróis como se pensa, ou melhor, os costumes e a tradição ainda continuam fortes nessas histórias e continuam sendo um símbolo de vendas altas e garantidas. Jessica, contudo, divide as tarefas domésticas com Luke Cage, o que já é um avanço comparado com as mães dos anos 1980, que volta e meia eram abandonadas pelos maridos em prol de suas aventuras super-heróicas os até em prol de outras mulheres. 

Na metade dos anos 2000 tivemos o advento de uma polêmica história em quadrinhos publicada pela Dynamite Entertainment. Era a revista da personagem Jennifer Blood, de Garth Ennis. A premissa de Jennifer Blood era semelhante a da Silenciadora, porém mais pobremente realizada. Isso porque Jennifer também era uma dona de casa suburbana armada até os dentes, mas que aterrorizava a vizinhança buscando vingança contra o marido. Em uma cena ela aperta os genitais de um vizinho até praticamente explodir após o dito cujo tentar abusar sexualmente dela. Apelativo pra dizer o mínimo e sensacionalista pra ficar num termo ok. 

Sensacionalista como Garth Ennis também são os quadrinhos de Mark Millar e, quando envolve mulheres, parece que ele flerta com o perigo ao tornar elas umas cabeças-ocas que só querem destruir. Mais próximo dos anos 2020, um novo Kick-Ass pintava na quadra. E não era mais um homem branco. Tratava-se de uma mulher negra e mãe. “A Nova Garota”, como foi chamada por seus criadores Mark Millar e John Romita Jr., este último, não por acaso também um dos criadores da Silenciadora. “A Nova Garota” enfrenta uma gangue, claro, também em segredo da família e se torna a herdeira do manto de Kick-Ass. perceba mais uma vez que apesar da Nova-Kick-Ass ser uma mulher casada e com filhos para cuidar AINDA é pensada como uma garota miolo-mole que sai nas ruas para combater vilões na base da porrada como fazia o Kick-Ass original, Dave Lizewski. 

Antes disso, outras heroínas, geralmente no limite da lei, como a Justiceira e a Mulher-Gato também tiveram de lidar com a dupla jornada de ter que cuidar dos filhos e combater o crime. Já em Silenciadora, a personagem não é apenas uma fodona qualquer que sai na rua com a cara e a coragem e uma caralhada de armas para enfrentar bandido malvado. Ela possui treinamento prévio e poderes derivados da realidade de Noite de Trevas: Metal. Os poderes de Glória são o de gerar um campo de força silencioso ao redor do que ela escolher. Esse poder ela usa tanto para encobrir suas ações com assassina do Leviatã ou heroína que está por conta própria, como também de proteger o seu filho, Benny.  Assim, mesmo tendo de tomar conta do filho enquanto o marido trabalho como corretor de imóveis, ela consegue mantê-lo alheio e salvo dos perigos que enfrenta. Mas, como podemos ver neste primeiro volume, essa situação não vai permanecer assim por muito tempo. 

O criador e roteirista de Silenciadora, Dan Abnett, justifica a escolha da personagem principal ser uma mulher, esposa e mãe: “Em termos muito simples, se a Silenciadora fosse um personagem masculino, seria um cara que tinha uma esposa e um filho que não sabia o que tinha feito. Ninguém pensaria duas vezes sobre ele se esgueirar para ser um herói, e sair e fazer coisas e coisas, e depois voltar para acobertar a si mesmo. Isso faz parte da maneira convencional de como as histórias sempre foram e também se encaixa na maneira como pensamos sobre as relações entre homens e mulheres. Mas, ao torná-la mãe, há instantaneamente esse sentido de que, você sabe, “ela não pode fazer isso” porque, “e o filho dela?” Por que estamos pensando assim? Ou, se estamos pensando assim, vamos explorar isso e realmente descobrir se isso é uma coisa justificada para se pensar ou se é apenas o pensamento tradicional que precisa ser repensado. Então, temos estabelecido coisas deliberadamente, porque achamos divertido jogar tudo de cabeça para baixo e fazer as pessoas olharem de novo sob uma nova luz e continuar, oh, espere, isso funciona de uma maneira completamente diferente se você mudar [o gênero do personagem]”.

Perguntado se a Silenciadora era uma personagem empoderada, o desenhista e criador de Glória Ventura, John Romita Junior, destacou; “A ideia é que essa mulher é forte depois do que passou e se torna mãe e esposa. Ela é poderosa, mas agora quer se concentrar em sua família. Eu admiro isso pela idéia, porque é assim que você empodera as pessoas – é assim que você empodera uma personagem feminina – destacando o que as pessoas pensam que não é forte. Bem, espere um minuto! O que há de errado em ser mãe e esposa? O que há de errado em ser pai e marido?”

Nos Estados Unidos, o título Silencer, da Silenciadora, já foi cancelado, tendo durado 18 edições e uma edição anual, ou seja, três encadernados. O único título da linha Noite de Trevas: Metal que continua a ser publicado é The Terrifics, que ainda não teve nenhuma sinalização da Panini para publicação no Brasil. Muito provavelmente por causa de direitos autorais, uma vez que a tradução brasileira para o título seria Os Incríveis, pois a equipe é liderada pelo Senhor Incrível. Os Incríveis também é uma equipe de desenho animado de propriedade da Pixar/Disney, concorrentes da DC Comics/Warner Bros.com a Marvel. 

A história de A Silenciadora não é incrivelmente original, mas também não decepciona, entretém na sua medida. Os desenhos de John Romita Júnior estão melhores do que em seus últimos trabalhos, que costumam dar medo nos leitores. A segunda metade do encadernado fica com a arte de Victor Bogdanovic que vinha fazendo as histórias do Novo Super-Man e tem uma narrativa competente. No final das contas, a Silenciadora não é a melhor história em quadrinhos de todos os tempo e nem a pior, mas lança uma nova luz sobre a situação das mães super-heroínas dentro da cultura dos quadrinhos de super-heróis.

“Outras heroínas adentraram o século 21 com a ideia de que talvez uma mulher pudesse ser mais eficaz usando não apenas seus poderes destrutivos, mas também seu coração, para fazer a diferença de um mundo melhor. Com o mundo dos super-heróis tendo se tornado incrivelmente dividido entre rivalidades e feudos, os lutadores fantasiados frequentemente encontram a si mesmos lutando uns contra os outros do que capturando criminosos. Algumas super-heroínas estiveram procurando algo além das dinâmicas convencionais de combate como solução para os problemas do mundo”. (MADRID, 2009, p. 312). 

"Deu Zica nio Ziraldo!"
“Deu Zica nio Ziraldo!”

Às vezes as paródias que os brasileiros produzem dos super-heróis americanos estão anos à frente daquilo que vai ser tendência dentro do próprio mainstream. Quando se fala em super-heroínas mães nos quadrinhos, o grande e melhor exemplo é a Supermãe, de Ziraldo, que já usava o seu coração como principal arma desde os anos 1970, quando foi criada. E não se esqueça: quando for sair, leva um casaquinho!

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