Todos os posts em: literatura

Como Foi a Magic Con 2019, a Convenção dos Fãs de Harry Potter

No dia 24 de novembro, domingo, foi realizada no Centro de Eventos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, a PUCRS, a Magic Con 2019, uma convenção voltada para todo bom potterhead que se preze. Espera. Você não sabe o que é um potterhead? É como são chamados os fãs de Harry Potter e seu universo mágico, que também inclui a franquia de filmes Animais Fantásticos e Onde Habitam, liderado pelo especialista em biologia mágica, Newt Scamander. A Magic Con é uma celebração da magia do universo de personagens criados por J. K. Rowling e estivemos lá para conhecer pela primeira vez o evento, já realizado em outras duas edições em Porto Alegre. Confira a seguir o que achamos do evento.

Desejo: O/A Perpétuo/a da Série Sandman e Sua Androginia

Seja em Sandman: Prelúdio ou no arco A Casa de Bonecas, Desejo está por trás da trama e dos desafios, muitas vezes imensamente sofridos, enfrentados por Lorde Morpheus, o Sonho, o Sandman do título da série. Mas não é o desejo que está por trás de todos os nossos sofrimentos, não é por desejarmos e nos frustramos por não conseguirmos o que desejamos que muitas vezes nos deparamos com a versão gêmea de Desejo, Desespero? Hoje vamos falar um pouco mais sobre essa misteriosa entidade, sem gênero, mas com imenso poder que move toda a humanidade e na maioria das vezes é imensamente cruel em suas manipulações e jogos com que enreda a todos nós, reles humanos.

A Cruzada de Marcelo Crivella Contra os Quadrinhos

A gente nunca cansa de parar de se assombrar com a ignorância do conservadorismo brasileiro. Por muitos anos já tivemos programas da televisão que fizeram campanhas dos pais contra os jogos de Role Playing Game, contra as cartas de Yugioh, contra Harry Potter, com a retrógrada justificativa que tudo aquilo era “coisa do demônio”. O governador do estado do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, da bancada evangélica e aliado do presidente, incendiou as redes sociais exigindo a censura da revista Vingadores: A Cruzada das Crianças no evento da Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Vamos falar um pouco sobre esse ato e a ignorância das autoridades, principalmente das conservadoras sobre os quadrinhos, e quais as consequências desses atos.


Discutindo a Segunda Edição de Relógio do Juízo Final

Julho foi o mês em que recebemos a segunda edição de O Relógio do Juízo Final, a minissérie que homenageia a seminal obra de Alan Moore e Dave Gibbons, Watchmen. A proposta é fazer uma intersecção do mundo de Watchmen com o mundo atual da DC Comics, onde vivem Batman, Superman, Mulher-Maravilha e seus aliados e inimigos. Nesta edição Rorschach, Ozymandias e seus aliados viajam na nave do Coruja até a realidade do Universo DC e se encontram com os homens mais inteligentes deste mundo: Lex Luthor e Bruce Wayne. Mas algumas coisas vão complicar no processo. Vamos falar um pouquinho sobre esta segunda edição neste post.

“Ah, é Só um Quadrinho!”. “Ah, é Só um Filme!”. Será?

Até onde vai a nossa responsabilidade quando não deixamos que a membrana permeável que se estabelece entre a ficção e a realidade atue sobre nós e o nosso mundo concreto? O quanto a mediação de uma tela ou de uma página nos afasta e nos aproxima de nossa atuação enquanto seres humanos agentes da mudança e o quanto nos relega a simples espectadores das manipulações que nos tornamos vítimas? Em que medida um filme é só um filme e um quadrinho é só um quadrinho se banalizamos sua mensagem e as trocamos pelo mero consumismo e à veneração de outras mensagens, distorcidas, explicitadas nestas produções culturais? Qual é a mudança que precisamos estabelecer para provarmos que estamos realmente vivos quando nos deparamos com um quadrinho e/ou um filme?

A Continuação de Watchmen. O Relógio do Juízo Final, de Geoff Johns e Gary Frank

Depois da famigerada iniciativa da DC Comics que trouxe às prateleiras Antes de Watchmen em diversas minisséries por várias equipes criativas, a Editora das Lendas resolveu lançar a continuação de Watchmen. Mas não foi apenas nesse quesito que a DC Comics resolveu mexer no cânone de Alan Moore e Dave Gibbons. Eles também resolveram incluir o Superman e demais heróis da editora nesta trama, que promete (como todas megassagas) sacudir as estruturas da continuidade daquele universo. Neste mês de junho chegou às bancas brasileiras a primeira edição da minissérie pela Panini Comics. Depois de lida essa edição, vou traçar algumas opiniões sobre ela e como podemos estabelecer paralelos com a seminal obra que é Watchmen.

Valquíria: A Heroína da Marvel e Sua Relação com as Lendas Nórdicas

Há pouco tempo a Marvel Comics anunciou que trará uma nova série em quadrinhos que será estrelada pela personagem Valquíria. A atriz Tessa Thompson encarnou a versão da personagem para o MCU no filme Thor: Ragnarok poucos anos atrás. Essa versão da personagem chegou a ir para os quadrinhos fazendo parte da equipe dos Exilados, um grupo de personagens de realidades alternativas. Contudo, quando a Valquíria apareceu pela primeira vez, ela era uma personagem radical, muito diferente da atual. Neste post vamos falar um pouco mais dela e de sua relação com as Valquírias, as guerreiras de Odin na mitologia dos povos nórdicos.

O Universo de Hellboy e a Mitologia Cthulhiana de H. P. Lovecraft

O novo filme de Hellboy, criação máxima do americano Mike Mignola, está para despontar nos cinemas do Brasil em abril. Uma das características mais interessantes desse universo construído pelo autor é a sua capacidade de nos causar um sentido de maravilhamento, através de suas paragens exóticas, seus mitos sobrenaturais e suas relações com as lendas judaico-cristãs. Com todos estes elementos reunidos, este universo do filho bonzinho do diabo fica muito mais complexo e enriquecido. Mignola bebe em várias fontes lendárias e mitológicas, isso é óbvio, mas talvez nenhuma tenha influenciado tanto a base da mitologia de Hellboy como as criaturas cthulhianas providas pelo escritor de terror cósmico H. P. Lovecraft. Vamos falar sobre essas influências neste post.

As Linguagens dos Quadrinhos e Suas Relações Com os Memes da Internet

Os quadrinhos abarcam diversas linguagens e é isso que o renomado e cultuado livro As Linguagens dos Quadrinhos, do pesquisador italiano Danielle Barbieri nos apresenta. Este livro influenciou diversas gerações de pesquisadores dos quadrinhos no Brasil, desde que foi publicado pela primeira vez, na Itália, em 1991. Mas no Brasil, chegou apenas nas comemorações dos seus 25 anos, em 2016, editado pela Editora Peirópolis. Muito celebrado, o livro é genial simplesmente porque estuda os quadrinhos a partir do legado de outros tipos de linguagens para esse tipo de mídia. Vou falar um pouco neste post sobre as ideias de Barbieri sobre a quatro classificações das demais linguagens com os quadrinhos, que o autor estabelece em seus estudos. Como exemplos, vou trazer os memes da internet, que também possuem ligações com a linguagem dos quadrinhos.

As Muitas Histórias de Mauricio de Sousa

Em 2015, Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica completou 80 anos de existência. Para comemorar esta importante data, seu estúdio, o Mauricio de Sousa Produções – MSP, lançou diversos produtos. Entre eles, algumas biografias de Mauricio de Sousa em diversos formatos. Este artigo tem a intenção de discutir estas obras e seu conteúdo bem como entender como a história da vida de um empresário brasileiro de sucesso é contada pela própria empresa.

Aquela Vez em que um Quadrinho de Alan Moore Virou um Poema Épico Gay

Ah, os anos 80! Eles eram muito parecidos com o que estamos vivendo agora, né? A ascensão de uma direita extremista no mundo todo e as minorias em risco de morte. A desinformação e a contrainformação reinando forte nas ruas e nos meios de comunicação (formais ou informais). Os quadrinhos também se tornaram mais radicais naqueles tempos sombrios. Era uma época em que distopias em que a direita extrema reinava foram escritas para os quadrinhos. Duas dessas obras se chamavam Cavaleiro das Trevas e Watchmen. Elas mudaram para sempre o cenário dos quadrinhos. Para o bem e para o mal. E ao mesmo tempo que esse cenário caótico e desesperador era admitido no coração das pessoas, um grupo de artistas resolveu falar. Entre estes artistas estava o mago de Northampton, Alan Moore.

Os Melhores Livros Sobre Quadrinhos Que Li em 2018

Este ano temos uma novidade entre as listas de melhores do ano. São os livros sobre quadrinhos, ou seja, livros de história e análise das histórias em quadrinhos.  Tenho que fazer jus ao meu mestrado. Mas não pense que essa lista só vai trazer livros complicados de entender. Nada disso, a maioria desses livros é voltado para o público corriqueiro de quadrinhos e não para o público pesquisador, mas, claro, podem ajudar ao pesquisador a rechear mais o seus trabalhos com referências importantes. Vocês vão ver exatamente do que estou falando quando lerem a lista deste post. Vamos lá?

A Comic Con Experience e os Reflexos da Crise Editorial

A CCXP é, sem nenhuma dúvida, a maior celebração dos nerds do planeta. Tem espaço para todo mundo e, para os artistas que têm a honra de participar dela, é o evento de quadrinhos mais lucrativo do ano. O Artists Alley, este ano, alcançou o recorde de mesas, com mais de 500 artistas divulgando e vendendo os seus trabalhos. Por outro lado, outra grande falta foi sentida: a de sebos, livrarias e editoras. Um evento deste porte, certamente é um reflexo da realidade do consumo do público nerd brasileiro. A ascensão do espaço independente e a diminuição do espaço mainstream seriam reflexos do nosso momento de consumo de produtos editoriais voltados ao público nerd? Vamos analisar essas possibilidades a partir da Comic Con Experience.

Um Passeio Pela Exposição “Quadrinhos”, do MIS

Até o dia 31 de março de 2019 fica em exposição a mostra Quadrinhos, no Museu da Imagem e do Som, o MIS, localizado no Jardim Europa, em São Paulo. A exposição foi liderada e organizada por Ivan Freitas da Costa, um dos sócios da Comic Con Experience. Aproveitando que já estaria em São Paulo para a CCXP 2018, resolvi dar um pulo na exposição Quadrinhos, no único dia em que eu poderia vistá-la durante minha estadia. Tirei mais de 200 fotos lá, mas separei algumas muitas para vocês . Neste post contarei um pouco do meu passeio na exposição, com o intuito de também instigá-los a visitar esta incrível, sensacional, magnânima mostra!

A Melhor Adaptação de Um Texto Literário Para História em Quadrinhos

Existem muitas adaptações literárias para os quadrinhos, principalmente no Brasil, onde aconteceu uma profusão desse material. As editoras de quadrinhos viram no PNBE uma mina de ouro para conseguir dinheiro através de adaptações literárias em quadrinhos. Assim, enormes atrocidades foram produzidas e, ao invés de valorizar publicações originais, pasteuriza-se mais do mesmo, apenas pelo dinheiro governamental. Por isso, para mim, adaptações literárias em quadrinhos eram sinônimo de baixa qualidade. Mas me enganei. Existem sim, adaptações de grande qualidade, que só adicionam à história e trabalham bem a linguagem dos quadrinhos. É o caso de Cidade de Vidro, uma adaptação em quadrinhos de Paul Karasik e David Mazzucchelli, de um conto de Paul Auster. Essa é, na minha opinião, a melhor adaptação de um texto literário para histórias em quadrinhos. Neste post você vai saber a razão.

A primeira vez que li Cidade de Vidro, foi emprestada de um amigo que é muito fã de Paul Auster e que, depois de eu ter lido a HQ, ele me emprestou o livro A Trilogia de Nova York, que é considerada a obra-prima de Paul Auster. Cidade de Vidro é o primeiro conto da Trilogia. Todos os contos lidam com identidade, criação (de si e da identidade por si mesmo ou por outros), metalinguagem e a própria linguagem. Paul Auster não é um autor fácil de ser lido, por isso, também não é um autor fácil de ser adaptado para uma mídia que lida com o visual, seja ela qual for. Por isso, uma tarefa hercúlea como essa não poderia cair nas mãos de novatos fazendo adaptações simplórias para uma editora ganhar dinheiro.

Os artífices de Cidade de Vidro, Paul Karasik e David Mazzucchelli conhecem profundamente o potencial da linguagem dos quadrinhos. Mazzucchelli é grande conhecido dos leitores de quadrinhos por suas associações com Frank Miller em Demolidor: A Queda de Murdock e Batman: Ano Um. Ele também é responsável pela prodigiosa feitura de Asterios Polyp, uma graphic novel que faz uma bela utilização e homenagem à todos os recursos disponíveis na linguagem dos quadrinhos. Já Karasik vem do estudo dos quadrinhos, onde passou as décadas de 80 e 90 na academia. Nos anos 2000, ele produziu alguns quadrinhos inéditos no Brasil com teor autobiográfico.

De longe a adaptação de Cidade de Vidro é que mais usa e abusa dos recursos gráficos e narrativos de uma história em quadrinhos para ampliar o sentido da leitura de uma escrita literária. As partes onde David Quinn/Paul Auster percorre os quarteirões de Nova York atrás de um sentido nas perambulações do homem que investiga, além de darem um sentido maior para os rabiscos apresentados no livro original (que é bastante ilustrado), também os mesclam com outros ícones simbólicos como uma digital e um labirinto, os dois aludindo a identidade.

A busca pela identidade e a liberdade que ela provoca é a base desta história e, portanto um quadrinho em que é trabalhado um grid de nove quadros dentro de uma dimensão relativamente pequena para eles, também acaba gerando a sensação de sufocamento no leitor. Essa mesma sensação que os Peters Stillman e o detetive David Quinn/Paul Auster sentem. Essa permissão alegórica que Mazzucchelli se dá, para interpretar as passagens do conto com símbolos, ícones, metáforas visuais e outras alusões, ajudam a interpretar o quadrinho de outra forma e também a adicionar outras camadas de sentido na leitura do conto a partir dos quadrinhos, não um simples desenho da descrição do escritor. Claro, o texto de Auster também é um texto que permite o leitor “se perder” em alusões e significados.

De longe também, toda a Trilogia de Nova York, obra-prima de Paul Auster, não são narrativas de fácil transcrição para a linguagem gráfica, então essa é outra razão para reverenciar o trabalho de Karasik e Mazzucchelli com Cidade de Vidro, principalmente a iconicidade e a metalinguagem da história. Por várias vezes, dentro dos textos dos trabalhos de Trilogia de Nova York, Auster faz malabarismos com a linguagem escrita. Nada mais justo que esses malabarismos fossem trazidos para o visual, para a linguagem visual e a linguagem própria dos quadrinhos quando adaptada para uma linguagem sequencial. Linda Hutcheon, em seu livro A Teoria da Adaptação explicou essa articulação da seguinte forma:

“Quando Paul Karasik e David Mazzucchelli adaptaram uma novela de Paul Auster, que era complexa tanto verbal quanto narrativamente, A Cidade de Vidro (1985) em uma graphic novel (2004), eles tiveram de traduzir a história naquilo que Art Spiegelman chama de “a ur-linguagem dos quadrinhos”- “um restrito e regular grid de painéis” com “o grid como uma janela, uma porta de cela, uma quadra da cidade, um jogo de amarelinha; o grid como um metrônomo dando a medida das mudanças e ajustes da narrativa”. Como todas convenções formais, o grid proíbe e permite; ele ao mesmo tempo limita e abre possibilidades”. (HUTCHEON, 2006, p. 35)

Existe um tema caro em Cidade de Vidro, mas que permeia toda a obra de Auster e, por que não, a de Mazzucchelli e Karasik também, que é o tema da autoria. Mas nesse caso, a palavra autoria assume um sentido bem maior. Ela dá conta de paternidade e de criação. Afinal, a obsessão dos Peters Stillman tinham a ver com isso. O pai Stillman era obcecado com Deus, o pai de todos e o filho Stillman, com o pai, que o manteve enclausurado por oito anos para comprovar um experimento. Na verdade, Cidade de Vidro nos faz uma pergunta: “Quem somos sem nossos criadores?”. E isso vale para o ficcional como para o real. Até onde nossa identidade é construída por aqueles que nos veem e nos encaminham – ou não – e até onde ela é nossa mesmo? Até onde as histórias que contamos sobre nós mesmos e sobre os outros influenciam naquilo que somos, na nossa identidade? Para isso, Auster tem uma citação, em outro conto da Trilogia, que diz o seguinte:

“Todos queremos ouvir histórias e as ouvimos do mesmo modo que fazíamos quando éramos pequenos. Imaginamos a história verdadeira por dentro das palavras e, para fazê-lo, tomamos o lugar do personagem da história, fingindo que podemos compreendê-lo porque compreendemos a nós mesmos. Isso é um embuste. Existimos para nós mesmos, talvez, e às vezes chegamos até a ter um vislumbre de quem somos realmente, mas no final nunca conseguimos ter certeza e, à medida que nossas vidas se desenrolam, tornamo-nos cada vez mais opacos para nós mesmos, cada vez mais conscientes de nossa própria incoerência. Ninguém pode cruzar a fronteira que separa uma pessoa da outra – pela simples razão de que ninguém pode ter acesso a si mesmo”. (AUSTER, 2008, p. 132)
Em Cidade de Vidro, o escritor David Quinn toma o nome Paul Auster daquele que ele acredita ser um detetive, mas ele é só mais outro escritor. Temos aqui um roubo de identidade e, ao final da história, Quinn já não sabe mais quem ele é. Como Auster diz, precisamos do outro para saber quem somos nós mesmos. Não temos acesso a nós mesmos para definir nossas fronteiras de “ser”. Precisamos do outro para saber onde acaba o eu e onde começa o tu. Ao mesmo tempo em que o leitor borra essas fronteiras ao se tornar o personagem, o autor borra as mesmas ao se tornar o personagem. Então o leitor é um pouco do autor.

Logo, se o leitor é um pouco do autor ao tomar o lugar do personagem, os autores de uma adaptação tomam o lugar do autor original, ao pegar a sua criação para adaptação. É como se o pai adotivo encaminhasse a criança do pai biológico e a transformasse em uma outra coisa que seria se estivesse ao lado do original. Esse é apenas parte de um dos aspectos metalinguísticos dessa adaptação e desse conto que, se parássemos para analisar todos esses aspectos, esse texto se tornaria longo demais. Mas vale adicionar a metáfora do vidro, da tal cidade de vidro. Ele é transparente e podemos ver um ao outro através dele, mas ainda é uma barreira que impede e deforma nossa visão dependendo da nossa perspectiva. Talvez nossa identidade seja isso: uma camada de vidro que nos separa dos outros, ao mesmo tempo nos faz ser vistos e permite uma “reflexão” que faz com que nos assemelhamos aos demais.

É uma pena essa HQ estar fora de catálogo há muito tempo, desde que foi lançada pela primeira e única vez em maio de 1998 pela Via Lettera. Uma pena também que a edição que eu compre no sebo, para minha segunda leitura, continha várias duplas de páginas em branco, já que o valor investido nela não foi pouco. Fica um apelo às boas editoras para trazerem novamente esse incrível material para o Brasil.

O Potencial Poético dos Quadrinhos

Existem alguns quadrinhos que, além de apenas contar uma história, uma narração, acabam trazendo um terceiro significado, que pode ser interpretado ou não, mas deixa o leitor com uma pulga atrás da orelha. Isso é aquilo que o grande teórico francês dos quadrinhos, Thierry Groensteen chama de quadrinhos poéticos. Ou seja, quadrinhos que ultrapassam a sua função enquanto prosa e alçam vôo para novos sentidos além da mera narrativa. Os quadrinhos poéticos, em um nível restrito, possuem uma significação que vai além do que está impresso na página e pode gerar um “terceiro” sentido. A presença de uma interpretação além do que está mostrado e ocorrendo em uma história em quadrinhos poderia justificar a dissonância cognitiva que existe na leitura de pessoas que não enxergam algumas mensagens humanistas em trabalhos como X-Men e Star Wars.

O Cânone dos Quadrinhos: O Que é e Como Funciona?

Muitas vezes, em discussões, ouvimos os leitores de quadrinhos falarem: “é, mas isso não faz parte do cânone”. Ou ainda se perguntam “isso vai passar a ser cânone”? Mas eu acho que, em geral, a maioria das pessoas não sabe o que cânone significa dentro da comunidade de fãs e muito menos o seu significado geral. Neste texto vou falar sobre produções oficiais que configuram cânone, realidades alternativas, universos paralelos e a apropriação destes mundos ficcionais nas produções de fãs. Também sobre a relação dessas diferentes formas de narrar com o universo dos quadrinhos e, por fim, com elementos religiosos. Prontos para embarcar nessa viagem por universos? Então, se ajeitem nos seus assentos, que vai começar!

10 Sugestões Sobre Como Formar Novos Leitores de Quadrinhos

Vai e volta surgem teorias apocalípticas que o mercado de quadrinhos vai acabar. Agora estamos no olho do furacão, quando a teoria apocalíptica não é só que o mercado de quadrinhos vai acabar, mas que todo o mercado editorial vai sofrer um colapso e se adaptar para as novas gerações. No meio de tanta mudança, como amealhar novos leitores para publicações? E publicações de quadrinhos? Sabemos que novas gerações de leitores são a motivação que vai manter o mercado para os mais velhos. Mas os mais velhos também têm de ter consciência que para o mercado ser mantido, ele precisa mudar. É avelha “mão invisível” e a lei da oferta e da procura de Adam Smith se fazendo valer no capitalismo em que estamos encerrados. Neste texto vamos discutir possibilidades para que o mercado da leitura de quadrinhos se renove.