Algumas Publicações de Destaque Que Encontramos na PocCon

A primeira edição da Poc Con em 2019 foi um sucesso! As pessoas esperavam duas horas para entrar no evento em uma fila que dobrava quarteirões. O engajamento do público e o volume de vendas surpreendeu a organização e os participantes do evento. O nosso blog, promotor da tolerância e igualdade para as pessoas queer não podia deixar de falar do evento, né? Então, apenas para começar, resolvemos selecionar alguns quadrinhos que foram lançados na Poc Con (e outros que já foram lançados há um tempinho) e passaram pelo nosso escrutínio como alguns dos destaques deste evento hino!

historinhas quentinhasHISTÓRIAS QUENTINHAS SOBRE SAIR DO ARMÁRIO, DE ANNIMA DE MATTOS, ALINE LEMOS, ELLIE IRINEU E RENATA NOLASCO

Esse é um daqueles quadrinhos que dá vontade de abraçar, ou ainda, aqueles quadrinhos que abraçam a gente quando a gente está se desfazendo em lágrimas. Ao invés de trazer histórias trágicas sobre homossexualidade e quetais, ele traz histórias quentinhas, como naquele livrinho do Snoopy “Felicidade é um Cobertor Quente”. As quatro histórias desta publicação, trazidas por quatro talentosas artistas, são contadas de maneiras diferentes, com artes diferentes, sob diferentes aspectos, mas todas são, sim, quentinhas. A primeira, de Annima de Mattos, a mais independente/underground de todas, fala sobre como o visual pode importar e como pode não importar na sua sexualidade. A segunda, de Aline Lemos, gira em volta da revista Veja da Ana Carolina “Sou Bi, e Daí?!”, uma capa que marcou essa geração, inclusive a minha, a HQ é muito bem orquestrada. A história seguinte, de Ellie Irineu, conta uma belíssima história de companheirismo e amizade que avisa que nos papéis de gênero tudo pode acontecer. Por fim, a HQ da Renata Nolasco mostra amigos nerds e geeks de video game MMORPG compreendendo melhor as nuances da sexualidade um do outro e o resultado é explosivo. Um belo esforço das meninas, histórias gostosinhas, emocionantes e que devem ser lidas mundo afora!

sincopeSÍNCOPE, DE ALINE ZOUVI

A Aline Zouvi é, digamos, minha “gêmea de dissertação”, já que tanto eu quanto ela fizemos nossa dissertação de mestrado sobre o Fun Home, de Alison Bechdel. Em Síncope, que tem o seu significado patológico e musical, a questão queer não é o principal – ela está ali, mas como pano de fundo – o destaque aqui fica para os ataques de ansiedade que Laura, a protagonista tem. De qualquer forma, a ansiedade é uma patologia que acompanha os queer. Afinal, viver em uma sociedade que não te aceita e te trata com os mais diversos requintes de violência, certamente provoca nessas pessoas depressão, ataques de pânico, ansiedade, fobia social e tantas outras patologias. Entenda: não é o fato de ser queer que deixa as pessoas doente, mas o fato de como a sociedade trata os queer. Por isso, é difícil de desassociar uma coisa de outra. Não sei se a Aline quis expressar isso com o seu Síncope, que é um trabalho ritmado como a música e sufocante como a patologia, cheio de usos especiais da linguagem dos quadrinhos para expressar isso, o importante é que o resultado das intenções da Aline nos deixa permeados com essas sensações paradoxais que envolvem nossas vidas o tempo todo.

yalaYALA E A TEIA DA EXISTÊNCIA, DE YURI AMARAL

Este é um livro young adult com uma pegada existencial do amigo Yuri Amaral. O interessante sobre a personagem-título deste livro, Yala, é que ela é o alter-ego drag queen de Yuri, através da qual ele realiza algumas performances. Segundo ele, o propósito da encarnação drag é causar uma desestabilização no pensar – algo muito próprio do queer – pois Yala traz elementos femininos (vestidos e maquiagens) e elementos masculino (barba e pelos no corpo). A história que Yuri conta sobre Yala neste livro também é de desestabilização, mas não somente no causar impacto no outro, como em si mesmo. Yala mostra que estamos em constante movimento e que é essa força de transformação que rege as nossas vidas e as forças da natureza. Somente com o movimento e a ação podemos fugir dos padrões e grilhões que nos aprisionam e sonharmos ser mais, atingindo novos mundos nessa viagem. A narrativa de Yala me lembrou bastante Sandman, já que incorpora alguns elementos do quadrinho nela, como Sonho e uma formação de irmãos Perpétuos. Afinal, sonhos e o perpétuo, por mais que tenham uma forma, estão sempre em movimento e é por isso que são infinitos.

felicidadestransPEQUENAS FELICIDADES TRANS, DE ALICE PEREIRA

Colaborei com o Pequenas Felicidades Trans na sua campanha do Catarse e peguei o álbum com a Alice na POC CON, onde eu a conheci. Acho incrível e sensacional que as pessoas queer consigam se expressar de maneiras tão maravilhosas como esses quadrinhos que tem saído, como este. É uma forma de transformar vidas: a de quem faz e a de quem recebe. Os quadrinhos da Alice são lindos. pra começar que a arte lembra e muito o estilo do Chris Ware, embora o layout da Alice seja mais contido e, eu prefiro assim. Ela sabe jogar bem com os nove quadros da página e desenvolveu uma entrevista na TV para linkar toda a sua história de vida, num recurso bem aproveitado. Alice revela nestas páginas alguns percalços e felicidades de ser trans que nem todo mundo está consciente e, por isso, esse quadrinho vem pra esclarecer – e confundir um pouco, porque confundindo a gente se entende, esse é o papel dos queers nessa existência. Adorei mesmo ter participado dessa campanha e o resultado ficou pra lá de bom. Que venha mais quadrinhos da Alice, da Luiza, do Lino, da Laerte, de mais pessoas trans se expressando e não somente sobre sua condição trans, mas sobre aquilo tudo que faz eles e elas amarem e serem amados.

inteligentesSÓ OS INTELIGENTES PODEM VER, DE GUILHERME SMEE

Eu não costumo fazer isso, mas vai rolar um jabazinho aqui do meu trabalho. Esse quadrinho que lancei lá na POC CON é resultado do meu mestrado em Memória Social e Memória Social em que, como falei ali em cima, estudei o quadrinho Fun Home, de Alison Bechdel. Estudei esse quadrinho para aprender como se faz uma autobiografia em quadrinhos a partir da perspectiva de identidade, de gênero e de sexualidade. O resultado deste estudo foi este quadrinho, Só os Inteligentes Podem Ver, cujo título é uma brincadeira com o famigerado “gaydar”, um mitológico aparato que vem com as pessoas queer, que conseguem se identificar mutuamente. Neste quadrinho, trago quatro contos ilustrados por mim mesmo (desenho de roteirista) sobre “crescer sem saber que se é homossexual”, durante minha infância e adolescência. Também tem um pouco do texto da minha dissertação para dar aquele tempero sabor aporte teórico maneiro. Pode ser bastante esclarecedor para quem está lutando contra ou a favor da sua identidade sexual.

Você pode conhecer mais sobre este e outros trabalhos meus neste link.

motoka2COMO DESENHAR HERÓIS MASCULINOS EMPODERADOS, DE MOTOKA (MAIRA COLARES)

Botei o olho nesse quadrinho da Motoka na POC CON e tive a certeza que eu precisava comprá-lo. Afinal, como os leitores contumazes deste blog devem saber, a frágil masculinidade dos super-heróis é um assunto que volta e meia eu trato. Neste fanzine barra quadrinho barra manual de desenho, aprendemos como fazer super-heróis menos erotizados. CAHAM! Capaz! Tudo é uma ironia para de certa forma subverter e tirar sarro dos manuais de desenhos de super-heroínas que ensinam a fazer mulheres sensualíssimas e lânguidas, expelindo suas gotas de sexo para todo o lado das páginas. O que a Motoka faz aqui é uma crítica tanto aos manuais de desenhos que ensinam a desenhar heróis homens quanto os que ensinam a desenhar heroínas mulheres, invertendo esses papéis de gênero. É algo parecido àquilo que a Hawkeye Initiative fez com o Gavião Arqueiro em poses sensuais de mulheres heroínas. Só que a Motoka aqui, faz com muito mais CAHAM! teoria e CAHAM! referencias teóricos. Sinto que essa publicação ainda vai render ao menos um artigo acadêmico! Uhuu!

É isso aí, minhas POCs mergulhantes! Esses são alguns destaques do que trouxe lá dessa feira hino e baphonico que toda bee devia conhecer um dia (e todas as pessoas não bee, também, oras! Isso é diversidade!). Abraços mergulhados em lacração e empoderamento e outras palavrinhas que eram nossas mas as heteras subverteram numa coisa uó…

 

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