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Analisando Cinco HQs com Cenas de Abuso Sexual

Essa semana, a capa de Batgirl por Rafael Albuquerque causou fuzuê nas redes sociais, trazendo à baila o assunto estupro nas histórias em quadrinhos de super-heróis. Gostaria de propor uma análise aqui e tentar chegar a alguma conclusão de como a indústria de comics trata esse assunto tão delicado.


Avengers #200, o estupro e a gravidez de Miss marvel por seu próprio filho (?)

Avengers #200, o estupro e a gravidez de Miss Marvel por seu próprio filho (?)

MISS MARVEL – AVENGERS #200 (1980)

Para comemorar a edição milestone da revista dos Vingadores, o editor Gerry Conway e o escritor David Micheline haviam decidido que Carol Danvers, a Miss Marvel, teria um bebê, e o pai seria a Inteligência Suprema, mas Jim Shooter, o editor chefe na época, conhecido por sua misoginia disse não. Faziam poucas edições que Carol havia entrado na equipe dos Heróis Mais Poderosos da Terra, então a história que foi publicada, desenhada por George Pérez foi a seguinte:

Marcus, um ser que vivia na dimensão do limbo, observava Carol Danvers e se apaixonou por ela, mas ele não poderia viver na nossa realidade pois envelheceria rapidamente. Então ele atraiu Miss Marvel – que era o receptáculo perfeito, por ter DNA kree e humano – para sua realidade e fazendo-a imaginar que estava apaixonada por ele, controlando-a mentalmente, os dois tiveram a cópula. Um certo dia, Carol desmaia. Hank Pym declara que ela está grávida. Ela dá luz a um filho e tira licença dos Vingadores, rapidamente ele cresce e se torna um homem adulto. Mas esse homem adulto quer namorar sua própria mãe. Ele a ameaça a ter relações com ele, mas acaba envelhecendo e virando pó. Então, mais para frente é revelado que o pai verdadeiro de Marcus era Immortus e que Marcus era o Centurião Escarlate.

"Não é a mamãe! Não é a mamãe!"

“Não é a mamãe! Não é a mamãe!”

Miss Marvel é uma heroína que comeu o pão que o diabo amassou realmente. Ou melhor, que Jim Shooter amassou, porque foi durante seu “reinado” que a heroína sofreu mais. A história do seu abuso sexual é ainda mais bizarra. A forma como é mostrado esse abuso, com Carol em êxtase e um foguetinho descendo ao lado de sua cara de gozo é mais bizarro ainda. Como se mulheres curtissem um estupro.

Apenas a fútil Vespa sendo a fútil Vespa...

Apenas a fútil Vespa sendo a fútil Vespa…


A venerada obra Watchmen também tem estupro.

A venerada obra Watchmen também tem estupro.

ESPECTRAL – WATCHMEN (1986)

Talvez seja o caso mais emblemático de estupro nas HQs. Espectral era uma mulher atraente, rainha dos pin-ups e até estrelava algumas Tijuana Bibles, isso era suficiente para atrair a atenção de seu colega de equipe, o Comediante, casca grossa e porra louca da equipe. No final de uma reunião dos Minutemen, ele a atraiu para um canto da sala e a estuprou. Não fosse a intervenção de Justiça Encapuzada ela teria sofrido muito mais. Meses depois, Sally Júpiter, a Espectral dá à luz sua filha – e também do Comediante – resultado deste estupro.

Essa história é um cânone dos quadrinhos, escrita por Alan Moore e Dave Gibbons, famosa por ter gerado histórias cruéis, violentas, raivosas, porque as pessoas interpretaram-na errado. Assim como muitas vezes as pessoas interpretam vítimas de estupro erroneamente, dizendo que foi a mulher que quis assim, ou que a mulher é fácil demais, ou que a mulher deu muita trela para aquele machochô agir assim.

É a dança do Machochô...

É a dança do Machochô…

Com o estupro de Espectral, Moore não quis vangloriar o Comediante, como muitos podem pensar achando que ele é o garanhão da revista. Ele quis alertar para os perigos do sexo não-consentido e das consequências dele, como bem podemos conferir na história o desgosto de Laurie Juspetzic ao se encontrar com o suposto pai novamente.


Piada sem graça é a da revista Batman: A Piada Mortal

Piada sem graça é a da revista Batman: A Piada Mortal

BATGIRL – A PIADA MORTAL (1988)

E voltamos para o último objeto de grande polêmica do mundo dos quadrinhos, Batgirl e Coringa. A história de bastidores de A Piada Mortal é que a DC queria que Alan Moore escrevesse uma história do Batman, depois do sucesso de Batman – O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller. Queria juntar Moore com outro grande sucesso inglês, Brian Bolland. Porém Moore estava bem insatisfeito com a DC Comics por causa dos direitos autorais sobre Watchmen e a republicação americana de V de Vingança. Moore decidiu que A Piada Mortal seria seu último trabalho na DC Comics.

Talvez por isso, a história ficou tão radical. O Coringa vai até a casa de Bárbara Gordon, a Batgirl, a espanca e aparentemente a estupra. Ele tira fotos da moça nua para mostrar mais a frente na história ao seu pai adotivo, o Comissário Gordon, que fora sequestrado e mantido em um parque de diversões sinistro. Embora muitos digam que na história a moça não fora estuprada, porque não viram a tal cena, tudo leva a crer que o ato aconteceu, porque senão qual a razão do Palhaço do Crime tirar fotos de Bárbara nua?

Realmente isso foi uma coisa bárbara.

Realmente isso foi uma coisa bárbara.

A partir dessa história Bárbara se tornou paraplégica, tendo de usar uma cadeira de rodas. E assim, ela se tornou uma das personagens mais marcantes da DC Comics, tomando para si o nickname de Oráculo, virando a maior especialista em informação e tecnologia da informação de todos os super-heróis. Mais para frente ela e Canário Negro iriam funda uma equipe só de mulheres, as Aves de Rapina.


Crise de Identidade: a volta das megassagas na DC.

Crise de Identidade: a volta das megassagas na DC.

SUE DIBNY – CRISE DE IDENTIDADE (2004)

Acho que esse é o pior caso de estupro nos comics. Por quê? Porque a história gira em torno de esquecer que o tal fato aconteceu. O Doutor Luz invade o satélite da Liga da Justiça e ataca sexualmente a mulher do Homem-Elástico. Nisso os heróis chegam e fazem uma lavagem cerebral no Doutor Luz. O mesmo acontece com todos os outros heróis que, através dos poderes mágicos de Zatanna, fazem com que muitos deles, inclusive o Batman se esqueçam do ocorrido.

Crise de Identidade vem na onda dos famosos retcons, ou seja da continuidade retroativa, de acontecimentos que aconteceram no passado são trazidos à tona nos dias de hoje e nisso, os heróis devem lidar com as consequências.

É uma história bem construída, apesar do evento catalisador ser terrível. Se trata de uma HQ que apresenta o conflito entre identidades públicas e secretas dos super-heróis e dos sacrifícios que estão dispostos a fazerem entre essas identidades para protegerem aqueles que amam.

O estupro de Sue Dibny, a mulher do Homem-Elástico.

O estupro de Sue Dibny, a mulher do Homem-Elástico.


O Mal no Coração do Homem Kevin Smith

O Mal no Coração do Homem Kevin Smith

GATA NEGRA – HOMEM-ARANHA: O MAL NO CORAÇÃO DOS HOMENS (2002-2006)

Homem-Aranha: O Mal no Coração dos Homens, foi uma minissérie escrita por Kevin Smith e desenhada por Terry Dodson que, como todo produto do renomado e famigerado cineasta demoraram anos para chegar a sua conclusão. A primeira parte da minissérie é bem interessante, com diálogos bem trabalhados da maneira verborrágica de Smith. Se trata de um caso de roubo e claro, a Gata Negra está envolvida. Nas três últimas edições, Smith tenta reinventar a história de bastidores da Gata Negra, e aí que mora o perigo do estupro.

Lá pelas tantas na história Felícia conta que foi estuprada na época da faculdade, e Smith usa isso para justificar porque a Gata Negra é uma mulher forte: ela teve de superar a humilhação de ser estuprada. Mas aí Smith cai em um erro comum de muito escritores homens que escrevem personagens femininas: a personagem precisa ser inferior ao homem de alguma forma para se tornar superior a ele de outra forma. Ela precisa ter vivido muitas adversidades para se mostrar forte, como durante anos Felícia Hardy, a Gata Negra foi mostrada. Isso mostra como Kevin Smith despreza as vítimas de estupro.

O estupro da Gata Negra

O estupro da Gata Negra

Aí entramos na casa do Law and Order SVU: Special Victms Unit, em que o estuprador precisa ser justificado. No caso, o vilão da história é um homem que foi seguidamente estuprado pelo irmão e que nos dias em que correm a história, usa seus poderes mentais para atacar sexualmente prostitutas. Dessa maneira tanto a série policial quanto a revista do Aranha escrita por KevinSmith querem deixar o fato do estupro mais suave, porém sem muito sucesso. A velha história de que o estuprador precisa ter sido estuprado.

E assim Kevin Smith mudou a história da Gata Negra. Ela era uma mulher independente, forte e modelo para outras mulheres, que por causa da procura pelo pai, o Gatuno, se tornou ladra em busca de ação e aventura. Com o cineasta, ela se tornou uma mulher sem confiança que precisa do motivo de um estupro para se impor sobre os homens, definindo e modelando suas ações. Como e escritor mesmo diz no seu texto pela voz de Felícia: “Algo foi roubado de mim, então eu comecei roubar de volta!”. Pelo jeito, Smith não aceita o fato de uma mulher dirigindo sua vida.


O ESTUPRO É SEMPRE UM ATO DE COVARDIA.

SE VOCÊ FOI ASSEDIADA(O), NÃO DEIXE DE CONTATAR AS AUTORIDADES CABÍVEIS:
CLIQUE AQUI PARA VER ONDE PEDIR AJUDA NO SEU ESTADO (BRASIL)

Obrigado a Annie O’Reily por sugerir a pauta.

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20 comentários

  1. Ozymandias diz

    “Meses depois, Sally Júpiter, a Espectral dá à luz sua filha – e também do Comediante – resultado deste estupro” – Retirei essa parte do texto acima, porque a Laurie Juspetzic não nasceu do referido estupro, a própria Sally comenta no final da série pra Laurie que depois do ocorrido estupro, ela (a Sally) teve um encontro amoroso com o Comediante e desse encontro foi concebida a Laurie. Abraços!!!

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    • guilhermesmee diz

      Valeu, Gente! Sempre é bom informações elucidativas dos temas dos posts! E quanto a escolha dessas cenas é porque são as mais conhecidas mesmo e tem mais diferença de tempo entre elas. Abraços!

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    • Saga diz

      Eu acho deprimente que Moore coloque a vítima na posição de se apaixonar pelo seu violador, é como se Sally tivesse gostado e por isso fosse lá ter seus repetecos, isso de alguma forma realmente glamouriza o Comediante, suas vitimas correm pra ele, querendo mais, na mesma série tem as vitnamitas que ele violentou na Guerra, certo? Enfim… o movimento feminista deveria reclamar mas com Allan Moore do que com o pobre desenhista da capa alternativa de Batgirl….

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      • guilhermesmee diz

        Devia, mas sabemos que o Moore é chegado em duas coisas: polêmica e estupors, pois em quase todas as HQs dele tem algo do gênero… Então, é de se pensar… Abs!

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    • Lucas diz

      Ela disse, mas você confia em tudo o que os personagens dizem? Se não foi mostrado, ou se um narrador onisciente não disse, então pode ser mentira do personagem. Pegadinha machadiana.

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    • Gabriel diz

      Creio que tenha sido um caso de uma síndrome de estocolmo. A Sally não culpa o comediante pelo estupro, acho que ela chega a culpar a si mesma, ela acha que ele realmente amava ela, ou é isso que ela quer acreditar para conseguir conviver bem com essa experiência traumática. Watchman trabalha muito com ponto de vista.

      No caso de Piada Mortal, recentemente vimos um quadro que foi censurado em que fica claro que o Coringa estuprou a Batgirl com o revólver e provavelmente atirou nos suas costas do fundo do seu útero. Isso foi demais até para o Batman, e ele quebrou sua única regra, matando-o no final do quadrinho.

      Curtido por 1 pessoa

  2. bom alan moore disse que ela não foi estuprada, mas faltou mencionar o estupro de constantine na cadeia e de invencivel é estuprado na edição 110 de invencivel de robert kirkman

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  3. Pingback: O que rolou nessa semana: 13/03/2015 a 19/03/2015 | Maia Crua

  4. 0-Drix diz

    Fico pensando que talvez na época em que esta história da Missa Marvel foi publicada, sequer se tivesse a noção do abuso sofrido pela personagem! Talvez dissessem que ela foi seduzida!
    E Kevin Smith já demonstrou certo grau de misoginia em Demônio da Guarda e no documentário Comic-Con Episódio IV: Esperança dos Fãs. Ele já tem antecedentes.

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    • guilhermesmee diz

      Acho que o Kevin Smith já mostrou todo o tipo de preconceito possível, ele é a própria cara do fã “mente fechada” de quadrinhos. Quanto à Miss Marvel eu não sei bem qual a reação dos leitores na época, mas suscitou um artigo na revista LoC#1, por Carol A. Strickland. Dá uma bisolhada aqui: http://carolastrickland.com/comics/msmarvel/ Abraços e boa leitura!

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      • 0-Drix diz

        Opa! Valeu pelo retorno e obrigado pelo link e indicação de leitura. Abs.

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      • Se for levar em conta o conceito de controle mental, onde o “controlado” tem condições de a base de força de vontade reagir ao controle mental, é mais como influência, mais como aquelas situações onde a mulher consente uma investida mais bruscas como chegar beijando e passando a mão, seria algo como assédio que em realidade só é considerado crime quando a mulher não gosta, agora se o cara chega beijando passando a mão como ocorre quase todos os dias em baladas, botecos e até escolas, e a mulher olha para o cara acha ele bonito e aceita a coisa como flerte.

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  5. 0-Drix diz

    Já que citaram o estupro em Invencível, tô tentando lembrar aqui… O Kid Miracleman também não foi estuprado nos flashbacks de Miracleman, do Autor Original (a.k.a.: Alan Moore)?

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