Todos os posts em: As Eras dos Quadrinhos

Série de posts sobre as Eras dos Quadrinhos.

"Oi, Seu Civita, vamos jogar Monopoly?" "Ah, não você já ganhou e colocou todo o mercado de quadrinhos na prisão da distribuição!"

A Nova Revista da Marvel/Panini e os Fantasmas do Monopólio

Essa semana saiu a notícia confirmando o que as “solicitações” de pré-venda da Panini Comics já sugeriam: uma nova revista de 148 páginas vai ser lançada substituindo as revistas Homem de Ferro & Thor e Capitão América & Gavião Arqueiro. A revista se chamará Vingadores: Os Maiores Heróis da Terra e aparentemente no seu mix conterá Captain America, Hulk, Savage Hulk, Iron Man, Thor: God of Thunder, Loki: Agent of Asgard e Secret Avengers. As revistas Young Avengers e Hawkeye aparentemente serão concluídas nas publicações atuais. O atual momento econômico, o mix desta nova revista e a monopolização do mercado está trazendo o fantasma derrotista e pessimista de Natais passados mais pobres.

As Eras dos Quadrinhos – Post Scriptum

Contrariando as previsões de Mark Millar, de que a indústria de comics teria um ritmo de crescimento menor na década de 2010 e também a despeito da crise econômica mundial que se abateu sobre os EUA e o mundo a partir de 2008, o mercado de quadrinhos vai muito bem, obrigado. Segundo dados do ICV2, entre 2003 e 2013, o crescimento foi de 96%. Isso se deve, em grande parte, para o grande destaque dos comics em outras mídias, seja em animações, séries de TV, filmes e até mesmo a internet. Em 2 de maio de 2008 estreava o filme do Homem de Ferro, o primeiro do Marvel Studios, que pretendia fazer nas telonas o que já era feito nos gibis: um universo interligado. A estratégia deu certo, e nos anos seguintes seriam lançados Thor, Capitão América – O Primeiro Vingador, além do segundo filme do latinha. Tudo isso para culminar em 2012 com um dos maiores fenômenos do cinema, The Avengers – Os Vingadores, reunindo todos estes personagens. O filme teve a maior abertura …

As Eras dos Quadrinhos – Parte 11

Conclusão – Hal Jordan ou Kyle Rayner ? As novas origens têm o mérito de serem histórias mais coerentes com o momento em que vivemos. Permitem que um novo público se forme, apoiado em um background renovado e capaz de apelar aos seus interesses e ideais, e de produzir identificação com o ambiente do leitor, deixando de insistir na base já obsoleta desenvolvida anos atrás. Que sentido uma equipe de pessoas com 30 anos que ganharam poderes na corrida espacial da Guerra Fria faria para os jovens nascidos após a queda do Muro de Berlim? Só se fosse uma obra retratando uma fase histórica, com caráter de relíquia e curiosidade, mas não causaria comoção como uma série corrente. Claro, sempre haverá quem defenda e prefira o Superman da Era de Prata, com seus poderes sem limites, suas kriptonitas multicolores e suas transformações bizarras. A explicação para esse gosto é simples. Essas pessoas cresceram vendo o Superman agir dessa maneira, adequada ao mundo e à época em que desenvolveram seus valores e formaram suas perspectivas. Para …

As Eras dos Quadrinhos – Parte 10

A Nova Onda – Agentes de H.o.l.l.y.w.o.o.d. Kurt Busiek falou: “Você só pode identificar as Eras que realmente acabaram (…) Então, a época que você está vivendo no momento será sempre chamada de ‘Era Moderna’ até que você dê a ela um nome real – porque então você pode colocar uma lápide sobre ela, já que está na seguinte”. A comoção ao redor de revistas número um, de hologramas ou capas multifacetadas, a glorificação de heróis ultra-anabolizados, argumentos cruéis e raivosos com o intuito apenas de chocar não estão mais tão presentes entre os atrativos das revistas de super-heróis. Certamente, estamos vivendo um novo período. Foi o 11 de Setembro a crise que mudou a forma de como os super-heróis eram vistos pelo mundo. Por um lado, a queda das Torres Gêmeas exigiu dos quadrinhos uma camada maior de realidade. “Em um mundo pós-11 de Setembro, até mesmo a frase ‘Olhe, lá no céu! É um pássaro! É um avião!’ soa diferente”, diz Robert Wilonsky para a SF Weekly “O sentido do escapismo nos quadrinhos …

As Eras dos Quadrinhos – Parte 9

Período de Transição D – Nostalgia: Ah, como seu fantasma ainda paira… Enquanto o mercado direto contraía e se concentrava nas mãos da distribuidora Diamond Comic Distribuitors, o mercado de comics propriamente dito fazia o mesmo. Houve uma queda de 14% no volume de vendas em 1998 e 5% em 1999, segundo o Comic Buyer Guide, chegando a menos da metade dos patamares de 1993, o melhor ano. No conteúdo das revistas, pairava o fantasma da nostalgia. Era um sentimento que editores e leitores dividiam depois de perceberem que as mudanças drásticas que foram feitas na maioria dos super-heróis não eram garantia de boas histórias. Olhavam para trás, para as eras passadas, principalmente a Era de Prata, na ânsia de resgatar o sentimento que vinha daquelas aventuras, cheias de incongruências, mas ainda assim divertidas e descompromissadas. Alan Moore foi um dos primeiros a assumir esse sentimento e desenvolveu para o Supremo, criação de Rob Liefeld, quadrinhos propositalmente calcados nas aventuras e no universo do Superman da Era de Prata. Foi realizada uma espécie de resgate …

As Eras dos Quadrinhos – Parte 8

A Era da Incerteza – Eu sou o melhor no que faço, mas o que faço não é nada bonito! Com a influência dos quadrinhos independentes, do mercado direto e restrito e o código menos rígido, o caminho estava aberto para obras como Batman, o Cavaleiro das Trevas e Watchmen, que, para o bem ou o mal, redefiniram os modelos de quadrinhos de super-heróis. Foi o tempo em que os heróis não precisavam de motivos para ser violentos, e a grande maioria era cruel e raivosa, numa tradução literal do termo grim’n’gritty, uma expressão cunhada para representar o resultado da má interpretação do tom que empregaram Moore e Miller por autores menos célebres. Os protagonistas eram sombrios, portavam grandes armas e faziam cara de mau, rangendo os dentes nas capas. Fazia-se um contraponto à nobreza da Era de Prata e ao cinismo da Era de Bronze. Nesse período, a arte passou a ser mais valorizada. Grandes desenhistas passaram a receber grandes quantias por seus trabalhos e os fãs compravam revistas em grandes quantidades. As bad …

As Eras dos Quadrinhos – Parte 7

Período de Transição C – Avante, compradores! No início dos anos 1980, um organizador de convenções de quadrinhos chamado Phil Seuling abordou as principais editoras de quadrinhos dos Estados Unidos para desenvolver um sistema de compra e distribuição de suas revistas diferente do que estavam costumados a utilizar. O mercado direto dos comic books se iniciava com a edição de estréia da mutante Cristal (Dazzler#1, de 1981) pela Marvel Comics. A edição vendeu mais de 400 mil cópias, praticamente o dobro da média de vendas dos gibis normais. A principal característica do mercado direto era, no início, a compra de revistas pelas empresas diretamente da editora, sem a possibilidade de retornar as edições não vendidas em troca de créditos, como era feito no sistema de consignação, com bancas de revistas e outros pontos informais de venda. No lugar deste benefício perdido, ganhavam maiores descontos, facilidades na compra e, principalmente, exclusividade. Algumas edições eram lançadas apenas neste tipo de mercado: assim, o custo de oportunidade de novos títulos se tornou menor, e as editoras passaram a …

As Eras dos Quadrinhos – Parte 6

A Era de Bronze – Morte, o grande momento da vida O exemplo utilizado por Blumberg como a crise que estabelece novos paradigmas é a morte de Gwen Stacy, namorada do Homem-Aranha, publicada originalmente em Amazing Spder-Man #141 (Junho de 1973). A história, aqui, serve como o divisor de águas, a crise mencionada por Kuhn. A história inovava ao condenar uma personagem querida dos leitores a uma fatalidade, coisa até então impensada para o gênero. Os editores discutiram se o melhor para Peter Parker e Gwen Stacy era o casamento ou a morte. Decidiram pela morte. Este acontecimento redefiniu estatutos, os mesmos de que Eco falava anteriormente, de que o herói não deve se consumir. O fim de Gwen abriu espaço para mortes mais grandiosas como da Fênix e de Elektra. Era isso que o zeitgeist pedia. No início da década de 70, muitos jovens americanos tinham de encarar a morte de frente, sendo levados a combater no Vietnã por uma derrota anunciada. O escândalo Watergate desfez a imagem icônica que os ianques tinham de …

As Eras dos Quadrinhos – Parte 5

Período de Transição B – Santa relevância social, Batman! As mudanças de paradigma geralmente se concretizam em decisões editoriais. Julius Schwartz definiu o início da Era de Prata e deu os primeiros passos para o fim deste período. As histórias do Batman, editadas por Sheldon Moldoff, traziam o herói sofrendo todo o tipo de mutação: havia o Batman bebê, o Batman alienígena e até o Batman zebra. Para defender-se das acusações que Wertham fez de uma relação homossexual entre Homem-Morcego e Menino Prodígio, a National havia providenciado a eles uma família com Batwoman, Batgirl, Ace – o Batcão e Bat-Mirim. Nada disso impediu que as vendas despencassem e o público perdesse o interesse no personagem. Estas histórias traziam elementos muito comuns da Era de Prata na DC Comics, como as famílias de heróis (Superman também tinha a sua), animais de capa e mudanças temporárias de toda sorte que colocavam os personagens-título em situações absurdas. Schwartz foi chamado para reverter a situação em 1964. Removeu das histórias do morcego os elementos bizarros que vinham de uma …

As Eras dos Quadrinhos – Parte 4

Era de Prata – Uma nova esperança Para estabelecer uma nova era, conforme a teoria de Kuhn, uma mudança de paradigma deve ser identificada. Essa transformação era preparada com o período de transição, pois um novo plano de fundo para as histórias já estava presente em algumas edições de horror e crime que abordavam os avanços da ciência. A ficção científica era um gênero novo e uma boa saída, já que guerra, crime e horror estavam fora da ordem do dia. A ciência nunca foi tão festejada como na Era de Prata, principalmente nos heróis re-imaginados por Julius Schwartz. “Se nos anos de ouro muitos dos heróis tinham suas histórias calcadas no místico e no mitológico, no final da década de 50, com a corrida espacial e a iminência de uma guerra nuclear entre a URSS e os EUA, parecia mais apropriado que os heróis fossem produtos legítimos da ciência, mesmo que fantásticos demais”, nos diz Roberto Guedes, confirmando que não apenas as revistas em quadrinhos estavam mudando, mas todo o mundo ao redor delas. …

As Eras dos Quadrinhos – Parte 3

Período de Transição A – Atirando para todos os lados Durante a Segunda Guerra Mundial, os quadrinhos de super-heróis atingiram seu ápice. Foi durante este período que foram registrados seus maiores números de vendas por exemplar. Segundo Bradford W. Wright, em 1943, os quadrinhos vendiam 25 milhões de cópias por mês. Apenas o título do Capitão Marvel era responsável por mais de 1,5 milhão. A guerra impulsionava os leitores a consumirem quadrinhos, uma vez que os gibis traziam em suas capas os super-heróis enfrentando os cabeças do Eixo. Além disso, milhares de quadrinhos eram levados ao front para que os soldados se sentissem incentivados com as histórias dos heróis. Contudo, em 1945, a guerra acabara, e não fora nem Superman nem o Capitão América quem acertara um direto de direita na face de Hitler, mas seres humanos normais. Os soldados aliados haviam vencido a guerra sem a ajuda de superpoderes e, de volta para casa, não estavam mais interessados em superaventuras patrióticas, mas na manutenção de suas famílias. As pessoas começaram a perder o interesse …

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As Eras dos Quadrinhos – Parte 2

A Era de Ouro – Agradando Gregos e Romanos            A expressão “Era de Ouro” é geralmente usado para classificar um período de tempo em que um determinado gênero, arte, ciência ou civilização atingiu seu auge, e manifestou com maior esplendor os valores que o norteiam. Dessa maneira, no que se refere à sociedade, temos, por exemplo, a Era de Ouro da China, do Islã, da Inglaterra.   A origem do termo vem da Grécia e da Roma antigas, da referência que seus poetas faziam a um tempo em que a humanidade vivia em uma utopia e era pura. O autor grego Hesíodo descreve as Cinco Eras do Homem, dividindo-as em Era de Ouro, de Prata, de Bronze, Heróica e de Ferro. Todas elas se iniciam com a criação de uma nova raça humana e se encerram com a destruição da mesma, seja pelo titã Cronos ou por Zeus. A exceção é a Era Heróica, em que viveram Hércules, Teseu, Perseu e Aquiles, encerrada com a Guerra de Tróia, na qual muitos campeões pereceram. A mitologia …

As Eras dos Quadrinhos – Parte 1

Mudança de Paradigma – Metamorfose Ambulante Umberto Eco, em seu estudo sobre o mito do Superman, publicado no livro Apocalípticos e Integrados, mostra que, por ser um arquétipo, o super-herói deve apresentar certa inércia para permitir a fácil identificação. Ou seja, nada de grandes mudanças em sua vida. Por essa razão, as editoras costumam resistir a deixar seus personagens casarem ou terem filhos. Segundo o autor, os arcos de história se sucedem, o herói enfrenta e debela inúmeras e semelhantes ameaças, mas, no final, perdura essencialmente o mesmo status quo: combater o mal, servindo como exemplo de coragem e heroísmo, geração após geração, sem nunca envelhecer ou evoluir. Caso o Superman, ou qualquer super-herói sujeito a essa mesma lei, provoque alguma ação que altere esta continuidade, daria um passo em direção a seu fim. E este fim, como sabemos, não é a morte. Por outro lado, o personagem também não pode permanecer estático por muito tempo, especialmente em seus detalhes, ou então sua imutabilidade e eterna juventude o transformarão em uma relíquia: a idade que …