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A Peça Que Nos Falta: Além dos Trilhos, de Mika Takahashi

Além dos trilhos (2017), da Mika Takahashi é, posso dizer, mesmo que precocemente, a HQ mais bonita que li este ano. Embora não tenha lido muitas, já reli esta o suficiente pra me envolver com o protagonista e reconhecer nele, o vazio que vez ou outra assola o centro do meu pensamento.A narrativa é alegórica, mas funciona com uma organicidade singela que afasta qualquer ideia de não realidade. Ao contrário, tudo é muito expressivo e habita num universo muito maior do que aquele proposto como cotidiano. Nós vemos a experiência do coelho, mas o mundo é grande e outras peças parecem ser procuradas.

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A dimensão do universo fica evidente no desenvolvimento da história. Apesar de ter um enredo curto, alguns detalhes demonstram o funcionamento comercial e social daquele mundo, e este parece absorver o coelho, que busca, na solidão do vazio do seu encaixe, encontrar a peça que lhe falta.

O traço da Mika é assustador e delicado. Sua aguada remonta a uma historicidade do nanquim oriental, que, mesmo no minimalismo, transmite a calma, a pressa, a raiva, a tristeza de qualquer personagem com poucos elementos. O coelho tem olhos que gritam e que cantam.  O mesmo com o peixe, que sorri e chora apenas com os olhos. Nisso consiste à força da sua narrativa.

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A dimensão triste e assustadora da depressão da personagem também é evidenciada pela força da tinta. O monstro (sua associação com o “médico” é bem interessante) tem uma presença derramada e intensa, as gotas parecem se espalhar com o intuito de não dar forma final, apenas categorizar o que existe no mundo dos pesadelos.

Cada forma de expressão consiste em fortalecer aquilo que o roteiro pede. Entre roteiro e imagem, a sincronia é genuína. A personagem busca um pedaço que lhe falta, e a caracterização icônica desta falta, fortalece a ilusão dos “remédios”, mesmo que estes se mostrem paliativos, piorando ainda mais o sentimento de frustração.

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A ausência, o escuro dentro do peito, dá lugar à luz da descoberta de uma bela amizade. O tempo que o coelho passa com seu novo amigo “birdfish” revela-se como um tempo de maturação de si mesmo e de uma caminhada para um futuro período de luz. Quando o amigo tem de partir, brilhando sob a luz de uma lua cheia, é que ele tem o encontro com aquilo que mais carecia: uma entrega, um sinal de que a amizade, construída pelo tempo compartilhado, permaneceria por um tempo maior.

A cena em que o peixe volta para presentear o amigo, e irrompe por entre o monstro que volta a se formar gradativamente, me emocionou muito. Não é difícil reconhecer que precisamos desta luz.

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Eu não conseguiria analisar academicamente a obra e nem sei se há alguma mitologia tradicional que envolve o universo apresentado em Além dos trilhos. Minha relação com a história foi puramente sensitiva. Li no ônibus, como quem anda por cima de trilhos, e não pude deixar de imaginar quantas pessoas ali dentro daquele automóvel precisavam de uma luz para encaixar na sua peça ausente. Li na escola em que trabalho, e não pude deixar de imaginar quantos alunos, professores, zeladores, precisariam de uma noite de lua cheia para que pudessem se preencher para além da televisão, dos remédios, da fuga. Não posso deixar de imaginar quantas pessoas ainda precisam ler esta pequena fábula, para perceber que precisam subir no trem e tentar ir um pouquinho mais além. E aí, quem sabe, possam encontrar um pouco de vida.

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