Quadrinhos Que Não São Quadrinhos (Para Mim)

Existem alguns quadrinhos que, quando eu olho, não me dão vontade de ter e nem de colecionar. Por uma simples razão: eles não parecem quadrinhos pra mim. É um sentimento esquisito, mas que tentei explicar com algumas teorias da comunicação, bem como dar exemplos de quadrinhos que me fazem sentir assim. No pulo, a explicação.

Os quadrinhos que me fazem pensar dessa forma, geralmente tem uma origem diferente do que a primária no papel. Eles vêm de outras mídias: da web, da TV, dos games, dos livros ou da música e parecem ter menos apelo com os colecionadores de quadrinhos do que com o público leigo nessa mídia em geral. Essas obras ficam fora da esfera dos quadrinhos, do mundo dos entendidos e aficcionados e criam uma esfera totalmente nova e separada dos outros, como algo de consumo generalizado.

Os quadrinhos de games da internet e de aplicativos como Plants vs. Zombies, Zombies vs. Robots, Angry Birds e Minecraft, por exemplo. As bancas estão cheias de quadrinhos do Minecraft, mas eu não creio que esse tipo de quadrinho influencie as pessoas ou as crianças que os compram a irem atrás de outros tipos de quadrinhos. Se tornam apenas mais uma extensão do game do que qualquer coisa. Isso faz com que não apenas o meio quadrinho e esses quadrinhos que “não levam a nada”, percam sua aura, seu objetivo. Mas o que é essa tal “aura”? Vou tentar explicar resumidamente.

Durante a idade média e o renascimento, os mestres ensinavam seus discípulos através da imitação. Porém, com o advento das artes gráficas, primeiro com a xilogravura e depois a litogravura, se tornou possível que a escrita e, mais tarde, as ilustrações, fossem reproduzidas. O filósofo Walter Benjamin diz que o processo de reprodução de imagens foi tão acelerado, que alcançou a velocidade da fala. No início do século XX, a reprodução técnica começa a conquistar seu próprio lugar entre as artes como o design gráfico e o cinema.

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O filósofo Walter Benjamin

A obra atualiza sua reprodução em cada uma das situações que se apresenta. O valor de uma obra de arte autêntica tem seu fundamento no ritual que a originou. Por isso alguns quadrinhos funcionam muito melhor na web do que os publicados em papel. São os casos do quadrinhos que saem em tirinhas periódicas em redes sociais e em sites da internet como do Cyanide & Happiness e Ninguém Vira Adulto de Verdade. Esses quadrinhos, para mim, não parecem quadrinhos, não tem o seu valor como arte, não tem sua “aura” e o não abrem o caminho para que buscamos outro tipo de produção dentro do mesmo meio. Para Benjamin a reprodução da obra de arte através de mecanismos a desvalorizam e ela perde sua autenticidade, liberta o objeto do domínio da tradição. Na fotografia a exposição massiva afasta o valor de culto e se torna o último refúgio da aura.

NAOcianeto

Uma das grandes contribuições de Benjamin para a Escola de Frankfurt foi a teoria de que a obra de arte perde a sua aura quando replicada muitas vezes. O que dizer, então, dessas tiras de quadrinhos que são compartilhadas tantas vezes nas redes sociais como essas? Elas acabam perdendo a sua autoria e passam a ganhar posse daqueles que as compartilham. Já não são mais do autor, mas de uma comunidade de autores. Por isso, perderiam sua “aura”, a intenção original da obra de arte. A aura seria a autenticidade de cada obra, aquilo que as tornam únicas e valiosas.

Walter Benjamin diz que a experiência de uma obra de arte só será completa quando ela for além do visual, ou seja, da contemplação. Por isso, talvez, essa necessidade para mim de que a obra possua uma base física, um “simulacro”, para se tornarem legítimas. As novas mídias rejeitam valor de culto tornando a obra de arte banalizada. É o caso da quadrinização do livro Fazendo Meu Filme, de Paula Pimenta. Um quadrinho que, dificilmente vai atrair a atenção de aficcionados do gênero e quiçá àqueles que leram os livros. Os que lerem este quadrinho, não serão incitados a buscar nem mais quadrinhos e nem mais livros, porque eles não são uma coisa nem outra.

O você? Concorda com essa minha teoria ou discorda totalmente? Tem algum quadrinho que não é quadrinho para você? Conte-me tudo, não esconda nada! Deixe seu comentário! Abraços submersos!

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7 Comments

  1. Concordo parcialmente… Vejamos, a parte da apropriação e compartilhamento viabrede social é bem evidente. Ninguém se preocupa em creditar o autor da Charge, acha a piada genial, se apropria dela e passa adiante. Mas no tocante a reprodução massiva, os próprios quadrinhos, os que achamos Arte passam por esse processo. E se hoje não tem o alcance que deveriam, ao menos no passado foram massivos. Isso não tira por exemplo a “Turma da Mônica” dos irmãos Caffagi do status de obra de arte. E já estão na segunda edição. Sei que a obra impressa não tem o caráter de apropriação do compartilhamento digital mas Benjamin também não conhecia essa realidade e o exemplo dele então se aplicados a qualquer reprodução. Todo o resto eu concordo. Eu criança lia quadrinhos e além dos tradicionais da Marvel e DC, comprava Comandos em Ação e Transformers. Eu já era leitor de quadrinhos. Na escola, todos os moleques compravam Comandos em Ação e Transformers. A febre passou, essas HQs acabaram e eles largaram os quadrinhos(e olha que Comandos em Ação errando Larry Hama e todos tinham o selo Stan Lee de qualidade – o que para eles nem era nada – além da aparição do Homem-Aranha com uniforme de simbionte na HQ dos Transformers).

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    1. Sim, Rodrigo, tem muitos pontos a serem analisados. Vou até colocar o mea culpa que escrevi pro Yoshi, pra não dar confusão com as pessoas. Abraços!

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  2. Discordo, totalmente, o negócio é, se usa linguagem de quadrinho é quadrinho.
    Não é porque um filme é derivativo, ou que é um filme de arte, ou que o mesmo seja feito com um fim específico ele deixa de ser um filme.
    Muitas vezes a coisa entra no cerne do “isto não foi feito pra mim”.

    Ah… gostei no novo visual do site.

    Deixo uma pergunta:
    Filmes Documentários, são filmes?
    a) Sim, pois fazem uso da linguagem e narrativa que é inerente do “ser filme”.
    b) Não, pois não passam no cinema, possuem proposito e público específico, não é feito para os cinéfilos.

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    1. Valeu pelo elogio, Isaura! Sim, é uma discussão bem polêmica. Documentários são filmes? Depende pra quem você pergunta! 😉 Abs!

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  3. MEA CULPA:
    Não acredito que esta seja a opinião generalizada e nem que estes não sejam quadrinhos. Mas é uma impressão que eu tenho de não levar em conta esse tipo de quadrinho. Primeiro porque não me atrai e segundo porque não me parece autêntico.

    Mas outros já disseram que não consideram quadrinhos infantis, outros, mangá. E assim vai. Foi só um artigo de opinião. Não estou desmerecendo os trabalhos, só não me passam a impressão de comunicar com o público colecionador e sim com a grande massa. Isso, entretanto,em termos comerciais é um mérito. Cyanide e Ninguém Vira Adulto funcionam muito bem na web e são megapopulares. Minecraft faz sucesso com crianças. Pimenta faz sucesso com pré-adolescentes.

    Mas todos tem um ponto em comum: não usam os quadrinhos como sua mídia de apoio principal, por isso, para mim, são menos autênticos. Outros, poderiam pensar que quando os super-heróis foram para a telona, se tornaram menores, assim como Benjamin achava que a obra de arte, ao ser reproduzida graficamente, perdia o seu valor. Esse foi meu comparativo.

    É uma perspectiva apocalíptica? É uma perspectiva apocalíptica. Mas me permita ser um pouco isso, quando eu tento exaustivamente ser integrado em quase tudo que eu escrevo. Todo mundo tem seus preconceitos. E o meu é com esses quadrinhos. Foi só uma tentativa de justificar minha opinião preconceituosa e desagregadora com uma crítica academicista famosa por ser preconceituosa, desagregadora e, o pior, servir às elites. Coisa que nenhum desses quadrinhos faz.

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