Eram os Deuses Astronautas?, Terra X, de Alex Ross, Jim Krueger e John Paul Leon

“Morra antes de morrer. Não resta chance depois”. – C. S. Lewis

Todas as capas de Terra X  formam um mosaico. Arte por Alex Ross.
Todas as capas de Terra X formam um mosaico. Arte por Alex Ross.

Terra X, minissérie criada por Alex Ross e Jim Krueger, com desenhos de John Paul Leon, mostrava o Universo Marvel daqui a 20 anos, uma Terra onde todos os humanos possuem poderes. Publicada em 1999, depois do grande sucesso de O Reino do Amanhã (Kingdom Come, da DC Comics, de Mark Waid e Alex Ross, que também mostrava o futuro distópico do universo de Superman e Batman), a Marvel resolveu chamar Ross para fazer a sua versão do que aconteceria no Universo 616. A proposta era a de mostrar o que REALMENTE iria acontecer com o Universo Marvel, mas algumas discrepâncias editorias acabaram transformando aquelas histórias em uma dimensão alternativa.

O QUE É O MAL?

Peter Parker, o Homem-Aranha fora de forma da Terra X.
Peter Parker, o Homem-Aranha fora de forma da Terra X.

Na minha primeira aula de Cultura Religiosa na faculdade – a qual éramos obrigados a cursar, pois a PUCRS é uma universidade católica -, eu pensei que teria um repeteco das coisas que vi na catequese e nas inúmeras aulas de religião que tive ao longo de uma educação católica de mais de oito anos. Estava errado. Na primeira aula o professor nos perguntava: “O que é o mal?”. Pra uma pessoa acostumada com educação católica, é fácil: o mal é o diabo. O mal é o pecado. O mal é o inferno. Ah, o mal é o mal, com mil demônios! A gente nunca para pra pensar nisso. Paramos para pensar no que vem depois da morte, mas não para pra pensar no mal. E aí naquelas duas horas fomos convidados a pensar sobre isso. Muitos alunos colocaram as suas opiniões citando coisas que eles julgavam maldosas. E a maioria tinha uma visão católica desse “fenômeno”. Então, depois de muito debatermos, o professor disse que o mal é uma invenção humana.

Bem, eu nunca esperava que uma universidade católica fosse permitir uma aula daquelas e, muito menos, que o professor, um Teólogo, que não era padre, como ele fez questão de frisar, nos levasse àquela reflexão. Então ele começou a explicar a origem do conceito de maldade. Logo volto à essa reflexão.

CONSPIRAÇÃO CELESTIAL

Os Celestiais em visual a la Tron, em Terra X.
Os Celestiais em visual a la Tron, em Terra X.

O que quero colocar é que o conceito de religião e de deuses deve ser relativizado. Um deus pode ser o raio, pode ser o sol, pode ser um homem que é três ao mesmo tempo, pode ser o mar, um ser de espírito elevado, ou um homem com cabeça de elefante. Mas no final de década de 60, Erich Von Däniken lançou um livro chamado “Eram os deuses astronautas?”, afirmando que havia indícios de que alienígenas teriam vindo à Terra e auxiliado as civilizações humanas a evoluírem. Essa premissa gerou o filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick e também influenciou Jack Kirby na criação dos super-heróis Os Eternos, quando da sua volta à Marvel. Os Eternos eram uma raça perfeita de humanos, criados pelos Celestiais – seres que existiam desde o início do Universo – e que deviam combater o Deviantes, a primeira raça criada pelos Celestiais e que haviam saído perversas demais.

Na história de Terra X, fica-se sabendo que durante milênios existiu uma conspiração Celestial na Terra. Nosso planeta seria usado como uma espécie de embrião para um novo integrante dessa raça de deuses alienígenas. Todo o potencial humano havia sido criado e desenvolvido/manipulado pelos homens-gigantes espaciais. Cabia agora aos heróis remanescentes da Terra combater esses seres e impedir que destruam a Terra para que seu “irmão” nasça.

X-51, o Homem-Máquina conversando com Uatu, o Vigia.
X-51, o Homem-Máquina conversando com Uatu, o Vigia.

O FRUTO DA ÁRVORE DO CONHECIMENTO

A mecânica da série funciona através de diálogos expositivos entre Uatu, o vigia e X-51, o Homem-Máquina. Por vezes pode parecer cansativo e por vezes revela pérolas do autoconhecimento humano. Praticamente filosofia e teologia discutidas em um gibi de super-heróis. Enquanto X-51 representa o existencialismo, tentando defender um propósito para a humanidade, justificando suas ações e defendendo a bondade inerente de nossa espécie, o Vigia é niilista: não existe bem ou mal, não existe um propósito maior, a não ser servir aos Celestiais. Chegamos até o seguinte diálogo:

Caveira Vermelha: “Eu sou Deus!”

Capitão América: “Então, eu sou Nietzche!”

Diferente da maioria das histórias de super-heróis parece não haver maniqueísmo, para ser apenas um vislumbre passivo do que o universo Marvel se tornou, cada edição mirando em um super-herói, mas aí é que estamos errados. Como uma parábola saída do Gênese, X-51 também acaba comendo do fruto da árvore do conhecimento e lhe é revelado que a humanidade ganhou os poderes dos Inumanos, através da bomba de névoas terrígenas e do contato com o vibranium existente no planeta. Dono desse conhecimento, X-51 revela o propósito dos Celestiais aos heróis, que passam a combatê-los.

É interessante a inversão que acontece na história: enquanto deuses criam homens que criam máquinas, em Terra X, uma máquina salva os homens dos pretensos deuses.

“Então, permita-me lhe dizer o que é o mal. O mal é uma invenção. Uma invenção humana que tenta explicar algo além da compreensão do homem. O bem é um conceito que a tudo acoberta. Acoberta o medo. O abandono. As consequências. A morte. Por isso, a história da humanidade fervilha de ‘inocentes’ sacrificados em nome do bem. Por séculos, a humanidade prostrou-se no altar imaginário do bem e do mal… Em reverência àqueles que julgaram deuses”.

É isso que nos diz o Vigia sobre o que é o mal. Mas, após ver que o Vigia passou milênios observando a humanidade sem intervir no seu destino, X-51 chega à conclusão de que o verdadeiro mal, além das atrocidades, das guerra e lutas, o grande mal é a indiferença.

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