Pantera Negra e o Afrofuturismo de Wakanda

Saiu o teaser de Pantera Negra e nele ficamos sabendo que Wakanda é um país escondido do resto da humanidade. Uma nação próspera e futurista que poderia ser considerada o El Dorado que não se encontrava na América latina, mas no coração da África. Esse futurismo nós podemos encontrar presente nas histórias do Pantera Negra desde sua criação. Vamos falar um pouco sobre Afrofuturismo e as histórias do Príncipe T’Challa. Venha comigo!

Wakanda é um pequeno país africano que enriqueceu no século XIX graças à extração de um mineral raro e com diversas propriedades chamado vibranium. Assim, foi possível àquela cultura um avanço social e tecnológico muito maior que grande parte das sociedades daquele tempo. Wakanda possui um sistema monárquico que se apoia não somente nos negócios, mas também na religião, baseada em feitiçarias e mortos dedicados ao grande Deus Pantera, símbolo de sua sociedade. É através do Deus Pantera que são escolhidos os representantes de seu povo, os Panteras Negras, guardiões de suas fronteiras, tecnologias e sacerdotes supremos de sua religião.

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As tecnologias do Pantera Negra e de Jack Kirby.

Os visuais de Wakanda criados por Jack Kirby, assim como o visual da Asgard de Thor, se apoiam num futurismo imaginado na década de 60. Da mesma forma acontece com o Afrofuturismo, uma forma de prever o design do que está por vir com elementos tribais africanos. O Afrofuturismo é um movimento pluridisciplinar que estabelece o encontro entre a história, o resgate da mitologia e cosmologias africanas com a tecnologia, a ciência, o novo e inexplorado.

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O “filósofo cósmico” Sun Ra.

O Afrofuturismo surgiu na década de 60, em paralelo a efervescência da cultura Beatnik, que, por sinal, era forte entusiasta de ritmos afro-americanos. Um dos pioneiros do movimento afrofuturista foi o compositor de jazz, poeta e “filósofo cósmico”, Sun Ra. Herman Poole Blount ou Le Sony’r Ra era um compositor, músico, poeta e filósofo conhecido por sua “filosofia cósmica” e performances. Sun Ra abandonou seu nome de nascimento alegando que “Esta é uma pessoa imaginária, nunca existiu… Outro nome que eu use além de Ra é um pseudônimo”; O nome Sun Ra vem do inglês Sun, Sol, e Ra, o deus egípcio do Sol, o maior de todos os deuses daquela região. Alegando ser o “Anjo da Raça” e não da Terra, mas de Saturno, Sun Ra desenvolveu uma personalidade complexa de filosofias “cósmicas” e poesia lírica que o fizeram um pioneiro no afrofuturismo que ele pregava a “consciência” e a paz sobre todos.

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A escritora de ficção científica Octavia E. Butler

Mas o termo Afrofuturismo em si, só foi cunhado em 1994, por Mark Dery, em um ensaio chamado Black To The Future: ficção científica e cibercultura do século XX a serviço de uma apropriação imaginária da experiência e da identidade negra para descrever a “ficção especulativa que trata de temas afro-americanos e lida com preocupações afro-americanas no contexto da tecnocultura do século XX”, como por exemplo os trabalhos de ficção científica da autora Octavia E. Butler. Uma das críticas ao trabalho de Butler diz que embora Butler ofereça “uma sensibilidade afrocêntrica no cerne de suas narrativas”, sua “insistência no hibridismo além do ponto de desconforto” excede os princípios tanto do nacionalismo cultural negro, quanto do pluralismo liberal “dominado por brancos”.

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A nave-mãe dos shows da bandas de George Clinton.

Mas o Afrofuturismo já aparecia durante o movimento black dos anos 70, em bandas como Parliament e Funkadelic, em suas apresentações e clipes musicais buscando um futuro diferente daquele que a cultura branca projetava. George Clinton, líder do Parliament, citava até mesmo “Afronautas certificados, capazes de funktizar galáxias”. No século XXI, na música, algumas artistas que podem ser ligadas com o Afrofuturismo são Erykah Badu, Missy Elliott e até mesmo Beyoncé em alguns de seus clipes. Mas nenhuma foi tão longe quanto Janelle Monáe, que em suas músicas e produções explora reinos de escravidão e liberdade de ciborgues e a indústria fashion.

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O visual de Janelle Monáe no disco Archandroid.

O ambiente que surge do descompasso entre o fim das guerras civis na África e a reconstrução das cidades atingidas, fizeram com que artistas africanos como Kia Henda e Nástio Mosquito criassem as suas próprias interpretações e acrescentassem ao debate a importância da extinção do conceito da imagem do negro como pejorativamente exotizado, que muitas vezes é retratado por Hollywood. “Mostro como identificam o exotismo no africano e como isso propagou a imagem do negro, do preto, do tribal, o que constrói todo o preconceito.”, disse Mosquito, em matéria publicada na Folha de S. Paulo em 2010.

Na estética, campo que nos interessa aqui, e que podemos ver sublinhado no corpus da obra de Jack Kirby no Pantera Negra, encontramos os seguintes elementos:

  • Referências ao misticismo, primitivo e a mitologia africana;
  • Roupas sobrepostas, alongadas e com várias camadas;
  • Elementos com mood Sci-Fi;
  • Cabelos descoloridos;
  • Metais/Specchio;

Outros autores populares do Afrofuturismo são o escritor Samuel R. Delany e os diretores Jean-Baptiste Basquiat e Spike Lee. Nos quadrinhos, um autor que podemos destacar e que trabalhou com o Pantera Negra por muitos anos, embora sua fase nunca tenha sido publicada no Brasil, foi Christopher Priest aka James Owsley. Ele também fez parte da Milestone Media, que trouxe muitos elementos Afrofuturistas para os quadrinhos e que você pode ler mais sobre aqui. Priest também trabalha como música e foi ordenado pastor da Igreja Batista dos Estados Unidos.

O mundo de Wakanda e do Pantera Negra são um exemplo incrível do Afrofuturismo tanto em prosa como em estética, convivendo os costumes tribais da religião do deus-pantera com as tecnologias providenciadas pela exploração do metal vibranium. Ao mesmo tempo que atraem a cobiça de outras nações sobre esse país, bem como de mercenários, como o inimigo mortal do Pantera, o Garra Sônica. Agora é esperar para ver como o filme do Pantera vai nos mostrar todo esse cenário. Pelo teaser já sabemos que podemos esperar coisas boas.


Fica aqui o link de onde tiramos algumas informações deste post do site Geledés.

Agradeço ao Samir Machado por me falar do Afrofuturismo e indicar o link.

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