O Incrível Caso dos Desenhistas Clones

Existem desenhistas que, de enxergar de longe, você já sabe de quem é a autoria do desenho. Outros, nem enxergando bem de pertinho. Porém, existe um caso ainda mais incrível que essa discrepância. O caso dos desenhistas clones. Aquelas obras de desenhistas que são tão parecidas que, às vezes fica difícil dizer de quem é qual. Fizemos uma lista com trinta desenhistas e quinze pares de clones. Não colocamos desenhistas brasileiros para não rolar aquele processinho esperto. Mas basta dizer que nos anos 90, o mercado queria era muito mais Jim Lees e muitos mais Rob Liefelds, Marc Silvestris e coisas assim. Isso acabou criando uma escola, não só no Brasil. Mas deixa o Brasil, que aqui só se pode falar bem dos nossos autores, não é mesmo? Vamos é mexer com os gringos. Preparados? Apontar… Fogo!

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Copiar desenhos faz parte do processo do aprendizado do desenhista, claro. Mas depois que você se torna profissional, usar referências pode se tornar uma vergonha. Existem muitos sites que “denunciam” as referências de gentes como Greg Land e Tim Bradstreet em suas capas. Eu não vejo nenhum problema em usar referências e em ter um desenhista como orientação de estilo. Acho até legal para o desenhista se posicionar no mercado. Afinal, quando a editora, por alguma razão não puder chamar o produto de marca, ela vai usar o genérico. Então, é uma bela janela de marca para o seu trabalho. Embora, se você não evoluir, pode passar o tempo todo tachado como o “genérico do fulano”. Ou pode cavar seu espaço e desenvolver seu estilo próprio com o tempo.

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Não por acaso, na década de 60, a Marvel, através de John Buscema e John Romita, ao lado de Stan Lee, lançou o famigerado livro Como Desenhar à Maneira da Marvel. Este livro está até disponível no Brasil e fez com que os desenhistas da Casa das Idéias fossem, de certa forma pasteurizados em seus estilos, até o início da década de 80. Foram os anos 90 que, ao romper com esse estilo quadrado e layouts comportados de página, que atraíram a atenção para os desenhistas, que passaram a receber contratos milionários. Por outro lado, também gerou uma série de copiadores de estilo, principalmente de Lee, Liefeld e Silvestri. Vamos à lista.


JOE MADUREIRA/GERARDO SANDOVAL

Joe Madureira também foi um grande auge dos desenhistas da Marvel, principalmente nos X-Men, onde foi um dos marcos da saga A Era do Apocalipse, junto com o brasileiro Roger Cruz. Duas décadas mais tarde, para comemorar o aniversário da saga mutante, a Marvel chamou Gerardo Sandoval para fazer uma capa comemorativa. Podemos ver o quanto Madureira, que se afastou dos quadrinhos para trabalhar nos videogames, influenciou o artista. Sandoval logo foi trabalhar na revista dos Guardiões da Galáxia 3000, depois passou por vários títulos, indo parar no título do Venom atualmente publicado no Brasil.


 

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ALAN DAVIS/BRYAN HITCH

Ok, hoje em dia pode não parecer, mas os dois ingleses possuem um traço bastante parecido. Tanto é que Hitch começou a desenhar na Marvel UK (que fizemos uma série de posts. O primeiro você pode ler aqui. São doze.), desenvolvendo os personagens próprios da versão inglesa da Marvel. Um desses trabalhos, que chegou até a sair no Brasil, as Guerras Mys-Tech, fica bem óbvia a influência do criador de Excalibur no trabalho de Hitch. Depois, com o tempo, o pupilo foi se afastando no mestre e se tornando ainda mais famoso que ele por usar referências fotográficas e cinematográficas na série de megasucesso Os Supremos.


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EDUARDO RISSO/MARCELO FRUSIN

Ambos são argentinos da cidade de Rosário, contudo, os dois possuem uma diferença de idade. O que leva a crer que Frusin se inspirou no trabalho de Risso, que é mundialmente famoso pela série 100 Balas, ao lado de Brian Azzarello. Frusin também trabalhou com Azzarello, podendo ter sido uma indicação de Risso, nas séries Hellblazer e Loveless. Hoje, Frusin trabalha para o mercado europeu e vem fazendo artes de babar, você pode acompanhar no Instagram dele, desenvolvendo um estilo mais europeu.


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DOUG MAHNKE/PATRICK GLEASON

Doug Mahnke começou a despontar nos Estados Unidos nas revistas da Liga da Justiça escritas por Joe Kelly. Pat Gleason teve uma vasta carreira na 2000 a.d. antes de ir para os Estados Unidos, quando estourou na revista Batman & Robin ao lado de Peter J. Tomasi. Os estilos são tão parecidos que os dois passaram a dividir um estúdio no estado de Minnesota, nos Estados Unidos e eles têm se revezado na arte das histórias do Superman atualmente.


ANDY KUBERT/ARDIAN SYAF

Andy e Adam Kubert são irmãos e ambos são filhos do lendário desenhista e fundador da escola de desenho Kubert de Nova York, Joe Kubert. Porém, apesar dos desenhos de Andy, Adam e Joe serem parecidos, cada um guarda uma particularidade em que é possível identificá-los. O mesmo não pode ser dito quando comparamos a arte de Andy Kubert com a do indonésio Ardian Syaf. Este último foi, de certa forma, banido dos quadrinhos por ter desenhado mensagens de ódio na revista X-Men Gold. Antes disso ele trabalhou com Batgirl e Batman/Superman.


ARTHUR ADAMS/NICK BRADSHAW

Arthur Adams é um dos desenhistas mais queridos dos fãs, principalmente dos fãs dos mutantes da Marvel, com que trabalhou com X-Men, Novos Mutantes e criou o personagem Longshot ao lado de Ann Nocenti. Hoje em dia, Adams trabalha mais como capista. Podemos encontrar uma grande influência sua no trabalho de Nick Bradshaw, mais conhecido por seus desenhos para a revista Wolverine & os X-Men, que também guarda alguma semelhança com o trabalho do artista de Jovens Vingadores, Jimmy Cheung. A semelhança é realmente assustadora.


STEVE EPTING/MIKE PERKINS

Steve Epting tem uma longa carreira tanto na Marvel quanto na DC Comics, sendo, talvez mais lembrado por seu trabalho nos Vingadores na década de 90 e na fase de Ed Brubaker no Capitão América, quando o personagem foi morto. Revezando com Epting na revista do Capitão, estava Mike Perkins, que antes havia feito a minissérie do Union Jack. Um dos últimos trabalhos de Perkins foi a revista do Carnificina, em que seu trabalho se tornou um pouco mais sujo e sombrio.

Você pode ler uma resenha do título do Carnificina neste link.


PACO MEDINA/CARLO BARBERI

Pra começar, Paco Medina já vem de uma outra escola. A escola de Ed McGuiness no Deadpool, da qual também passou Pete Woods. Por isso, foi uma escolha acertada chamá-lo para a revista do Deadpool escrita por Daniel Way, quando foi relançada em 2008. Quando Medina saiu do título para assumir a revista dos X-Men, Carlo Barberi foi chamado para substituí-lo, mostrando-se praticamente um sinônimo de Paco Medina. O primeiro passou por diversas revistas da Marvel, sendo sempre muito requisitado. O segundo, por sua vez, participou de outros títulos do Deadpool e fazendo outros fill-ins.


DAVID FINCH/JASON FABOK

Agora pode não parecer tanto, mas a verdade é que logo no início de Os Novos 52, a arte dos dois era muito semelhante. Finch era o responsável pelo terrível título Batman: The Dark Knight, surgido na onda do filme homônimo. O título não ia bem, e a DC Comics tentou trocar a equipe, colocando no lugar de Finch, John Layman e Jason Fabok, que tinha um estilo parecido com o de Finch, porém mais limpo e com uma anatomia mais correta. Não demorou muito para que Fabok alçasse voo para um nível de importância igual ou maior que de Finch. Hoje ele está cotado para colaborar com Geoff Johns na revista Three Jokers.


 

MARC SILVESTRI/TYLER KIRKHAM

Marc Silvestri estourou nos X-Men e em Wolverine, logo virando grande estrela e, mais tarde, fundando a Image Comics. Lá, ele fundou o estúdio Top Cow, onde reuniu sob sua asa muitos desenhistas que tinham um estilo semelhante ao seu, como, por exemplo Michael Turner e o já citado David Finch. Mas nenhum saiu tão igual ao pai como Tyler Kirkham. Em seus primeiros trabalhos na Marvel, como em Ultimate Quarteto Fantástico, essa semelhança é bem notável. Hoje em dia, seu traço está mais peculiar, buscando algumas influências de mangá. Ele costuma estar associado a personagens como Superman e o Exterminador.


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GEORGE PÉREZ/PHIL JIMENEZ

Esse é, talvez, o caso mais notório de desenhistas clones. Mas Phil Jimenez não tem nenhuma vergonha disso, ele tem orgulho de ter se inspirado no estilo de George Pérez, que lhe encantava quando criança copiando as histórias da Mulher-Maravilha. Não por acaso, anos mais tarde Jimenez foi trabalhar, assim como Pérez, escrevendo e desenhando a princesa amazona. Jimenez também trabalhou com os X-Men, desenhou Os Invisíveis e Crise Infinita. Seu último trabalho para a DC Comics foram os roteiros e desenhos da nova Superwoman.

Você pode ler uma resenha do título da Superwoman neste link.


STUART IMMONEN/TERRY DODSON

Ok, ok, hoje até pode não parecer, mas nos anos 90, metade da carreira de Immonen e começo da carreira de Dodson, os dois trabalhos eram muito parecidos. Immonen trabalhava com o Superman e Dodson fazia alguns trabalhos com os X-Men. Enquanto o trabalho de Immonen se tornou cada vez mais versátil, o de Dodson se estabilizou com a ajuda de sua mulher, Rachel, quando trabalharam com a Geração X. Depois, os dois viraram sinônimos de pessoas bonitas, beldades masculinas e femininas.

Leia uma resenha do incrível trabalho de Kathryn e Stuart Immonen, Moving Pictures, inédito no Brasil.

Leia uma resenha do hilário Trouble, um quadrinho da Tia May, por Mark Millar e Terry Dodson, também inédito no Brasil.


PASQUAL FERRY/CARLOS PACHECO

A mesma coisa da dupla anterior pode ser dita destes dois. Ferry havia se destacado nos anos 80 com sua graphic novel autoral Crepúsculo (não confundir com os filmes e linha de livros de Stephanie Meyer). Pacheco surgiu nos X-Men, no final dos anos 90. O coincidente (ou não) é que ambos são espanhóis e os dois começaram nas revistas mutantes durante a fase pós-Massacre. Ferry hoje, é mais conhecido por suas capas variantes, seu trabalho na adaptação em quadrinho de O Jogo do Exterminador e a minissérie de Adam Strange. Já Carlos Pacheco esteve por muito tempo associado ao Quarteto Fantástico, que escreveu e desenhou. Também é famoso pela minissérie Vingadores: Eternamente, ao lado de Kurt Busiek. Seus últimos trabalho foram para a revista Ocupação Vingadores, estrelada pelo Gavião Arqueiro.  


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JACK KIRBY/JOSÉ LADRÓN (LADRÓNN)

Bem, será que eu preciso contar para vocês quem é Jack Kirby? Ele simplesmente criou personagens como Darkseid, X-Men, Vingadores, Thor, Hulk, e praticamente toda a fundação da Marvel. Ao lado de Stan Lee (cof, cof, cof!). José Ladrón começou sua carreira no mercado europeu de quadrinhos. Nos Estados Unidos ele é mais conhecido por sua passagem pela revista do Cable, onde a semelhança com Kirby é notória. Depois, ficou mais conhecido pela série Elephantmen, de animais antropomórficos onde, através da pintura, trabalhou com um estilo mais realista e mais distante do “Rei” Kirby.

Leia aqui um post que ensina porque você deve valorizar mais Jack Kirby que Stan Lee. 


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JESUS SAIZ/JAVIER PIÑA

Outra dupla de desenhistas espanhóis que possuem um estilo parecido. Muitas vezes Piña serviu de artista fill-in para Saiz. Este começou nos quadrinhos americanos na revista da Justiceira, da DC Comics. Logo depois foi para um longa passagem na revista do Xeque-Mate, ao lado de Greg Rucka. Também desenhou os últimos arcos de O Bravo e o Audaz, com J. Michael Straczynski. Na iniciativa dos Novos 52, trabalhou na revista do Monstro do Pântano. Indo para a Marvel tomou os lápis do título de Steve Rogers antes do Império Secreto. Agora, no Fresh Start, está encarregado da nova revista do Doutor Estranho. Piña só teve um trabalho de destaque que não estava associado com Saiz, que foi um título de curta duração do Esquadrão Suicida, ao lado de John Ostrander.

Leia um Guia de Leitura do Monstro do Pântano, que inclui o trabalho de Jesus Saiz.

Leia um post sobre a trajetória das várias publicações de The Brave and The Bold nos Estados Unidos.


Ufa! Que trabalheira, mergulhadores! Bem, essa é uma lista relativamente pequena. Certamente ao ler este post lhe ocorreram milhares de duplas clones, não é mesmo? Bom, então não guarde isso para si e nos deixe saber! Comente! Quem sabe não fazemos uma “a volta dos que não foram” numa próxima lista? Abraços submersos!

Agradeço ao amigo Alexandre Lopes por ter dado a ideia para este post. =)

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2 comentários sobre “O Incrível Caso dos Desenhistas Clones

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